Capela histórica da Gamboa ganha projeto de restauração para preservar templo do século XIX
Entre as copas das árvores, os telhados antigos e as construções do alto da Gamboa, uma torre de inspiração neogótica conserva sua presença na paisagem da Região Portuária do Rio de Janeiro. É a Capela de Santo Cristo dos Milagres, templo do século XIX situado no Hospital Nossa Senhora da Saúde, conhecido pelos cariocas como Hospital da Gamboa. Tanto o hospital quanto a capela pertencem à Irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, cuja história reúne assistência aos necessitados, vida religiosa e um patrimônio construído ao longo de gerações.
Atualmente interditada, a capela é objeto de um projeto de restauração desenvolvido pelo Instituto Amatari, que pretende recuperar suas condições de conservação e uso, preservando os elementos arquitetônicos que a distinguem entre os templos históricos da cidade. Segundo a instituição, a proposta recebeu manifestação favorável do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) em julho de 2025, sob o ponto de vista patrimonial. A execução das obras, entretanto, ainda depende de recursos e das demais providências necessárias à intervenção.
O projeto foi encaminhado ao Ministério da Cultura, pelo Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), para enquadramento na Lei Rouanet. Conforme a informação mais recente fornecida pelo Instituto, a proposta está em análise. A expectativa é avançar posteriormente na captação junto a empresas e patrocinadores, transformando os levantamentos e estudos técnicos em obras no conjunto histórico.
A mobilização começou em 2022, quando o Amatari apresentou à Santa Casa uma proposta para desenvolver o projeto de recuperação do templo. Com o acolhimento da iniciativa pelo provedor Francisco Horta, foram realizados levantamentos arquitetônicos, pesquisas históricas, visitas técnicas e estudos das condições de conservação, em diálogo com os órgãos de proteção do patrimônio.
À frente do Instituto, o diretor-presidente Marcos Soares Pereira afirma que a iniciativa surgiu da preocupação com a deterioração de uma construção cuja importância ultrapassa seus atributos arquitetônicos. “Ela guarda histórias, tradições, manifestações de fé e acontecimentos que fazem parte da memória da cidade. Nosso propósito foi construir uma solução capaz de assegurar sua preservação e recuperar sua importância para as futuras gerações”, explica.
Uma capela entre a caridade e a história do Rio
A trajetória do templo se confunde com a do hospital e com um período em que epidemias impunham enormes desafios à população carioca. Instalado na Gamboa em meados do século XIX, o Hospital Nossa Senhora da Saúde integra a tradição assistencial da Santa Casa, marcada também pela atuação das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, que associavam o cuidado dos enfermos à vida religiosa.
Segundo o histórico publicado pelo próprio hospital, a construção da capela começou em 15 de março de 1868, financiada por esmolas e doações, sob a direção técnica do Padre Gould. Uma celebração solene à meia-noite do Natal de 1869 reuniu cerca de mil pessoas em sua inauguração, embora as obras só tenham sido concluídas em 1871. São datas que situam o templo no Rio imperial, quando hospitais, capelas e irmandades constituíam uma rede fundamental de amparo a Cidade. Hoje, o hospital segue em pleno funcionamento e é referência em oftalmologia e dermatologia além de outras especialidades.
A torre esguia, os arcos apontados e os ornamentos de inspiração neogótica conferem à capela uma fisionomia particular. Vista entre a vegetação e os telhados do conjunto hospitalar, ela permanece como uma referência de um trecho do Rio em que a memória religiosa também ajuda a contar a história da saúde e da assistência aos mais pobres.
É essa relação entre arquitetura, fé e uso cotidiano que o projeto pretende preservar. A proposta contempla fachadas, cobertura, torre, esquadrias e outros elementos construtivos, além de áreas internas e externas, acessibilidade e adequação das instalações. A intenção é permitir que a recuperação seja acompanhada de condições para a conservação permanente do imóvel.
O trabalho tem coordenação do arquiteto restaurador Jorge Astorga Garro e reúne profissionais de diferentes especialidades. Participam o engenheiro Geraldo Filizola, o arquiteto Luciano Cavalcanti, o arquiteto e orçamentista Aldroaldo de Jesus e Souza e o Instituto Traço, parceiro técnico na estruturação da proposta.
Para Marcos, a restauração exige compreender a construção antes de intervir sobre ela. “Restaurar não significa simplesmente substituir materiais antigos por novos ou devolver uma aparência renovada ao edifício. Significa compreender sua história, identificar suas características originais, avaliar os danos existentes e definir intervenções que preservem sua autenticidade”, afirma.
Patrimônio religioso no caminho da revitalização
A perspectiva de recuperar a capela surge enquanto a Região Portuária recebe novos empreendimentos residenciais e investimentos que vêm alterando sua ocupação. Na Gamboa, onde a paisagem reúne antigos estabelecimentos assistenciais, manifestações religiosas e referências da história social carioca, a conservação dos edifícios históricos é parte importante dessa transformação.
No caso de mais este conjunto da Santa Casa, trata-se de preservar também a presença das irmandades católicas na formação do Rio. Durante séculos, doações, legados e rendas de imóveis ajudaram a manter hospitais, abrigos e outras obras de misericórdia. A capela inserida no hospital é uma expressão material dessa ligação entre o atendimento aos doentes e a vida espiritual.
Para Cláudio André de Castro, mordomo dos prédios da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro e responsável pela administração de todo o portfólio imobiliário da instituição, a recuperação da capela integra esse esforço de reorganização. “A Santa Casa tem priorizado a retomada de suas tradições e a reorganização do seu patrimônio imobiliário. Isso passa pela valorização do patrimônio histórico e cultural que está sob a guarda da Irmandade desde a sua fundação, em 1582. Essa iniciativa de restaurar a Capela de Santo Cristo dos Milagres se coaduna com o desejo da gestão do nosso provedor Francisco Horta de colocar de volta a Santa Casa no lugar que ela tem que ocupar na sociedade do Rio de Janeiro”, afirma.
Marcos também relaciona a recuperação do templo às transformações do bairro. “Acredito que a revitalização urbana precisa caminhar lado a lado com a preservação da memória. A Região Portuária concentra uma riqueza histórica extraordinária”, diz. Segundo ele, o desafio agora é reunir os recursos necessários para executar o projeto. “Queremos que esse patrimônio volte a ser valorizado e faça parte desse novo momento vivido pela Gamboa.”
A iniciativa ocorre em meio à reorganização da própria Santa Casa, acompanhada pelo DIÁRIO DO RIO em reportagens recentes. Sob a provedoria de Francisco Horta, a Irmandade vem recuperando imóveis, revendo contratos e reorganizando seu patrimônio para ampliar as receitas destinadas à assistência. Em setembro, o Diário registrou mais de R$ 300 milhões em ativos imobiliários recuperados e pagamentos à Justiça do Trabalho superiores a R$ 80 milhões, além da destinação de uma herança estimada em R$ 88 milhões ao enfrentamento do passivo trabalhista. A recuperação inclui medidas judiciais contra cobranças abusivas e irregularidades herdadas de antigas administrações, ao lado da retomada de atividades religiosas, como a reabertura da Capela do Santíssimo Sacramento, no Hospital Geral. Nesse esforço para recompor as contas e cuidar dos bens da Misericórdia, o projeto da Gamboa abre uma perspectiva de preservação para mais um pedaço do velho Rio.
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