O Tempo
06/11/2026 20:30

Gasmig: como a companhia de gás de Minas quer chegar a todas as regiões do estado

Gustavo De Marchi, presidente da Gasmig, a companhia de gás de Minas Gerais, é o entrevistado da Temporada Minas S/A Cenários deste sábado (7), disponível nas plataformas de O TEMPO. Na entrevista, ele afirma que o gás tem, pela primeira vez, prioridade nas agendas federal, estadual e do grupo, e detalha os projetos para as regiões do estado, do biometano no Triângulo Mineiro a um gasoduto no Sul de Minas e a termelétricas na área mineira da Sudene. Ele aponta o licenciamento ambiental federal como “o grande gargalo” e diz que, sem o gás natural, os data centers “não vêm para o Brasil”.


Gustavo, a sua experiência na advocacia empresarial foi decisiva para comandar a Gasmig?

Mais do que decisiva, foi fundamental. Minha origem é a eletricidade, mas já estamos no gás há bastante tempo. 
O fato de advogar para quase todas as distribuidoras de gás e para a própria associação me deu um olhar panorâmico do setor: entendi as dores e as teses de um setor regulado, em que a regulação é determinante e voltada à expansão. Conhecer a regulação, o marco legal e o perfil de cada empresa me permite hoje emprestar esse conhecimento para avançar em projetos, como temos feito nos últimos cinco, seis meses.

Você atuou em diferentes estados. O que torna Minas tão desafiadora?

Não tem estado mais desafiador do que Minas Gerais, seja pela dimensão, seja pelas particularidades. Cada região tem seus desafios e suas vocações: umas são mais voltadas à mineração, outras ao agronegócio, e temos uma região extremamente relevante da Sudene, que poucos sabem. Não tem uma receita única. Lembrando Guimarães Rosa, Minas são várias. É um estado do interior do país com dimensão similar à da França continental, e isso exige uma infraestrutura muito mais robusta e naturalmente mais custosa. Não é fácil, mas avançamos com muito sucesso.

A Gasmig tem o mesmo foco há décadas, levar gasoduto e estender a rede. Por que agora é diferente?

Por causa de uma tempestade perfeita. Pela primeira vez, o gás é prioridade na agenda federal, na do Estado e na do grupo Cemig, e isso foi fundamental para destravar projetos que estavam pairando por aqui. Na agenda federal, porque somos uma indústria de rede: movimento o gás natural, não o comercializo. Com um mercado livre cada vez mais dinâmico e competitivo, mais oferta de molécula e preço menor, tudo isso fomenta a nossa indústria. A agenda regulatória da ANP traz o acesso à infraestrutura de terceiros e a revisão da tarifa dos transportes, e esse conjunto deve resultar em redução do preço da molécula.

As empresas pedem um gás mais barato e um gasoduto viabilizado. O que você responde?

Há uma falsa ideia de que a tarifa da Gasmig é o problema, mas ela é muito pouco representativa dentro do custo do gás. Quando houver uma redução de fato na molécula e uma ampliação da oferta, o gás cada vez mais presente na planta de uma siderurgia ou de uma mineradora vai ser um movimento quase natural. E o gás natural não é só um vetor de transição, é um vetor de adição, que ancora a ampliação de uma matriz mais renovável. Temos vocação para a solar no Norte de Minas, e a solar precisa de estabilidade, que o gás confere.

Em vez de um evento, vocês criaram o “Gás que Move”. O que é essa plataforma?

O Gás que Move é uma plataforma de relacionamento, não um evento. Começamos pela mineração, que hoje representa mais de 20% do nosso PIB e precisa resgatar a licença social, porque Minas não existe sem minério de ferro: o próprio nome do estado diz muita coisa. Na primeira etapa, ouvi as dores, os anseios e os pleitos de cada indústria. Tem mineradora ou siderúrgica que precisa de flexibilidade no contrato, outras querem um valor mais atrativo. A Gasmig vira, de certa maneira, uma boutique: cada um conversa sobre a sua necessidade.

Você quer que a Gasmig seja um “hub de soluções energéticas”. Como isso vai funcionar?

Vou começar com um exemplo: chegou aqui uma mineradora que teria excesso de gás no mês seguinte e pagaria o take or pay, ou seja, pagaria pelo gás usando ou não. Ao mesmo tempo, uma siderúrgica precisaria de gás adicional e pagaria a tarifa de ultrapassagem. Uma não sabia da outra. Isso nos fez criar o IHub, uma plataforma totalmente autônoma, digitalizada e com inteligência artificial, que faz de forma automatizada o que fazíamos de maneira mecânica e intuitiva: vamos simplesmente ligar uma ponta à outra. Vai trazer flexibilidade, previsibilidade e, no fim, redução do custo do gás natural. Uma diretora de suprimentos me disse que não há nada mais complexo do que comprar gás natural, e quisemos facilitar a vida dela.

No Centro-Oeste, o gasoduto de Betim a Divinópolis já está pronto. O que falta?

É um ativo já construído, e uma obra exemplar: seguiu rigorosamente o cronograma, sem nenhuma dor de cabeça na construção. Agora precisamos fomentá-lo. A região tem uma cultura muito forte do GLP, o botijão. Não é só criar um ambiente competitivo, é atacar esse aspecto cultural, e por isso vamos lançar o Gás que Move Centro-Oeste, com comunicação e trabalho de campo, de Betim a Divinópolis. O gás natural é mais renovável, menos poluidor e mais seguro, sem alguém entrando na sua casa de tempos em tempos. É um trabalho de formiguinha: o time tem que conversar com o síndico, com a dona Maria.

Como crescer no residencial sem pesar na conta do consumidor?

O residencial é praticamente greenfield: temos muito que avançar. Nossa função social é atender a dona Maria e o seu José, mas dependemos dos âncoras, da indústria, que justificam a construção e o custeio do ativo. O grande desafio, nosso e da agência reguladora, é definir uma margem ótima que permita a expansão sem gerar custo excessivo para o consumidor, senão ele não entra. Queremos expandir de forma disciplinada, com planejamento e estratégia, pegando as áreas mais adensadas, onde há rateio maior e o preço se dilui, e espraiando de forma orgânica, sempre em trajetória crescente.

O biometano virou case no setor. Por que Minas?

Tem surpreendido positivamente e virou um grande case para o setor de distribuição de gás. É uma tecnologia relativamente nova que se encaixou muito bem em Minas: temos o segundo maior potencial do país e uma particularidade, a produção próxima da demanda, ou seja, produção local, consumo local, gerando riqueza local. Eu sempre digo que o biometano é a geração distribuída do gás. A planta do Triângulo vai ser construída em um ano, um ano e meio, e a previsão é que a operação comercial comece em 2028. Já recebi um prefeito da região querendo levar o biometano para a mobilidade urbana e para a frota de coleta de lixo.

O que falta para o biometano ganhar escala?

O biometano precisa apenas de um incentivo: o seu atributo ambiental se tornar um ativo monetizável. A partir daí, essa tecnologia vai ganhar uma escala que ninguém consegue mensurar. Outro desafio é mapear o potencial, porque há produtores que nem sabem o que é biometano. Por isso estamos construindo um convênio com a área de agro do grupo Cemig, que se aproxima do agro, que é um terço do PIB de Minas. O potencial teórico no Brasil é de 1,2 milhão de metros cúbicos por dia, e não exploramos nem 2%. Não descarto que o biometano viabilize um gasoduto para escoar a produção do Triângulo Mineiro para outras regiões do estado e do país.

No Sul de Minas, o polo de Pouso Alegre atrai muitas empresas. O que a Gasmig prepara?

O polo de Pouso Alegre é uma das regiões que mais crescem no país, e todo mundo me liga dizendo que está se instalando lá. Tenho dois projetos que dialogam. Um é o gasoduto Sul de Minas, que começa com um gasoduto de transporte em São Paulo, de Bragança até Extrema, e a partir dali construiremos um gasoduto de distribuição de Extrema até Pouso Alegre, que poderá chegar a outras cidades. O outro é uma nova chamada pública para mapear o potencial do biometano e criar um corredor sustentável pela Fernão Dias, inicialmente por caminhão. Mais de 70% do gasoduto margeia a rodovia, próximo da zona de consumo da frota pesada.

O que trava a expansão?

O desafio, como em todo segmento de infraestrutura, é o meio ambiente. O projeto está em processo no IBAMA, que é um licenciamento federal e demanda muito tempo. Isso tem gerado uma angústia muito grande, porque é uma demanda da classe política, dos empresários e da região, e estamos perdendo oportunidades. Depende de uma política do governo. Infelizmente, isso se transformou num grande gargalo, para o gás, para o petróleo, para a eletricidade, 
e gera retrocesso, aumenta o custo e causa frustração.

O Brasil tem poucos gasodutos diante de países como os Estados Unidos. Como mudar essa realidade?

Envolve política pública. Acho que o gás voltou para a pauta, e de maneira definitiva. Ficamos muito tempo dependentes da Petrobras, que é o agente dominante, o incumbente, e de certa forma dita o rumo do gás natural. Por isso é fundamental a retirada gradual da Petrobras do setor, permitindo a entrada de outros agentes e criando um ambiente competitivo para que o gás finalmente tenha um crescimento orgânico.

O leilão do gás da União é um primeiro passo?

Foi um gesto, e conceitualmente uma boa notícia. O volume ainda é pouco representativo, mas é a utilização do gás do pré-sal que não passa pela Petrobras, e isso deve permitir uma molécula mais barata. O leilão é direcionado à indústria de base, e Minas, pela sua vocação minerária e siderúrgica, vai ser grande utilizadora. A perspectiva é ter uma molécula com metade do preço praticado hoje: projeto algo de US$7 a US$8 por milhão de BTU, enquanto hoje o preço está em torno de US$14. É um caminho que tem que começar.

O Ministério de Minas e Energia propõe um pacto nacional do mercado de gás, e vários estados já estão aderindo. Para Minas e para a Gasmig, ele é viável?

Essa iniciativa foi super bem-vinda. Temos tido reuniões com o Ministério de Minas e Energia, a interlocução lá é muito facilitada, é um ministério voltado para o gás natural. O pacto visa justamente ao desenvolvimento do gás natural e, sem dúvida, é uma agenda positiva. Agora, cada estado tem a sua dor e os seus anseios: o Espírito Santo tem suas necessidades, e Minas tem seus desafios. O que sugerimos, por meio da nossa associação, é que o pacto tenha uma pauta temática voltada para cada estado, de modo que possamos discutir de maneira individualizada as necessidades de cada um. A Gasmig quer levar a sua agenda para dentro do pacto, e não receber um pacote fechado.

Há um tema importantíssimo para Minas que, na minha visão, deve ser discutido em outro fórum: a reclassificação dos gasodutos, que a ANP tem condições de seguir. Por causa da dimensão do estado, os nossos gasodutos são muito mais robustos, e não se pode criar critérios meramente técnicos: é preciso trazer outros elementos, principalmente a funcionalidade desses ativos.

Na área mineira da Sudene, uma termelétrica de quase 300 megawatts em Governador Valadares pode mudar o mapa. Como?

Recebemos uma demanda extremamente relevante: a construção de uma termelétrica em Governador Valadares, de quase 300 megawatts. Uma vez construída, ela nos leva a fazer o que chamamos de arco, a redundância: hoje o gasoduto chega até o Vale do Aço, e a ideia é ligar ao Espírito Santo ou a uma rede de transporte na Bahia. Com isso, conseguimos levar um ramal ao Vale do Lítio, outra região muito rica que demanda gás natural. Esse cliente é âncora, por isso damos tanta atenção. O projeto já passou pelo GDE, o grupo de desenvolvimento do estado, e passa a ser um projeto estruturante, com atenção especial, inclusive no licenciamento. É um investimento que supera R$1 bilhão. Temos ainda uma térmica de menor porte, que já ganhou o leilão, com uma extensão de Belo Oriente de cerca de R$300 milhões.

O grupo Sada usa gás natural em cegonheiras em parceria com a Gasmig. O modelo pode ser replicado?

O projeto virou referência nacional: além de poder ser replicado, recebemos aqui vários agentes querendo saber os resultados na prática. É a prova real de que o gás para o veículo, principalmente a frota pesada, veio para ficar. 
É extremamente mais vantajoso do que o diesel, que tem tendência de alta e fica associado a questões geopolíticas e de conflito. O ecossistema já foi criado: há fabricantes com capacidade de produzir 1.000 caminhões por mês, que já montam veículos a gás. Falta incentivo, como o pedágio verde ou um IPVA mais atrativo, e sensibilidade do poder público, estadual e federal.

O Redata vai destravar o investimento em data centers? Quando será regulamentado?

Eu sou um eterno otimistas, estive em maio de 2025 em uma comitiva nos Estados Unidos para tratar do tema, onde tive acesso à primeira minuta do que hoje chamamos de Redata, em um ambiente com todas as big techs. Posso assegurar que não vamos avançar nessa agenda sem o gás natural, que confere a flexibilidade. Já temos isso no marco legal, mas precisamos batalhar para que o regulamento preveja o gás natural dentro do Redata. 

A Gasmig é estatal, e o estado passa por uma transição de governo. Você pretende ficar?

Aprendi desde cedo que cargo não se pede: você é convidado. Tenho um propósito muito claro, que vem sendo desenvolvido com razoável sucesso. O primeiro é trazer a Gasmig de volta ao mapa federal, e acho que já conseguimos. O segundo é gerar riqueza para a companhia: todos esses projetos acrescentam mais moléculas, seja 1 km, seja 2 km de gasoduto. E o terceiro é exercer a função social, por isso a atenção ao residencial e ao consumidor doméstico. É um projeto meu e estou muito satisfeito. A Gasmig tem uma equipe extremamente enxuta e competente e, independentemente de quem esteja no comando, vai seguir seu curso. Sou técnico, não tenho filiação partidária nem vocação política. Sou apaixonado pelo setor e quero deixar um legado.

Dá para sonhar com um ambiente mais destravado?

Acredito que o novo governo, pelo que vem anunciando, vai ter atenção aos quadros técnicos e dar continuidade a esses projetos, porque são projetos de longa maturação, e você não pode ter ruptura. Uma alteração de rumo aqui e ali é natural em toda transição, mas acredito realmente que vamos seguir com todos esses projetos e chegar ao bom destino. Minas precisa dessa previsibilidade. Enquanto eu estiver aqui, pode ter certeza de que cada dia avançamos em algum aspecto.

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