A TARDE MEMÓRIA Há 190 anos, Campo Santo foi destruído em revolta popular
“Até os meiados do século passado, era um dos nossos mais arraigados costumes o de se enterrarem os cadáveres no interior das igrejas. O povo da Bahia, excessivamente religioso, não comprehendia, para a última morada dos seus mortos queridos, senão o chão sagrado dos templos.”
Com o título “Super população na cidade dos mortos!” e uma foto grande da entrada principal do Campo Santo, A TARDE noticiou, em 20 de julho de 1939, que o cemitério situado na Federação precisava se expandir para acomodar melhor seus moradores perpétuos. No mesmo texto, cuja abertura é reproduzida logo acima, o jornal conta a história da fundação da “necrópole” um século antes, em 1836, há exatos 190 anos. Na época, o problema não era excesso de moradores, mas a resistência do povo em renunciar ao hábito cultivado desde os tempos coloniais, os enterros nas igrejas.
Tudo sobre A Tarde Memória em primeira mão!O Campo Santo foi inaugurado oficialmente e sob protestos em 23 de outubro de 1836, em meio às tensões de uma Salvador em expansão e em busca de abandonar os ares atrasados coloniais. A origem do cemitério remonta à necessidade de atender regras de saúde pública que proibiam os sepultamentos nas igrejas e conventos, para evitar contaminação pelos corpos em decomposição e o espalhamento de doenças.
Mas a mudança encontrou forte oposição e, em 25 de outubro, populares invadiram o local e arrebentaram a recém-inaugurada “cidade dos mortos”, apenas dois dias após a inauguração. O episódio passou para a história com o nome de Cemiterada. Após o evento e diante da pressão tanto popular quanto das irmandades religiosas e da própria Igreja, o Campo Santo só passou a receber sepultamentos quase 10 anos depois, em 1844.
A ideia de transferir os sepultamentos para fora dos templos religiosos já tomava corpo na Europa entre os séculos XVII e XVIII. A tendência chegou forte à Bahia do começo dos anos 1800. Por aqui, uma província marcada pela religiosidade católica ainda bastante barroca, o enterro dentro ou no entorno das igrejas fazia parte da vida cotidiana e da identidade cultural de Salvador, como explica o historiador Paulo de Jesus, doutor em História Social e professor da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB).
O especialista acrescenta que essa necessidade de mudança no jeito de morrer dos baianos chegou a Salvador em um período de grande agitação social, com levantes de escravizados e insurreições urbanas por espaço, sociabilidade e liberdade. "Quando ainda éramos colônia, em 1801, já havia um debate sobre o enterramento fora das igrejas no reino português. Quando nos tornamos independentes, em 1822, e após as lutas e seus desdobramentos em 1823 na Bahia, passamos a viver uma intensa convulsão social, com uma série de levantes e revoltas. E é nesse meio tempo que a província aprova uma medida que estava em consonância com as propostas médico-sanitárias da época, realizar os enterros fora das igrejas& quot;, detalha.
Pessoas escravizadas, pobres, classe média e a elite econômica da província viam no ritual fúnebre uma prática espiritual essencial. A morte também seguia a mesma hierarquia da vida: quanto mais rico e importante, mais o morto ganhava seu lugar eterno perto do altar-mor, uma forma de reafirmar poder e prestígio social. Antes do Campo Santo, vale destacar, Salvador já tinha dois locais para enterramentos fora das igrejas. Um era o Cemitério dos Ingleses, destinado aos não católicos estrangeiros; e o outro era o Cemitério do Campo da Pólvora, para escravizados, pobres em geral e indigentes.
"É importante destacar essa informação porque o Campo Santo pode não ter sido o primeiro cemitério da cidade, mas foi o que causou o debate público sobre o chamado bem morrer", acrescenta o professor Paulo de Jesus.
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Ciência x fé

Médicos sanitaristas do começo do século XIX defendiam que o "ar maléfico" (chamado na época de miasmas) que saía das sepulturas no chão das igrejas espalhava doenças, infecções e colocava em risco a saúde de quem frequentava as missas, podendo ainda servir como irradiador de epidemias. Além disso, com o passar do tempo, o grande volume de pessoas enterradas no mesmo espaço fazia com que o cheiro de decomposição dos corpos fosse presença constante nas celebrações religiosas.
"A medicina sanitária avançava muito nessa época. Então você tinha esse saber científico, se podemos chamar assim, em franca oposição aos anseios da maioria da população", diz Paulo de Jesus.
Em 1828, uma lei imperial deu autonomia para as câmaras municipais do Brasil criarem e administrarem cemitérios longe dos templos. Na Bahia, uma empresa privada obteve junto à presidência da província o direito de construir um cemitério. O local escolhido, na época, ficava afastado do centro de Salvador, onde hoje é a Federação. Após anos de obras, o Campo Santo foi inaugurado e a resposta das ordens religiosas e da população veio dois dias depois.
"A inauguração do novo cemitério foi uma offensa ao povo. Considerou-se a abolição do uso dos enterramentos nas igrejas como um attentado à religião. Dois dias após, isto é, em 25 de outubro, graves desordens ocorriam na cidade. O povo foi amotinado pelos religiosos, pelas confrarias, ordens terceiras, armadores, indo para a rua exigir do governo da província a abolição da 'Lei do Cemitério'. Graves desordens foram commettidas. O governo não teve a energia precisa para dominar o motim. Capitulou. O cemitério foi completamente destruído, sendo paga uma indemnização à empreza constructora", continua o texto de A TARDE, de 20 de julho de 1939.
“Bem morrer”
Entre os muitos elementos que marcaram a Cemiterada, dois se destacam pela força simbólica. O primeiro foi a relação da população católica com a religião e com a ideia do "bem morrer". A ameaça de retirar os enterros das igrejas mexia profundamente com práticas cotidianas e crenças enraizadas. O segundo foi o espaço ocupado pelas irmandades, ordens terceiras e organizações católicas leigas no sistema de enterramentos, pois elas lucravam significativamente com esses rituais e viam seu papel ameaçado pelas mudanças.
Na época, enterrar as pessoas no “solo sagrado” das igrejas era uma ideia de salvação na vida eterna. "Dentro dessa lucratividade que os enterros conferiam às irmandades, havia muitas pessoas que, antes de morrer, deixavam inúmeras missas pagas por anos a fio. Então foi uma situação que realmente mobilizou as pessoas, pois para elas a implantação de um cemitério era um problema", explica o professor.
O ponto de encontro do levante foi a praça do Terreiro de Jesus, no Centro Histórico de Salvador, com a manifestação reunindo as igrejas do entorno e a população. "Naquele dia, a cidade acordou com o barulho dos sinos de muitas igrejas. Os mesmos sinos usados na convocação para missas, procissões, festas religiosas e funerais eram agora dobrados para chamar ao protesto coletivo. [...] Do terreiro, os manifestantes seguiram para a praça do Palácio. [...] Os confrades lá chegaram com pompa, vestindo seus hábitos e capas, carregando cruzes e as coloridas bandeiras que identificavam cada irmandade. Segundo relato do presidente da província da Bahia na época, Francisco de Sousa Paraíso, 'todas, ou quase todas as irm andades se apresentaram em corpo com suas insígnias ante o Palácio do Governo'", relata o historiador João José Reis no livro A morte é uma festa - Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX, considerado referência acadêmica sobre a Cemiterada.
Diante do Palácio do Governo, além de discursos, foi lido um manifesto com 280 assinaturas, liderado pelo visconde de Pirajá. Várias petições das irmandades foram entregues ao presidente da província, que, ao receber os líderes do levante para uma conversa, viu o palácio ser invadido pelos manifestantes, ainda segundo João Jorge Reis em A morte é uma festa.
Estopim do levante, o Campo Santo foi atacado por uma multidão armada com machados. Muros e parte da capela foram abaixo em menos de uma hora. Sob pressão, o presidente provinciano cedeu à reivindicação e suspendeu a proibição dos enterros nas igrejas até o dia 7 de novembro de 1836, quando sessão extraordinária na Assembleia Provincial definiu que os cemitérios eram necessários e que continuariam a existir.
Em 1839, a partir da criação da lei provincial nº 101, de 12 de abril, o domínio do Campo Santo e do seu terreno foi transferido para a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, mediante o valor de 10:000$000 (Dez mil réis), pagos em prestações por 10 anos. Com a chegada da Santa Casa, o cemitério começou a ser reconstruído em 1840 e a obra teve conclusão em 1844. O cemitério do Campo da Pólvora foi abandonado. Mas o povo continuava convencido de que era uma profanação enterrar os mortos fora das igrejas.
Necrópole da elite

Na atualidade, o Campo Santo tem mais de 62 mil metros quadrados de área construída e cerca de 40 mil estruturas, entre ossários, jazigos e gavetas. Além disso, é um espaço de memória urbana e funerária de Salvador. No site oficial do cemitério, é informado que toda a renda dos serviços funerários prestados no espaço é revertida para os projetos sociais da Santa Casa.
O professor Paulo de Jesus aponta que é interessante observar que, mesmo que o Campo Santo tenha sido adquirido por uma instituição religiosa, a Santa Casa, a população do século XIX não abraçou rapidamente a ideia de ser enterrada nele. "Não foi algo que aconteceu de uma hora para a outra", reitera. A mudança só veio de fato a partir de 1855 e 1856, quando Salvador e o interior, principalmente o recôncavo, viveram a epidemia de cólera.
"A ideia dos miasmas e de que o ar também transmite doenças se consolida. Os enterros nos cemitérios, sobretudo no caso de Salvador, só ganham sentido social, com as pessoas entendendo a sua importância, quando a população foi acometida pela epidemia. Os enterros fora das igrejas ganharam realmente um sentido de defesa da vida, de prevenção sanitária", acrescenta Paulo.
Ao longo do século XIX, o Campo Santo também passou por outra transformação. Inicialmente rejeitado pela elite baiana, com o tempo se tornou espaço de distinção social. A partir da segunda metade dos anos 1800, ser enterrado no Campo Santo era símbolo de status e as famílias abastadas adquiriram jazigos em áreas privilegiadas como o entorno da capela, reforçando a forte ligação entre a fé e a ideia do "bem morrer". A apropriação também deixou marcas na memória coletiva, já que nos túmulos mais antigos estão personagens relevantes da história da Bahia.
Entre as grandes personalidades sepultadas no Campo Santo se destacam o poeta Castro Alves; o jornalista e fundador de A TARDE, Ernesto Simões Filho; o empresário Antônio de Lacerda, responsável pela construção do Elevador Lacerda; o engenheiro e político Lauro de Freitas; os políticos Luís Viana e Luís Viana Filho; o médico Aristides Maltez, referência no combate ao câncer, entre muitas outras personalidades da política, ciências e cultura.
"Também há uma série de grandes comerciantes, senhores de escravizados e comerciantes envolvidos no tráfico negreiro, por exemplo, enterrados no Campo Santo. No século XX, você tem, por exemplo, Otávio Mangabeira sendo enterrado lá, assim como boa parte das supostas famílias de maior relevância para a economia baiana. Associado a isso, essas famílias acabam desenvolvendo um culto à arte de cemitério. Hoje, o Campo Santo dispõe de túmulos que são verdadeiras obras de arte", opina Paulo de Jesus.
Circuito de arte cemiterial
A riqueza dos mausoléus e túmulos no Campo Santo é tanta que, em 2007, foi criado o Circuito Cultural de Arte Cemiterial. Em qualquer dia da semana, entre 8h e 17h, quem pretende conferir as obras artísticas no cemitério faz o circuito a partir de totens informativos disponíveis no local. "O Circuito Cultural do Cemitério Campo Santo tem mais de 200 obras catalogadas que representam a arte cemiterial em estilos renascentista, barroco, gótico, moderno e contemporâneo. O percurso abriga importantes mausoléus de personalidades baianas feitos por diversos artistas, além da Estátua da Fé, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), esculpida em único bloco de mármore de Carrara, e m 1865", informa o site do cemitério.
Histórias como a do Campo Santo, afirma Paulo de Jesus, apenas reforçam a ideia de que para pensar a história da Bahia, é preciso também considerar os múltiplos aspectos do cotidiano. "A morte e o culto a ela ou as formas de morrer e de ser enterrado; e a arte que se desenvolve em torno da morte também precisam ser percebidas com sua devida importância histórica. Acho que toda e qualquer iniciativa que nos permita discutir o passado de uma maneira interativa, menos contemplativa e mais problematizada, é importante”, afirma.
Para o professor, ter um circuito que pense a arte cemiterial e, ao mesmo tempo, problematize as figuras históricas ali enterradas oferece novos modelos de discutir a história baiana. "A meu ver, essas ações contemplam aquilo que sempre defendemos: pensar a história de forma que faça sentido para nós. No caso da Bahia, somos privilegiados, pois esse circuito nos permite questionar o papel das figuras históricas na cultura, economia e política, observar a disposição dos túmulos conforme a importância social desses sujeitos e, sobretudo, pensar nas ausências", reflete o professor.
O Campo Santo guarda a memória de grandes personagens da elite baiana, mas também "revela a exclusão da população negra e mestiça, fundamental para Salvador e que muitas vezes não pôde ser enterrada ali", salienta o historiador. "Quantos homens e mulheres negras têm túmulos com expressões artísticas? O que isso significa? Dispor de um circuito dessa magnitude em um espaço cemiterial como esse é essencial para problematizar nosso passado e, assim, contribuir para a compreensão do presente", enfatiza Paulo de Jesus.
Leia as edições de A TARDE da época:
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A TARDE chamava a atenção para a superlotação do Campo Santo em 1939
Crédito: Cedoc A TARDE/20.7.1939
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Cobertura do Dia de Finados no ano de fundação de A TARDE
Crédito: Cedoc A TARDE/2.11.1912
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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