IMOBILIÁRIO Construção industrializada reduz em até 50% tempo de execução da obra
A fabricação de componentes em ambientes industriais, antes de sua instalação no terreno, começa a mudar a rotina dos canteiros de obras no Brasil.
Na chamada construção industrializada ou off-site, parte da produção é transferida para fábricas, onde estruturas, fachadas, paredes e instalações são preparadas antecipadamente. No terreno, o trabalho passa a se concentrar na montagem, com menos atividades sujeitas a improvisos, retrabalhos e perdas de materiais.
Tudo sobre Imobiliário em primeira mão!A mudança responde a problemas antigos da construção civil, como a dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, a variação dos custos dos insumos e a imprevisibilidade dos cronogramas. Também tem implicações ambientais.
Um levantamento publicado em 2025 na revista científica Energy and Buildings, que analisou 62 casos de construção industrializada, identificou redução mediana de 36,5% na geração de resíduos.
Já estudos da consultoria McKinsey apontam que a construção modular pode diminuir entre 20% e 50% o tempo de execução dos projetos, a depender de suas características.
O tema estará em debate no 17º Fórum de Sustentabilidade da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA), em 12 de novembro, no Teatro Sesc Casa do Comércio, em Salvador.
Com o tema "Industrialização e Construção Off-Site sob a Ótica da Sustentabilidade", o encontro reunirá representantes da indústria, do mercado imobiliário e do poder público.
Para Cláudio Cunha, presidente da Ademi-BA, a discussão passa pela necessidade de conciliar produtividade, custos e responsabilidade ambiental. “O setor precisa repensar não apenas o que constrói, mas também os métodos utilizados para executar as obras”, ressalta o dirigente.
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Para Franz Gusmão, diretor de engenharia e construção da QPC Incorporadora, a principal mudança está em substituir uma lógica artesanal por um processo planejado.
“A construção industrializada visa trazer assertividade e previsibilidade. É um modelo de obra que deixa de ser um processo artesanal, feito peça por peça no canteiro, e os componentes e materiais são projetados com precisão e produzidos em ambiente controlado para serem montados num canteiro”, afirma.
A QPC aplica esse conceito ao Vila Boulevard Itaparica, na Ilha de Itaparica. O empreendimento utiliza peças de concreto produzidas previamente para montar a estrutura, enquanto fachadas e paredes internas são feitas com sistemas de construção a seco, que dispensam tijolos e argamassa.
As instalações elétricas também chegam preparadas para montagem, assim como as tubulações hidráulicas, feitas de material flexível. O piso recebe uma camada aplicada de forma mecanizada para garantir uma superfície nivelada.
Dimensões prévias
Na prática, essas soluções reduzem a necessidade de executar diversas atividades no próprio terreno. Em vez de levantar paredes de blocos, aplicar revestimentos e depois abrir espaços para a passagem de tubulações, por exemplo, a obra recebe componentes previamente dimensionados.
“A obra deixa de fabricar o prédio e passa a montá-lo. As peças chegam prontas, na medida certa e com qualidade controlada em fábrica. Tudo é planejado e compatibilizado no modelo digital antes de ser executado", explica Gusmão. Segundo ele, a expectativa é reduzir em aproximadamente quatro meses o prazo de execução em comparação com uma construção convencional.
A incorporadora estima também uma redução de cerca de 50% na geração de resíduos no canteiro. O cálculo será acompanhado durante a obra e considera a diminuição de atividades que produzem entulho, como quebra de blocos, sobras de argamassa e abertura de paredes para instalações.
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A segurança dos trabalhadores é outro benefício apontado pela empresa. Com menos atividades manuais em altura, cortes, quebras e movimentação de materiais pesados, diminuem as situações de risco. O planejamento antecipado também permite organizar as tarefas antes da chegada das equipes, reduzindo improvisações.
Apesar dos ganhos potenciais, a adoção desses sistemas no segmento residencial ainda enfrenta barreiras culturais.
O uso de drywall e estruturas leves, por exemplo, provoca resistência entre consumidores acostumados à alvenaria tradicional e à percepção de que paredes de tijolos oferecem maior segurança e durabilidade.
Gusmão argumenta que esses sistemas já são utilizados há décadas em países como Estados Unidos, Canadá e Japão, inclusive em imóveis de alto padrão.
No Brasil, também existem normas técnicas específicas que estabelecem requisitos de segurança, durabilidade e conforto térmico e acústico.
No Vila Boulevard, as paredes recebem isolamento interno para reduzir a passagem de calor e ruídos. A tubulação hidráulica flexível, por sua vez, utiliza menos conexões, diminuindo os pontos sujeitos a vazamentos.
A empresa pretende ainda permitir que os compradores conheçam os sistemas empregados e acompanhem sua instalação.
"O cliente não compra só um apartamento, mas segurança em saber como ele foi construído", afirma o diretor.
Nos galpões logísticos, a aceitação da construção industrializada é maior. Em Juazeiro, no norte da Bahia, a Grid Galpões utiliza componentes de concreto e estruturas metálicas fabricados previamente e transportados para montagem no terreno.
Segundo Tâmara Moreno, gestora de implantação da empresa, o método reduz o tempo de execução e permite trabalhar com equipes menores e mais especializadas. "A industrialização propicia uma redução no tempo de montagem e redução de desperdício. É também uma resposta à dificuldade de mão de obra no cenário nacional da construção civil", afirma.
As condições climáticas também influenciam os projetos. Em Juazeiro, onde as temperaturas são elevadas, a possibilidade de incorporar isolamento térmico às estruturas contribui para o desempenho dos galpões. Os empreendimentos contam ainda com pisos resistentes, docas, pátios de manobra e sistemas de segurança e proteção contra incêndio.
Mercado brasileiro
Apesar do avanço, a construção industrializada ainda representa uma parcela pequena do mercado brasileiro. Dados da FGV IBRE indicam que 15,7% das obras no país utilizaram algum sistema construtivo industrializado em 2026, ante 14,8% em 2025.
Entre as empresas de edificações que adotam esses sistemas, o uso de steel frame passou de 15,6% para 32% no período. Os painéis cimentícios avançaram de 18,1% para 34,3%, enquanto as fachadas pré-fabricadas passaram de 12,9% para 28%.
A expansão depende, porém, de fatores como escala de produção, logística, disponibilidade de fornecedores, financiamento, tributação e qualificação profissional. A mudança também exige maior integração entre arquitetos, engenheiros, fabricantes e equipes responsáveis pela montagem.
Para Diego Vaz, CEO da iBUILD, a industrialização tende a ganhar espaço diante da cobrança por maior controle sobre prazos e custos. "O cliente já não aceita atrasos constantes, desperdício ou custos que mudam durante a obra. A industrialização entrega exatamente o que o mercado passou a exigir: previsibilidade, qualidade, velocidade e eficiência", afirma.
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