Aniversário Diario de Pernambuco: 201 anos de histórias Quatro leitores de diferentes gerações revelam como o jornal faz parte da memória e do cotidiano de suas famílias
"Quando eu pego um jornal deste aqui, digo para mim mesmo: estou pegando uma enciclopédia", conta Edjailson Correia (Maurício Ferry/DP Foto)
Ao longo de seus 201 anos, o Diario de Pernambuco testemunhou revoluções, transformações sociais e avanços tecnológicos que marcaram o Brasil e o mundo. Registradas em suas páginas, essas mudanças formam um acervo que ajuda a compreender o passado e a preservar a memória coletiva. Mas um jornal não é feito apenas pelas notícias que publica. Neste 7 de novembro, o Diario celebra mais um aniversário contando histórias de quem mantém essa relação viva. Conversamos com quatro leitores cujas trajetórias se entrelaçam às páginas do jornal e revelam diferentes formas de cultivar um hábito que atravessa gerações.
“Eternamente leitor do Diario de Pernambuco”, é assim que Edjailson Xavier Correia, de 72 anos, se descreve. Ainda criança, lia enciclopédias, grandes contos universais e, aos 11 anos, já havia lido a Bíblia por completo. Desde cedo, a influência paterna despertava nele o respeito pelo jornalismo. Entre idas e vindas em bancas de jornal, Edjailson conta que, como o pai, se viciou em ler o jornal. “Quando eu pego um jornal deste aqui, eu digo para mim mesmo: ‘Estou pegando uma enciclopédia’”, relembra.
Para ele, o que está nas páginas não termina em quem lê: “Quando você lê um jornal, você está desenvolvendo o seu país. Alguém vai tirar dessas páginas uma ideia, um pensar, e colocar em algum lugar, seja numa escola pública, privada… Alguém vai pegar esse texto e ler para alguém. É isso que o Diario faz na minha vida”. Edjailson é um dos muitos que aprenderam a viver com a influência do decano do jornalismo brasileiro.
Leonardo Petrus, hoje com 47 anos, nasceu em uma época diferente, mas o afeto pelo Diario de Pernambuco também se fez presente. O costume de ler jornal impresso começou ainda pequeno, com o avô, que estimulava a leitura do neto: os dois liam juntos a edição de domingo. “Tudo começou com o jogo dos sete erros”, conta Leonardo. “Depois, fazíamos a verificação dos anúncios de casas para vender. Então, eu passei a ler o horóscopo e só depois vim para as notícias”.
Hoje, a leitura remete a três situações: as lembranças da infância, a informação que sustenta a própria opinião e a convivência com a família. Nos fins de semana, ele e a mãe se reúnem para ler a edição do dia, uma forma de se conectar com ela e de se manter informado: “Muitas vezes, eu entro no trabalho e sigo o dia todo na empresa. Então, tem alguns acontecimentos que eu não acompanho. Mas eu preciso dessas informações, até mesmo para dialogar com as pessoas”, diz.
O hábito também conecta gerações da família Barbosa. A matriarca, dona Dalva, de 99 anos, é fiel leitora do jornal impresso. O gosto pelo jornal veio do pai e do marido, mas foi só depois do casamento, há mais de 50 anos, que ela passou a acompanhar o Diario. Hoje, o jornal é indispensável. “Às vezes, quando está chovendo muito, o jornal não chega e faz falta. Eu até assisto pela televisão, mas gosto mais do jornal. A notícia no impresso é diferente: é mais longa, mais completa. Não é a mesma coisa”, comenta Dalva.
A ligação da família com o Diario vai além da leitura: Zenaide Barbosa, prima de Dalva, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe do jornal. Em casa, os Barbosa guardam um acervo de recortes, com edições que noticiaram a morte de Miguel Arraes e de Eduardo Campos. O filho, Cícero, define o Diario como um “arquivo vivo”, essencial para a preservação da história e da verdade.
Se o jornal é um “arquivo vivo”, poucas pessoas o acompanharam por tanto tempo quanto Maria José de Barros Carvalho. Aos 101 anos, a professora aposentada é a mais velha entre as leitoras ouvidas pela reportagem e vivenciou metade da história do jornal. Perguntada sobre o que a faz continuar lendo, a resposta é direta: “Para me atualizar, para poder conversar e para saber votar”. Todos os dias, a filha, Glória Nicole, de 66 anos, ajuda a mãe na leitura da edição.
Valentina Carvalho, outra filha de Maria José, é médica neurologista e vê no hábito da mãe um estímulo para recomendar a leitura a outros idosos. “Mesmo com a chegada do mundo digital, o papel tem uma importância fundamental para a cognição”, afirma. A neta, Valentina Vasconcelos, de 27 anos, descreve a rotina da avó: “Ela lê o jornal de manhã e fala sobre ele o dia inteiro”. Em casa, o jornal une três gerações e tem até sobrenome, o “Jornal da Vovó”.
Os jornalistas são os historiadores do instante e os leitores ajudam a preservar aquilo que o tempo não deve apagar. Nas histórias de Edjailson, Leonardo, Dalva e Maria José, o Diario de Pernambuco também se revela como parte da memória afetiva dessas famílias. Há 201 anos, o jornal registra as transformações do mundo. E, a cada nova geração de leitores, também passa a fazer parte de suas vidas.
Acompanhe essas histórias na série de entrevistas que serão divulgadas no Instagram do Diario de Pernambuco ao longo do mês de novembro.
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