Diario de Pernambuco prepara nova cápsula do tempo para ser aberta em 100 anos
Abertura da cápsula do Diario represneta momento histórico da imprensa brasileira (Foto: Cryslli Viana/DP Foto)
Às vésperas de completar 201 anos de história, no próximo sábado (7), o Diario de Pernambuco prepara mais um capítulo de sua trajetória centenária. No dia 18 de novembro, uma nova cápsula do tempo será fechada em uma cerimônia no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), no Recife.
A iniciativa conjunta das duas instituições pretende reunir registros e objetos contemporâneos que representem o cotidiano de 2026 e que deverão ser conhecidos pelas próximas gerações daqui a um século, quando o jornal chegará ao tricentenário.
A proposta dá continuidade a uma tradição iniciada em 1925, quando, durante as comemorações do centenário do Diario, foi preparada uma cápsula para ser aberta 100 anos depois. O conteúdo guardado naquela época foi revelado em novembro de 2025, durante as celebrações dos 200 anos do periódico.
A nova estrutura seguirá o caminho inverso e será fechada para que pessoas do futuro possam conhecer um pouco da sociedade, dos costumes e da história do período atual.
Para a diretora editorial do Diario de Pernambuco, Paula Losada, a iniciativa representa uma oportunidade de preservar não apenas a trajetória do jornal, mas também as características de uma época.
“Trata-se de uma iniciativa conjunta do Diario de Pernambuco e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, com o propósito de preservar a memória do jornal que se confunde com a própria história de Pernambuco e do Brasil. A cápsula do tempo é uma maneira simbólica e, ao mesmo tempo, muito significativa de deixar registrado para as próximas gerações um pouco da trajetória de 200 anos do Diario. O jornal, que há mais de dois séculos acompanha e documenta as transformações da sociedade, também precisa deixar registrado como vive este momento de sua história.”
Para Paula Losada, o contato com os documentos e objetos preservados durante um século proporcionou uma espécie de encontro com pessoas que viveram em outra época e imaginaram que seus registros seriam encontrados no futuro.
“Foi um momento de muita emoção e significado. Abrir a cápsula dos 200 anos foi como fazer uma viagem no tempo e estabelecer uma conversa com aqueles que, há um século, imaginaram que suas mensagens e registros seriam encontrados no futuro. Cada objeto e documento guardado trazia um pouco da memória, dos costumes e das expectativas de uma época. Foi também uma oportunidade de perceber como o tempo transforma a sociedade, mas como alguns valores permanecem.”
A primeira cápsula
A cápsula aberta em 2025 havia sido preparada para marcar os 100 anos do Diario, em 1925. Entre os materiais encontrados estavam exemplares originais do jornal publicados naquele período, um abridor de cartas, uma caneta, um documento sobre a Confederação do Equador, fotografias do mobiliário da redação e registros da família de Narsson Figueiredo, além de uma carta manuscrita por ele.
Os jornais preservados chamaram a atenção por trazerem notícias sobre as próprias comemorações do centenário, realizadas em 1925. O material permitiu observar como o periódico registrava sua história e a importância que já tinha na sociedade pernambucana.
A abertura foi realizada no auditório do Instituto Arqueológico, em uma solenidade que reuniu cerca de 300 pessoas, entre autoridades, historiadores, jornalistas e representantes de instituições culturais. O procedimento contou com o acompanhamento de profissionais especializados em conservação e restauro da empresa Arte Sobre Arte Restauro, diante da possibilidade de os materiais apresentarem algum tipo de deterioração após cem anos de armazenamento.
Presidente do IAHGP, George Cabral conduziu a solenidade e recorda o momento como uma experiência marcante, tanto pelo significado histórico quanto pela participação do público.
“Acho que nunca o auditório do Instituto Arqueológico recebeu um público tão numeroso. Contamos com cerca de 300 pessoas na solenidade. Foi também uma forma de participarmos da construção dessa história tão bonita dos 200 anos, agora já 201 anos, de existência do Diario de Pernambuco.”
Para a nova cápsula, a intenção é preservar objetos e documentos que ajudem a contar como era a vida cotidiana no Recife em 2026. O conteúdo, no entanto, será mantido em segredo até o momento de sua abertura, seguindo a proposta adotada na experiência anterior.
George Cabral explica que a escolha dos materiais busca oferecer às pessoas do futuro uma representação da época atual, por meio de elementos que hoje fazem parte da rotina da sociedade.
“Preservar objetos contemporâneos para as futuras gerações é uma forma de deixar o nosso testemunho, o testemunho de uma época. É entregar às pessoas que estarão aqui daqui a 100 anos um pouco da maneira como vivemos hoje, dos objetos que fazem parte do nosso cotidiano”, disse.
O presidente do Instituto Arqueológico também destaca o caráter simbólico da iniciativa. Além de celebrar a trajetória do jornal, a cápsula representa a expectativa de continuidade das duas instituições ao longo do próximo século.
“Não podemos revelar o que vamos colocar dentro da cápsula, justamente para manter o segredo e a expectativa. Essa foi uma das características da cápsula dos 200 anos. Mas vamos deixar um testemunho da nossa época, com coisas que hoje são marcantes na nossa vivência cotidiana e que vão permitir às pessoas daqui a 100 anos conhecer um pouco do que era a vida cotidiana no Recife em 2026”, acrescentou.
Diario de Pernambuco rumo aos 300 anos
Fundado em 7 de novembro de 1825 pelo tipógrafo Antonino José de Miranda Falcão, o Diario de Pernambuco nasceu como uma folha de anúncios e avisos comerciais. O primeiro exemplar tinha quatro páginas e reunia informações sobre compras, vendas, leilões, aluguéis, perdas e achados, entre outros assuntos de interesse dos moradores do Recife.
Na época, a cidade ainda não era a capital da província, condição que pertencia a Olinda. Ao longo dos anos, o periódico ampliou sua cobertura e passou a registrar acontecimentos políticos, sociais, econômicos e culturais de Pernambuco e do Brasil.
Entre os episódios históricos acompanhados pelo jornal estão a Revolução Praieira, a campanha abolicionista, a Proclamação da República e as transformações políticas e urbanas que marcaram os séculos XIX, XX e XXI. A trajetória também foi atravessada por períodos de censura, perseguições e interrupções na circulação.
Reconhecido como o jornal mais antigo em circulação na América Latina, o Diario teve seu acervo jornalístico reconhecido como Patrimônio Cultural Material do Brasil, em 2024. A preservação desse material permite que diferentes gerações tenham acesso a registros de acontecimentos que marcaram a história do país e, especialmente, de Pernambuco.
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