Western moderno com um dos melhores serial killers do cinema - Por Marcos Souza
O assassino serial Anton (o ator espanhol Javier Bardem encarnando o demônio em vida) é o melhor no que faz, sem que seja legal aquilo que faz de melhor
Filmado no Texas, o filme “Onde os Fracos Não Têm Vez” (No Country for Old Men/2007), dos irmãos Coen, é baseado no livro de Cormac McCarthy e representa o suprassumo do chamado western mo-derno, no qual ação e personagens se digladiam em torno de um interesse comum, com propósitos questionáveis e uma visão singular sobre a tolerância humana diante do mito e da realidade.
À primeira vista, o cinema dos Coen, nesse filme, torna-se absoluto e autorreferente, postulando uma sólida esquematização de estilo que faz eco nos filmes policiais que beiram o inusitado e o real — claro, à maneira particular dos diretores. Assim também fizeram no brilhante filme de estreia, “Gosto de Sangue” (Blood Simple/1984), e encontraram a formatação perfeita em sua obra-prima, “Fargo” (Idem/1996).

A singularidade de “Onde os Fracos Não Têm Vez” fica inteiramente centrada na forma, com um estilo que homenageia claramente o diretor italiano e mestre do cinema barroco, Sergio Leone. A primeira hora do filme, com a apresentação da situação central e dos personagens, é absolutamente brilhante, com a câmera despejando panorâmicas em uma paisagem árida, desértica, suja de terra e marcada por um calor sufocante. É onde encontramos a veia nervosa de um assassino serial, meticuloso e ensande-cido, Anton Chigurh (Javier Bardem, brilhante, que ganhou o Oscar por sua performance assustadora), sendo conduzido a uma delegacia junto com um estranho instrumento de morte: um tanque de ar comprimido e uma pistola de pressão — cujo funcionamento logo é demonstrado.
Em seguida, surge o soldador Llewelyn Moss (Josh Brolin), caçando cervos no deserto, utilizando uma mira telescópica e um binóculo. As imagens deixam clara a duplicidade da sequência, ao mostrar os dois personagens em pontos díspares das eficiências correspondentes que orientam seus modos de viver.
Enquanto o assassino Anton é o melhor no que faz, sem ser propriamente legal aquilo que faz de me-lhor, Moss é inábil quando erra o tiro no cervo, evidenciando a realidade de sua falha.
Há dois pontos discutíveis: o do mito, quase sobre-humano, que transforma a sanha assassina do per-sonagem de Javier Bardem em uma engenharia degradante de violência e precisão; e o do homem real, interpretado por Josh Brolin, que se mostra falível, quase patético, ao tentar mudar de vida de forma imprecisa e arriscada, cujas consequências podem ser medidas por suas atitudes e decisões — quase sempre erradas.

São esses dois personagens que se tornam perenes e dignos da busca do velho delegado Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), que, de forma assustada e desiludida, acompanha a trajetória dos dois homens, cada um abrindo caminho à sua maneira, na medida em que tenta solucionar o caso da melhor forma possível, sem que isso atinja o maior número de inocentes na história. O que, no decorrer do filme, vai se mostrando um trabalho praticamente impossível.
Assim como no mito que precede os clássicos dos westerns, existe uma busca, uma perseguição, um vilão e um mocinho. Porém, nem sempre essa equação se adequa de forma combinada. As razões não definem, de fato, quem são os vilões e os mocinhos, pois a transitoriedade do tempo em relação aos valores do homem acaba por equiparar as motivações e as consequências.
Aqui, os irmãos Coen encontram um equilíbrio evolutivo no livro de McCarthy, no qual os persona-gens são talhados sem arquétipos óbvios, mas intensos em seus propósitos.
O soldador Moss, após não conseguir acertar o cervo, caminha pelo deserto e encontra um rastro de sangue. Descobre que é de um cão, segue o caminho e, sem querer, encontra um agrupamento de ca-minhonetes abandonadas e alguns cadáveres que parecem ser de traficantes, mortos ao redor dos veí-culos.
Por meio de deduções, ele descobre um grande carregamento de cocaína em uma das caminhonetes. Depois de falar com um sobrevivente à beira da morte, segue os passos de outro possível sobrevivente ao massacre, até encontrá-lo morto sob uma árvore, com uma mala contendo 2 milhões de dólares. Ele pega a mala, algumas armas e vai até o trailer onde mora.
Porém, Moss resolve voltar depois ao mesmo local e acaba sendo descoberto por outros traficantes, que dão início a uma perseguição, conduzindo o soldador a uma fuga desesperada com a mala reche-ada de dinheiro.
Ele marca um ponto de encontro com a esposa em uma cidade fronteiriça, para tentar despistar os per-seguidores quanto ao seu paradeiro. E segue direto para a fronteira com o México. No encalço dele, o assassino Chigurh, contratado para recuperar o dinheiro, segue uma trilha na qual não faltam corpos nem manifestações de suas observações, pautadas por diálogos provocativos.
Enquanto Moss segue cambaleante em seu caminho direto até a fronteira, tentando, de todas as for-mas, despistar seus algozes e perseguidores, ele ainda não sabe que somente um homem está à sua procura.
O delegado Tom Bell, então, acompanha simultaneamente os dois caminhos e acaba descobrindo uma ligação entre eles por causa da mala de dinheiro em posse de Moss.
Nessa trama, surge outro perseguidor, Carson Wells (Woody Harrelson), que pouco acrescenta à histó-ria, mas tem um encontro memorável com Anton.
O momento que eclode em um ótimo clímax é o tiroteio entre Moss e Chigurh, que acaba gerando consequências abrasivas para os dois lados. Enquanto o soldador consegue cruzar a fronteira e escon-der a mala, tenta buscar socorro para ser salvo do tiro que levou na costela. Já Chigurh, ferido na per-na, acaba provocando uma explosão para assaltar uma farmácia e pegar os medicamentos.
A partir desse ponto, fica claro que os irmãos Coen propõem uma dualidade entre os dois persona-gens, que encontra momentos de reflexão nas palavras duras do delegado Tom, quando se depara com o resultado da perseguição de “gato e rato” entre os dois personagens, marcada por cenas de crimes e um rastro de corpos. A desilusão com que encara a situação o leva a refletir sobre o lugar onde vive, o meio e as intenções dos homens. Uma transgressão que evolui acima da normalidade, na qual se criam histórias e lendas.
Com o filme, os irmãos Ethan e Joel Coen (que escreveram, produziram, dirigiram e editaram a obra) mostram, de forma barroca, a contemporaneidade da linguagem do western clássico em sua relação com o moderno, tornando palpáveis personagens duros e falíveis. O ponto alto é a forma: a linguagem é seca, os diálogos são econômicos e as imagens, poderosas, com situações de risco que parecem le-var o espectador a um conflito de interação entre o abominável e a admiração.
Se, por um lado, o ator espanhol Javier Bardem, contemplado com um Oscar de melhor ator coadju-vante por sua irrepreensível atuação, conduz de forma magnífica seu assassino meticuloso e frio, Josh Brolin faz, com serenidade e absoluta entrega, a vertiginosa fuga que leva seu personagem a uma via-gem sem volta ao carregar uma mala de dois milhões de dólares que não lhe pertence.
A condução da história peca por expor vários clímaxes e deixar para a contemporização as motivações que o delegado Tom Bell, em tom melancólico, tenta elucidar.
“Onde os Fracos Não Têm Vez” é um filme desigual no ótimo sentido, um dos mais violentos dos úl-timos anos, que não deve agradar a todos e obteve uma trajetória vitoriosa. Quando lançado, recebeu mais de 50 indicações em premiações cinematográficas, entre elas: Cannes, Globo de Ouro, BAFTA e Oscar, para citar as mais importantes. A crítica americana e a inglesa o classificaram como obra-prima.
Eu acho o filme excepcional, com vários momentos de brilhantismo e um dos finais propositalmente mais anticlimáticos dos últimos anos, o que talvez se justifique pela proposta dos diretores de revisitar os westerns, conferindo-lhes uma contemporaneidade na qual os personagens, amorais, dão ênfase às suas buscas.
A produção tornou-se um clássico de referência, influenciou muitos outros diretores e filmes em sua temática e é uma das melhores obras da consagrada carreira dos irmãos Coen, que permanecem como os mais independentes cineastas do establishment norte-americano.
O filme está disponível nos catálogos dos serviços de streaming da Netflix e também do Mercado Play — agregado ao aplicativo do Mercado Livre.

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