Análise de especialistas Visita de Leão XIV à América do Sul fortalecerá fiéis na região
A passagem de 12 dias do papa Leão XIV pela América do Sul, uma das viagens internacionais mais intensas de um papa nas últimas décadas, será significativa devido ao recuo do catolicismo na região e ao laço afetivo do pontífice com o território, avaliaram especialistas. O líder do Vaticano chegou ao Uruguai nesta sexta-feira (6/11), e passará ainda pela Argentina e Peru.
Apesar de a América Latina abrigar 47,8% dos católicos do mundo, de acordo com dados divulgados em 2025 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a influência da Igreja Católica na região está diminuindo. Uma pesquisa do Pew Research Center publicada em 2024 mostrou que, enquanto 84% da população adulta da região foi criada em famílias católicas, apenas 69% continua se identificando com a religião.
Por outro lado, o número de fiéis a religiões protestantes está aumentando, e uma quantidade significativa deles veio do catolicismo. Segundo a mesma pesquisa, pelo menos um terço de pessoas que atualmente se identificam como protestantes foram criados em famílias católicas, e mais da metade foram batizados pela Igreja Católica.
Rodrigo Coppe, historiador e professor do programa de pós-graduação em ciências da religião da PUC Minas, avaliou que a viagem do papa à América do Sul deve seguir essa tônica. “A visita do papa começando pelo Uruguai é significativa, já que é o país mais laico da região e com leis progressistas que o assemelha a países europeus [como] legalizacão do consumo de maconha e aborto”, disse.
Ele acrescentou que existe um peso simbólico no fato de que Leão XIV pode ser considerado latino-americano. O papa nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, mas passou mais de 20 anos no Peru como missionário, e possui cidadania no país sul-americano.
A visita tem um peso afetivo para o próprio papa, afirmou José Cândido, mestre em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) e professor emérito de teologia da PUC Minas. “O seu amor pelo Peru é notório. O objetivo é rever aqueles que foram cuidados por ele e que jamais lhe saíram do coração”.
Ambos destacaram que a visita do papa à América do Sul deve estimular os fiéis da região em um momento em que a Igreja Católica enfrenta diversos desafios. Além do encolhimento do catolicismo, um outro problema é a falta de união dentro da Igreja.
Coppe explicou que um dos maiores dilemas da Igreja hoje é entender para onde caminha a instituição. O professor disse ainda que uma forte presença do papa deve ajudar na busca por esta resposta. “A imagem do papa é uma imagem que convida à reflexão sobre a própria vida e sobre os dilemas de ser cristão nas sociedades contemporâneas”.
Histórico de visitas de papas
O antecessor de Leão XIV, o papa Francisco, passou inúmeras vezes pela América Latina, e chegou a visitar o Brasil em 2013. Na ocasião, Francisco viajou ao Rio de Janeiro para participar da XXVIII Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Além do Brasil, o papa também visitou ao longo dos anos Equador, Bolívia, Paraguai, Cuba, México, Colômbia, Chile, Peru e Panamá. Ele foi criticado por não visitar a Argentina, seu país natal.
O primeiro papa a visitar a América Latina foi Paulo VI, que viajou para a Colômbia em 1968. Já João Paulo II, foi o primeiro a visitar o Brasil. Ao todo, foram quatro viagens. A primeira delas foi em 1980, quando passou por Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, Aparecida do Norte, Porto Alegre, Curitiba, Manaus, Recife, Salvador, Belém, Teresina e Fortaleza.
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