Imirante
Entre páginas
<p>Outro dia, enquanto organizava umas caixas, encontrei um caderno antigo. Estava misturado a fotografias, documentos sem importância e alguns papéis que, por razões que desconheço, venho guardando há anos. A capa estava gasta, as folhas já começavam a amarelar e a letra era minha, embora em alguns momentos eu tivesse a impressão de estar lendo coisas escritas por outra pessoa.</p><p>Sentei para folheá-lo.</p><p>Havia anotações sobre livros, pensamentos soltos, observações do cotidiano e muitos textos começados. Alguns paravam no segundo parágrafo. Outros tinham apenas um título e duas ou três frases. Encontrei até uma página em que escrevi uma pergunta e deixei o restante em branco. Não me lembro se encontrei a resposta.</p><p>Fiquei algum tempo ali, lendo.</p><p>O mais interessante não era propriamente o que estava escrito, mas a lembrança de como eu enxergava as coisas. Algumas preocupações me pareceram exageradas. Certas convicções, um tanto apressadas. Em outras páginas, encontrei ideias das quais ainda gosto e que, curiosamente, continuo defendendo quase com as mesmas palavras.</p><p>Havia também um entusiasmo que me comoveu. Uma confiança de que certas coisas aconteceriam, de que determinados caminhos seriam percorridos e de que algumas pessoas permaneceriam para sempre.</p><p>Nem tudo aconteceu. Algumas pessoas se foram. E muitos daqueles caminhos acabaram levando a lugares que eu sequer imaginava.</p><p>O tempo tem dessas coisas. Vai modificando nossas certezas sem que percebamos exatamente quando começamos a pensar diferente. Um dia descobrimos que já não reagimos da mesma maneira, que certas discussões perderam a importância e que algumas ausências, antes insuportáveis, passaram a fazer parte da vida.</p><p>Outras coisas, entretanto, permanecem. Às vezes até contra a nossa vontade.</p><p>Lembrei-me de Lacan e de sua formulação de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Ao reler aquelas páginas, pensei no quanto deixamos de nós nas palavras, inclusive naquelas que escrevemos sem grandes pretensões. Uma anotação aparentemente banal pode revelar uma inquietação inteira. Uma frase interrompida, um desejo que ainda não sabíamos nomear.</p><p>Aquele caderno dizia muito sobre mim. Talvez mais do que eu pretendesse dizer quando o escrevi.</p><p>Havia nele também algumas repetições. Preocupações semelhantes, perguntas que voltavam de tempos em tempos, maneiras de interpretar acontecimentos que hoje reconheço como parte de certos hábitos meus. Foi quando me ocorreu que nem todos os ciclos da vida se encerram simplesmente porque os anos passaram.</p><p>Alguns continuam acontecendo dentro de nós.</p><p>Repetimos comportamentos, insistimos em relações, procuramos respostas nos mesmos lugares. Às vezes, sabemos perfeitamente como determinada história terminará e, ainda assim, encontramos uma maneira de vivê-la novamente. Mudam as circunstâncias, os personagens e até as justificativas. Mas há alguma coisa familiar no desfecho.</p><p>Talvez porque seja mais fácil repetir aquilo que conhecemos do que enfrentar o desconforto de fazer diferente.</p><p>Durante muito tempo, pensei que amadurecer fosse acumular certezas. Hoje desconfio de que seja justamente o contrário. Algumas das mudanças mais importantes que fiz vieram quando consegui admitir que estava errado, que havia insistido demais ou que uma escolha, embora tivesse feito sentido em determinado momento, já não correspondia ao que eu desejava para a minha vida.</p><p>Isso não acontece sem algum sofrimento. Há decisões que carregamos por tanto tempo que acabam se confundindo com a nossa própria identidade. Abrir mão delas pode produzir uma sensação estranha, quase como se estivéssemos abandonando alguém. E, de certo modo, estamos mesmo. A pessoa que tomou aquela decisão já não é exatamente a mesma que agora precisa revê-la.</p><p>Mas há coisas que gostaria de preservar daquele menino que escreveu o caderno.</p><p>A curiosidade, por exemplo. A vontade de compreender o mundo, o interesse pelas pessoas, certa indignação diante das injustiças. Reconheci também uma disposição para acreditar, mesmo quando havia poucas razões para isso. Talvez hoje eu seja mais cauteloso. A vida nos ensina algumas prudências, embora nem sempre da maneira mais delicada.</p><p>Gostaria, porém, de não perder aquela capacidade de me entusiasmar.</p><p>Penso que a nossa essência mora um pouco nisso. Nas coisas que resistem às mudanças sem nos impedir de mudar. Não vejo razão para continuar defendendo todas as ideias que tive, nem para repetir escolhas apenas porque um dia foram minhas. O passado merece respeito, mas não precisa ter a última palavra.</p><p>Voltei a uma das páginas. Era o começo de um texto sobre o futuro. Li duas vezes. Não estava particularmente bem escrito, mas havia ali uma esperança bonita, dessas que a gente costuma ter antes de conhecer melhor as dificuldades do caminho.</p><p>Pensei em terminá-lo. Peguei uma caneta, reli a última frase e desisti.</p><p>Aquele texto pertencia ao tempo em que foi escrito. Talvez fosse melhor deixá-lo assim, com suas imperfeições e seu entusiasmo, sem tentar corrigir agora o que eu pensava tantos anos atrás.</p><p>Fechei o caderno.</p><p>Em vez de devolvê-lo à caixa, coloquei-o na estante, perto dos livros. Quero encontrá-lo novamente daqui a alguns anos. Quem sabe, até lá, algumas das minhas certezas de hoje também tenham envelhecido. Espero que sim.</p><p>Lembrei-me, então, de Belchior, em Velha Roupa Colorida:</p><p>“<i>O passado é uma roupa que não nos serve mais.</i>”</p><p>Olhei outra vez para o caderno, antes de guardá-lo.</p><p>A letra continua sendo minha. Ainda bem que nem todas aquelas certezas também são.</p>
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