Opinião Uma lição ao Brasil de hoje
Entre 1889 e 1900, o governo do Amazonas mudou de mãos nada menos que onze vezes. Foram anos de extraordinária turbulência política, marcados por golpes e contragolpes, deposições e renúncias, suspeitas de assassinatos e suicídios, eleições fraudadas e confrontos armados. Manaus, por vezes, literalmente pegava fogo. Era o conturbado período de transição entre a queda do Império, a proclamação da República e a consolidação do novo regime.
Vale registrar, para memória da história e reflexão do presente, a vertiginosa sucessão de governantes naquele período. Tudo começou com uma junta governativa nomeada pelo poder central, integrada pelo capitão de fragata Manoel Lopes da Cruz, pelo coronel do Exército Antonio Florêncio Pereira do Lago e pelo civil Domingos Carvalho Leal. Seguiram-se, em ritmo quase alucinante, o capitão Augusto Ximeno de Villeroy, o tenente, depois capitão, Eduardo Gonçalves Ribeiro, (governou em duas ocasiões), o coronel Antonio Gomes Pimentel, o coronel da Guarda Nacional José Guilherme Moreira (Barão do Juruá) o engenheiro militar Gregório Thaumaturgo de Azevedo, o capitão Fileto Pires e o coronel José Cardoso Ramalho Júnior. Ufa!
A instabilidade prosseguiria nos anos seguintes. Mas não é propriamente essa sucessão de crises que desejo examinar. Interessa-me, sobretudo, resgatar a trajetória de uma personagem que, colocado no epicentro daqueles acontecimentos, poderia ter alimentado ainda mais as paixões e os conflitos. Preferiu, porém, o caminho da moderação, da lucidez e da conciliação. Em meio à disputa desabrida pelo poder, demonstrou inteligência política, serenidade e um admirável senso de responsabilidade histórica. Seu nome: Manuel Francisco Machado, o Barão do Solimões.
Natural de Óbidos, no Pará, Machado formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Advogado, jornalista, proprietário de terras e político, construiu sólida reputação tanto em sua terra natal quanto no Amazonas. Filiado ao Partido Liberal, distinguia-se pela cultura, habilidade diplomática e respeitabilidade pessoal. Tais qualidades levaram o imperador D. Pedro II a nomeá-lo, em 22 de dezembro de 1888, presidente da Província do Amazonas, cargo que assumia pela segunda vez. Em 25 de setembro de 1889, recebeu o título de Barão do Solimões.
Era, portanto, homem da mais absoluta confiança da Monarquia. Nem por isso se deixou aprisionar pelas conveniências do regime ao qual servia. Caberia a ele entrar para a história como o último presidente da Província do Amazonas. Seu papel na transição pacífica do Império para a República, contudo, permanece insuficientemente reconhecido.
A República fora proclamada no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1889, mas a notícia somente chegou ao Amazonas no dia 21 daquele mês. Em Manaus, políticos e militares identificados com a nova ordem mobilizaram uma multidão que tomou as ruas ao som da Marselhesa, hino da Revolução Francesa. Armados e dispostos a depor o representante da Monarquia, os manifestantes pareciam preparados para um confronto de consequências imprevisíveis.
Com a serenidade própria dos verdadeiros estadistas, recebeu os insurgentes, formalizou os atos necessários e transmitiu o poder sem disparar um único tiro, sem derramar uma gota de sangue. Não houve mortos nem feridos. Onde poderia ter prevalecido a violência, prevaleceu a razão. Onde se anunciava o confronto, impôs-se a dignidade. A atitude lhe valeu o respeito dos novos governantes e da população. Tanto assim que, no ano seguinte, em 1890, foi eleito senador, participando ativamente do Congresso Nacional Constituinte responsável pela elaboração da primeira Constituição republicana, promulgada em 1891.
Em tempos de crise, uma nação precisa de homens públicos que saibam superar antagonismos, construir pontes sobre os abismos da discórdia e identificar, em meio às divergências, os interesses permanentes da sociedade. A força conciliadora do Barão do Solimões era tamanha que seu nome chegou a ser lançado por uma corrente política à sucessão de Eduardo Ribeiro no governo do Amazonas. Este, entretanto, preferiu apoiar Fileto Pires, vencedor de uma eleição cercada de graves acusações de fraude, no episódio que ficaria conhecido como o golpe do Congresso Foguetão.
Penso, com meus botões, como o Brasil de hoje ganharia se contasse com mais homens da estatura moral e política do Barão do Solimões. Vivemos um ambiente de polarização exacerbada, em que adversários são frequentemente tratados como inimigos, o diálogo cede lugar à hostilidade e a busca de consensos parece, para muitos, uma inadmissível demonstração de fraqueza.Boa parte de nossos políticos parece incapaz de ultrapassar as fronteiras do ressentimento, da intolerância e do confronto permanente. Esquecem-se de que a política, em sua expressão mais nobre, não existe para alimentar contendas, mas para servir à sociedade.
E quem paga o preço de tudo isso são justamente aqueles a quem os governantes juraram defender, os cidadãos. Não apenas os correligionários, os aliados ou os que compartilham suas ideias; todos, indistintamente, que têm o direito de viver em paz, com segurança, liberdade e prosperidade.
O Barão do Solimões compreendeu, há mais de um século, uma verdade que muitos ainda hoje insistem em ignorar. Ele morreu em 1928, aos 89 anos de idade. Seu exemplo, todavia, permanece, para iluminar nossos caminhos.
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