Lojas Murray: a esquina do Centro que vendia eletrodomésticos e modernidade ajudou a embalar a música brasileira
Quem passa pela esquina da Rua Rodrigo Silva com a Rua da Assembleia, no Centro do Rio, pode reconhecer, acima do movimento da calçada, a curva do edifício, suas janelas compridas e a marquise que acompanha o encontro das duas ruas. Na fotografia antiga, porém, há outro convite à passagem: um grande letreiro da Frigidaire e, logo abaixo, o nome Lojas Murray S.A.. Homens de paletó se demoram diante da entrada, automóveis ocupam o meio-fio e a cidade parece ter reservado alguns minutos para examinar o que havia de novo naquela vitrine.
Era uma esquina apropriada para vender novidades. A poucos passos da Avenida Rio Branco, entre escritórios, repartições e o vaivém de quem vinha resolver a vida no Centro, as Murray ofereciam os objetos com que muitas famílias imaginavam melhorar a casa. Geladeiras, rádios, máquinas de costura, cristais e discos conviviam sob a promessa de conforto. Nos anúncios, os aparelhos tinham a solenidade das grandes aquisições domésticas, daquelas que exigiam comparação, conversa com o vendedor e uma conta cuidadosa antes da primeira prestação.
A loja foi inaugurada em 19 de maio de 1947, às cinco da tarde, por Donald Mac Murray, Harold Purviance e Álvaro Sá. O jornal A Manhã acompanhou a abertura, registrou a presença dos três e a participação de um representante da General Motors, fabricante dos refrigeradores que ocupavam lugar de destaque no estabelecimento. A direção cotidiana contava com o superintendente João Marcilino Pinto Júnior. Na reportagem, a nova casa surgia como uma organização preparada para abastecer o lar carioca com produtos americanos.
A recepção parece ter correspondido à expectativa. Ao noticiar seu primeiro aniversário, em maio de 1948, o Diário Carioca observava que, em pouco tempo, a loja reunira uma clientela numerosa e significativa. Geladeiras, rádios, cristais, fogões elétricos e discos compunham o sortimento mencionado pelo jornal. A esquina já começava a adquirir aquela familiaridade que o comércio bem-sucedido imprime à cidade: o nome de uma loja passa a servir de referência, entra nas conversas e ajuda a explicar onde alguém esteve ou onde pretende encontrar outra pessoa.
Nos reclames, as Murray se apresentavam como “A casa da dama carioca”. A fórmula procurava a mulher que escolhia os objetos da casa, acompanhava as novidades e, muitas vezes, administrava o orçamento necessário para comprá-las. Outro argumento aparecia com insistência: a venda a prazo, sem fiador. Um anúncio de refrigerador Frigidaire prometia quinze prestações mensais e garantia de cinco anos da General Motors. A modernização da cozinha podia, assim, ser dividida em parcelas.
Havia também uma elegância doméstica que hoje se reconhece nos próprios desenhos publicitários: o abajur de cúpula trabalhada, o móvel de madeira destinado a abrigar o rádio e a vitrola, o ventilador de mesa, os cristais para receber visitas. As rádios-vitrolas RCA Victor, anunciadas em modelos de 1949, tinham nomes como Anniversary, Emperor e Princess Royal. Eram aparelhos e, ao mesmo tempo, peças de mobiliário: ocupavam a sala com pés torneados, portas, tecidos e madeira polida, oferecendo à família um lugar em torno do qual se reunir.
A presença da loja no cotidiano alcançava quem estava longe da vitrine. As Murray patrocinavam, na Rádio Clube do Brasil, o programa “Colcha de Retalhos”, dirigido por Eugênia Levy, às segundas, quartas e sextas-feiras, das onze às onze e meia da manhã. A publicidade ligava o nome da casa a uma voz, a um horário e ao hábito de escutar rádio enquanto se cuidava da vida. Era uma maneira de entrar nos lares antes mesmo da entrega do primeiro aparelho.
Mas havia, dentro daquele endereço, um movimento que ultrapassava as compras. Na sobreloja, os discos importados atraíam músicos, cantores, jornalistas e aficionados dispostos a ouvir as novidades e discutir o que acabavam de escutar. Jonas Silva e Acyr, vendedores e integrantes do conjunto vocal Garotos da Lua, participavam ativamente dessa convivência. Entre os frequentadores lembrados por Ruy Castro estavam Garoto, Sérgio Porto, Sylvio Tullio Cardoso e Ivan Lessa.
Na descrição do escritor, a sobreloja podia ficar tão concorrida que os compradores tinham dificuldade para chegar ao balcão. As discussões comparavam Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, exigiam novas audições e acabavam desviando das cantoras para os arranjos. O volume das vozes crescia junto com o dos discos, até que o gerente, chamado de “seu Álvaro” no relato, subia as escadas para pedir moderação. A casa que vendia aparelhos de som precisava, ocasionalmente, solicitar um pouco de silêncio.
A circulação dessas novidades dependia também de relações pessoais. Em reportagem publicada pelo semanário Opinião, em 1973, Jonas recordou o expediente de trazer, por intermédio de amigos aviadores, discos encomendados pelos fregueses. Sérgio Mendes, Porto e o crítico Tullio Cardoso estavam entre os clientes mencionados. Lessa, ouvido na mesma matéria, reconhecia a importância daquele acesso aos lançamentos para a formação de sua geração musical. Entre o balcão e os aviões, a loja encurtava uma distância que o preço e a dificuldade de importação tornavam muito maior.
Uma dessas histórias atravessou o balcão e chegou à formação de Paulo Moura. Ainda jovem, morando na Rua Barão de Mesquita, o clarinetista recebeu o convite de um vizinho, Paulo Brandão, para ouvir jazz em sua casa. Brandão havia regressado dos Estados Unidos, possuía discos recém-chegados e trabalhava nas Murray. Moura passou a visitá-lo aos sábados, interessado sobretudo em Benny Goodman, até que o anfitrião lhe apresentou gravações de Dizzy Gillespie. Ao recordar o episódio, situado no final dos anos 1940, o músico associou aquelas audições à sua descoberta do bebop. O depoimento foi reproduzido na tese de doutorado de Cléber José Bernardes Alves, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2019.
Enquanto a sobreloja ganhava lugar na memória musical, o negócio procurava novos fregueses. Em dezembro de 1952, as Murray anunciaram sua chegada a Madureira, na Rua Carvalho de Souza, 282. A chamada era direta: “V. não precisará mais ir à cidade para fazer suas compras!”. Na linguagem daquele Rio, “ir à cidade” era tomar o caminho do Centro; abrir uma filial no subúrbio significava aproximar o sortimento da loja de uma população que encontrava em Madureira um comércio cada vez mais forte.
A inauguração mereceu registro fotográfico no Jornal das Moças, na edição de 1º de janeiro de 1953. As imagens reuniam diretores, funcionários, convidados e um representante da General Motors. Ao lado de Álvaro Sá apareciam Ruy Ribeiro e Moacyr Baleeiros. Geladeiras, televisores, máquinas de costura, liquidificadores e discos compunham a oferta anunciada para a nova casa, levando ao subúrbio a mesma associação entre consumo, conforto e novidade que marcara a abertura na Rodrigo Silva.
As Murray se foram, como tantas casas comerciais que deram nome e personalidade às esquinas cariocas. No antigo endereço, o Grão Raro Café oferece hoje outro motivo para interromper a caminhada. Acima da entrada, a curva do edifício ainda ajuda a aproximar as duas fotografias e os dois tempos. Quem conhece a história talvez demore um pouco mais sob a marquise, imaginando a vitrine de refrigeradores, os discos chegando ao balcão e a conversa animada que vinha da sobreloja, enquanto o Rio seguia passando pela Assembleia.
- Centro do Rio
- discos importados
- eletrodomésticos
- história do Rio
- jazz
- Lojas Murray
- Madureira
- publicidade
- Rua da Assembleia
- Rua Rodrigo Silva
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
