O VORCARO PARAGUAIOQuem é o 'Vorcaro paraguaio', banqueiro preso após quebra do Ueno Bank? Empresário que sonhava em chegar a Wall Street acumulou uma fortuna milionária, carros de luxo e influência política antes de ser preso em meio à crise bancária.
Aos 36 anos, Miguel Vázquez tinha uma fortuna milionária, comandava um conglomerado empresarial e sonhava em levar o nome do Paraguai a Wall Street. O empresário, que transformou uma financeira familiar em um banco com milhões de clientes, viu sua trajetória mudar radicalmente após o colapso do Ueno Bank. Preso nesta semana, ele passou a ser chamado no Brasil de “Vorcaro paraguaio”, em referência a Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A prisão ocorreu na terça-feira (3), após o Banco Central do Paraguai determinar a abertura de um procedimento de resolução da instituição financeira, diante de problemas graves em seus indicadores financeiros. A Justiça também ordenou o bloqueio de bens ligados ao conglomerado empresarial de Vázquez.
Quem é Miguel Vázquez?
Herdeiro de uma família tradicional do setor empresarial paraguaio, Miguel Vázquez começou a trabalhar ainda adolescente, auxiliando o pai nas operações da Credicentro, financeira criada em 1984 para atender consumidores com dificuldades de acesso ao crédito bancário.
Seu avô materno, Miguel Jacobo Villasanti, havia iniciado os negócios da família com uma oficina mecânica, que posteriormente deu origem à representante da Mercedes-Benz no Paraguai.
Em entrevista concedida em 2024, Vázquez destacou a influência familiar em sua trajetória.
“O que sou, mais do que um empreendedor, é a terceira geração. Sou um herdeiro que está construindo sobre os ombros de dois gigantes”, afirmou ao O Globo.
De uma financeira a um império milionário
Sob a liderança de Vázquez, a Credicentro passou por uma transformação que culminou na criação do Ueno Bank, em 2023. No ano seguinte, a instituição incorporou o Visión Banco e ampliou sua atuação no mercado financeiro paraguaio.
Com aproximadamente 2,9 milhões de clientes, o banco chegou a administrar cerca de US$ 2,8 bilhões em depósitos. A instituição também patrocinava a seleção paraguaia de futebol e conquistou espaço entre os principais bancos do país.
O crescimento levou o Ueno a uma avaliação próxima de US$ 500 milhões. Somente a participação de Vázquez chegou a ser estimada em US$ 375 milhões.
Luxo, velocidade e grandes ambições
Além dos negócios, Vázquez cultivava uma paixão pelo automobilismo e por competições de resistência, incluindo provas de Ironman. O empresário costumava comparar a velocidade das pistas ao ritmo de crescimento de suas empresas.
“Adoro velocidade, adoro corridas”, declarou em uma publicação institucional do Ueno.
Seu objetivo era transformar o conglomerado no primeiro unicórnio paraguaio, expressão utilizada para empresas privadas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, além de levar uma companhia do país à Bolsa de Valores de Nova York.
Iate, aeronaves e carros apreendidos
Com o avanço das investigações, o patrimônio do empresário também entrou na mira das autoridades paraguaias. Na quinta-feira (5), operações policiais resultaram na apreensão de um iate de luxo da fabricante italiana Azimut Yachts, duas aeronaves e nove veículos vinculados ao banqueiro.
Os automóveis, encontrados em uma residência em Assunção, foram avaliados em aproximadamente US$ 1,4 milhão, segundo a imprensa local.
A Justiça também ampliou o bloqueio de bens e contas bancárias de empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, como forma de preservar recursos que poderão ser utilizados em eventuais medidas de ressarcimento.
Crise bancária atingiu o governo
O fechamento do Ueno Bank ultrapassou o setor financeiro e atingiu diretamente o cenário político paraguaio. Durante a gestão do presidente Santiago Peña, órgãos públicos depositaram mais de US$ 800 milhões na instituição, incluindo recursos previdenciários.
Peña, que havia mantido investimentos em uma empresa do conglomerado entre 2019 e 2025, apresentou sua renúncia na quinta-feira (5), diante da ameaça de impeachment.
O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também deixou o cargo.
A situação provocou preocupação entre os clientes, incluindo brasileiros que mantinham recursos na instituição. O sistema paraguaio de garantia de depósitos prevê cobertura de até US$ 38 mil por depositante.
Investigação continua
Miguel Vázquez permanece sob prisão preventiva por determinação judicial. A defesa solicitou a substituição da medida por prisão domiciliar com monitoramento eletrônico e ofereceu imóveis como garantia.
As investigações buscam esclarecer possíveis irregularidades em operações financeiras, incluindo empréstimos a empresas relacionadas ao próprio conglomerado, insuficiência de garantias e problemas na documentação bancária.
O empresário, que pretendia transformar o Ueno em uma referência internacional, agora enfrenta uma investigação que colocou em xeque seu patrimônio e o futuro dos negócios construídos por sua família.
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