MundoEx-presidente do Paraguai é transferido para unidade militar após impeachment e prisão
O ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi transferido de sua residência para o Regimento de Escolta Presidencial, uma unidade militar de elite responsável pela proteção de autoridades, na madrugada deste sábado (7). A mudança ocorreu após manifestações populares em frente à casa do político, que foi preso na sexta-feira (6) por determinação do Ministério Público.
Segundo informações do jornal paraguaio La Nación, a transferência foi organizada pelas Forças Armadas para evitar o agravamento dos confrontos entre manifestantes e policiais. Três caminhonetes teriam sido utilizadas na operação.
Peña se tornou alvo de protestos após ser associado ao escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank, instituição que teve suas atividades comprometidas e deixou milhões de clientes sem acesso aos próprios recursos. A crise também provocou o bloqueio de contas e investimentos públicos, incluindo valores pertencentes ao Instituto de Previdência Social.
A insatisfação popular aumentou após a divulgação do envolvimento do ex-presidente no caso. Moradores do bairro de La Piedad, onde ele vivia, chegaram a se reunir em frente à residência para exigir que o político fosse encaminhado à Penitenciária Nacional de Tacumbú, em vez de permanecer em prisão domiciliar.
De acordo com o jornal ABC Color, a inteligência paraguaia identificou a presença de pessoas que teriam incentivado confrontos durante os protestos. Em um dos episódios, o comissário Pedro Barbera, chefe da 10ª Delegacia, ficou ferido na região do supercílio após os conflitos.
Investigação sobre o Ueno Bank
A crise que levou à queda de Peña começou após a quebra do Ueno Bank, instituição financeira da qual o ex-presidente, de 47 anos, foi acionista até 2025. O banco recebeu aproximadamente US$ 850 milhões (cerca de R$ 4,6 bilhões) em recursos públicos, incluindo investimentos do sistema previdenciário paraguaio.
A instituição passou a enfrentar uma grave crise de insolvência, levando o Banco Central a intervir em suas operações. Como consequência, clientes perderam o acesso às contas e aos investimentos, em um cenário que atingiu uma parcela significativa da população.
Peña é acusado pela oposição de ter tomado decisões regulatórias que supostamente favoreceram o banco durante seu mandato, além de concentrar recursos previdenciários na instituição. As suspeitas levantaram questionamentos sobre um possível conflito de interesses.
Após o afastamento do político, promotores especializados em crimes econômicos e anticorrupção solicitaram sua prisão, apontando possíveis crimes de abuso de confiança, tráfico de influência e peculato. O ex-presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, também foi alvo de um pedido de prisão.
Peña deverá comparecer ao Ministério Público neste sábado, às 11h, no horário local, para prestar depoimento sobre as acusações.
Impeachment e mudança no governo
Antes de ser destituído, Peña tentou renunciar ao cargo para evitar o agravamento da crise política. Em uma publicação na rede social X, afirmou que sua saída seria uma tentativa de preservar a estabilidade do país.
"Apresentei minha renúncia para evitar mais danos ao país e contribuir para devolver a tranquilidade ao Paraguai. Não quero que minha presença seja motivo de maior divisão ou instabilidade", declarou.
A tentativa, porém, não impediu o avanço do processo de impeachment. O Senado paraguaio aprovou a destituição por unanimidade, encerrando antecipadamente seu mandato. A defesa do então presidente questionou o andamento do processo e alegou que não teve tempo suficiente para analisar as acusações e apresentar provas.
Com a saída de Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência do Paraguai. Integrante do Partido Colorado, ele é próximo de Horacio Cartes, ex-presidente do país e uma das principais lideranças da legenda.
A destituição também representa a perda das garantias constitucionais que Peña teria caso concluísse o mandato, incluindo a possibilidade de ocupar uma cadeira vitalícia no Senado e manter foro privilegiado.
Quem é Santiago Peña?
Economista e político de direita, Santiago Peña chegou à Presidência em 2023, após vencer as eleições com ampla vantagem. Sua vitória manteve o Partido Colorado no comando do Paraguai, posição que a legenda ocupa há décadas, apesar de disputas internas e denúncias de corrupção envolvendo seus integrantes.
Antes de ingressar na política, Peña construiu carreira na área econômica e atuou no Fundo Monetário Internacional (FMI). Sua entrada no Partido Colorado foi articulada por Horacio Cartes, que também o indicou para o Ministério da Economia.
Durante sua trajetória política, Peña adotou posições conservadoras, especialmente em temas relacionados à família e aos costumes. Ele também foi criticado por declarações sobre o ex-ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai entre 1954 e 1989.
Agora, além de enfrentar as acusações relacionadas ao Ueno Bank, o ex-presidente terá de responder à investigação criminal que apura sua possível participação nas irregularidades envolvendo a instituição financeira.
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