Gazeta do Povo
07/11/2026 13:00

Califórnia aposta tudo no fetiche verde, desliga usinas a gás e se arrisca a apagões

Este estado está tão determinado a realizar seu sonho de ter uma rede elétrica com emissão zero de carbono que está disposto a correr o risco de enfrentar apagões no futuro. No papel, a Califórnia terá recursos energéticos suficientes mesmo com a decisão de desativar três antigas unidades de geração de energia a gás natural. Mas isso só será possível se as condições climáticas colaborarem.

Até o final de 2045, os “recursos de energia renovável e recursos livres de carbono” deverão “fornecer 100% das vendas de eletricidade no varejo aos consumidores finais da Califórnia e 100% da eletricidade adquirida para atender a todas as agências estaduais”, conforme determina o Projeto de Lei 100 do Senado estadual (2018).

Para alcançar essa meta e manter a confiabilidade do sistema, o estado vem combinando usinas de energia solar com sistemas de armazenamento em baterias. Se tudo funcionar conforme o planejado, as usinas solares fornecerão eletricidade durante o dia, enquanto os sistemas de baterias manterão as luzes acesas nos horários de maior consumo à noite, quando os geradores solares deixam de produzir energia.

À medida que essa estratégia foi sendo implementada, os responsáveis pelas políticas energéticas perceberam que eram necessárias reservas adicionais de energia para evitar apagões rotativos. Por isso, a desativação de três antigas unidades geradoras, previstas para as instalações de Ormond Beach, Alamitos e Huntington Beach, foi temporariamente adiada.

Agora, acreditando que o sistema de armazenamento em baterias da Califórnia oferece uma margem de segurança suficiente, a Comissão de Energia da Califórnia decidiu não renovar os contratos dessas unidades mais antigas, que expiram no final de dezembro.

Sem dúvida, as usinas a gás natural que serão desativadas eram antigas e ineficientes. Ainda assim, os californianos talvez sintam falta, em breve, dessas fontes de energia controláveis, cuja geração pode ser acionada conforme a necessidade. O vice-presidente da Comissão de Energia da Califórnia, Siva Gunda, pode até acreditar que “estamos em boa situação”, mas esse otimismo exige um olhar mais crítico sobre os fatos.

O estado enfrentou o calor de 2026 e, em 9 de setembro, foi submetido à maior demanda diária de eletricidade desde 2022, sem precisar recorrer a medidas emergenciais. O gabinete do governador classificou o episódio como “um marco importante na expansão da energia limpa da Califórnia, líder nacional nesse processo”.

Talvez as autoridades sempre tenham sabido o que estavam fazendo. Essa é uma maneira de interpretar os acontecimentos.

Mas talvez tenham simplesmente contado com a sorte. E se a demanda de 9 de setembro tivesse sido 4% maior, superando o recorde histórico registrado em 2022? Vale lembrar que, nos últimos oito meses daquele ano, foram emitidos 11 alertas de flexibilidade, solicitando que os consumidores economizassem energia voluntariamente. As autoridades acreditam que não haverá outros dias de calor excessivo capazes de levar o sistema ao limite de sua capacidade de geração?

Garantir que haja eletricidade suficiente durante períodos de condições climáticas extremas, e não apenas em situações consideradas normais, é fundamental para que a Califórnia evite possíveis apagões rotativos — ou algo ainda pior.

O estado também deveria assegurar que sua margem de capacidade leve em conta a possibilidade de desempenho abaixo do esperado dos sistemas de armazenamento de energia em baterias. Temperaturas excepcionalmente elevadas comprometem a capacidade desses sistemas. Existe ainda o risco de que o calor persista durante a noite, prolongando-se além da autonomia das baterias.

Ignorar esses desafios deixa o estado vulnerável à escassez de energia em momentos cruciais do dia. O fechamento das usinas a gás natural demonstra que os responsáveis pelas políticas energéticas não estão fazendo o necessário para enfrentar esse problema.

A Comissão de Serviços Públicos da Califórnia utiliza uma metodologia chamada Slice-of-Day (fatia do dia) para garantir que haja eletricidade suficiente nos horários em que os consumidores precisam dela. Aplicamos essa metodologia sem considerar os recursos de geração de reserva a gás natural e chegamos a um resultado preocupante: as fontes de energia elétrica do estado só atingem os níveis mínimos de segurança exigidos em todos os horários do dia quando as condições climáticas e o desempenho das tecnologias colaboram plenamente.

Basta acrescentar um dia de calor excepcional ou um desempenho abaixo do esperado das baterias para que as margens de geração fiquem significativamente abaixo dos limites exigidos em períodos cruciais do dia. Sem essas fontes de reserva a gás natural, o risco de apagões rotativos é inaceitavelmente alto.

O plano de transição energética da Califórnia para fontes renováveis torna os cálculos ainda mais complicados. O estado possui uma lista aparentemente interminável de exigências ambientais. Entre as principais está a determinação de que, até 2035, todos os novos automóveis de passeio e caminhonetes leves vendidos sejam veículos com emissão zero.

O plano também prevê a substituição de aquecedores de água, fornos e equipamentos de jardinagem por versões elétricas. Essas exigências aumentarão ainda mais a demanda por eletricidade, que, segundo nossas estimativas anteriores, poderá superar a capacidade de produção em mais de 20% até 2045. Esse crescimento futuro da demanda ampliará os riscos de instabilidade que já ameaçam a rede elétrica da Califórnia.

Reduzir as emissões de gases de efeito estufa é importante, mas garantir a confiabilidade do fornecimento de energia também é. As usinas a gás natural desempenham um papel fundamental para assegurar que o sistema elétrico da Califórnia consiga atender à demanda. Permitir que os contratos com essas usinas expirem com base em projeções excessivamente otimistas aumenta os riscos de apagões rotativos.

Wayne Winegarden é doutor e pesquisador sênior nas áreas de negócios e economia do Pacific Research Institute, além de diretor do Centro de Economia Médica e Inovação da instituição.

Kerry Jackson é pesquisador do Pacific Research Institute, onde ocupa a cátedra William Clement, dedicada a estudos sobre reformas na Califórnia. É coautor do livro The California Left Coast Survivor’s Guide (Guia de sobrevivência à Califórnia da Costa Esquerda, em tradução livre).

    ©2026 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: From Golden State to Blackout State

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