A educação católica diante das telas e da inteligência artificial
Como se já não bastasse aos pais e professores terem de lidar com a onipresença das telas na vida das crianças e adolescentes, agora a inteligência artificial chega para complicar ainda mais o debate sobre como a tecnologia afeta o aprendizado. Neste sábado temos um outro artigo, de outro site parceiro da Gazeta do Povo, o Public Discourse, em que a professora Lily Abadal mostra como as escolas católicas poderiam (melhor dizendo, deveriam) oferecer um exemplo para todo o sistema educacional ao fomentar o uso responsável com base na ética cristã das virtudes. Ela menciona bastante o que nos Estados Unidos é chamado de “programa 1:1”, em que cada estudante recebe um tablet para uso pedagógico; não sei até que ponto isso é comum por aqui – na escola católica dos meus filhos, por exemplo, não sei de nada parecido, ao menos até agora –, mas as observações dela são muito pertinentes independentemente desse uso individual dos dispositivos.
Escolas católicas podem liderar pelo exemplo no uso responsável da tecnologia
Nos últimos anos, uma quantidade gigantesca de pesquisas empíricas demonstrou os efeitos prejudiciais das telas sobre a aprendizagem, particularmente entre crianças pequenas. Olhe para qualquer direção dentro de uma livraria e você verá algum livro repleto de evidências a esse respeito. Pensemos em A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt; The Digital Delusion (“A Ilusão Digital”, ainda sem edição brasileira), de Jared Cooney Horvath; ou A fábrica de cretinos digitais, de Michel Desmurget. Embora essas opiniões fossem consideradas excêntricas no passado, hoje existe uma conscientização ampla e crescente entre pais e educadores, e que é bastante difícil de ignorar. Muitos já sabem: o tablet não é um meio ideal para ler, fazer anotações ou realizar avaliações. A leitura em papel tende a proporcionar uma compreensão melhor do que a leitura em telas. Escrever à mão exige formas de envolvimento cognitivo e motor que a digitação não exige. A presença e o uso de notebooks podem distrair os alunos e prejudicar a aprendizagem em sala de aula. A elaboração de uma redação em meio analógico cria uma resistência formativa e permite uma avaliação mais confiável da competência do aluno e de seu domínio da linguagem. Sem mencionar que controlar o uso de tablets se revelou um problema interminável de gestão da sala de aula, sempre em mudança e sem solução à vista. Escrevo isso com a autoridade de quem tem experiência no ensino de Teologia a um grupo de alunos do último ano do ensino médio que, apesar de todos os meus esforços, invariavelmente descobriam como transmitir memes de Ron Burgundy no projetor durante a primeira aula do dia – e isso lá em 2019!
Tudo isso já era verdade antes de a inteligência artificial generativa ser incorporada aos editores de texto e aos mecanismos de busca, dando agora aos alunos acesso ilimitado a ferramentas capazes de elaborar redações inteiras com uma simples instrução, mesmo que eles não consigam acessar a maioria dos sites nos dispositivos fornecidos pela escola. Agora, os chamados “programas 1:1” (em que cada aluno recebe um dispositivo para uso) não apenas impedem o desenvolvimento de habilidades táteis – e perpetuam a caligrafia feia –, alimentam a dependência de dopamina e encurtam a capacidade de concentração, mas também se tornaram possíveis fontes de erosão cognitiva em razão da terceirização excessiva de tarefas para ferramentas de IA generativa. Mesmo que alunos do 6.º ano do ensino fundamental sejam instruídos sobre como usar a IA de maneira responsável, eles continuam sendo alunos de 6.º ano. Dificilmente deveríamos esperar que, quando ninguém está olhando, os jovens escolham sistematicamente o caminho mais difícil simplesmente porque ele é melhor para sua formação. O economista comportamental Daniel Kahneman chama isso de “lei do menor esforço”, em Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.
Temos de formar estudantes capazes de enfrentar as dificuldades com paciência e perseverar diante do desconforto. A eficiência e a facilidade das telas e da IA se opõem à formação da virtude e da boa vontade
Talvez nunca tenha sido muito sensato avaliar a aprendizagem dos alunos por meio de trabalhos realizados em casa, com pouca supervisão. Poderia fazer algum sentido nos anos 1960, quando os candidatos a trapaceiros precisavam telefonar para um amigo na cozinha, com os pais ouvindo tudo, ou intimidar um bom aluno para que lhes entregasse a lição de casa. É justo dizer que, naquelas condições, apresentar fraudulentamente o trabalho de outra pessoa como se fosse seu era bem mais difícil. Já faz bastante tempo que as coisas deixaram de ser assim. Hoje, é relativamente fácil trapacear e enganar professores desavisados.
Ao dizer tudo isso, quero dizer também que todas as escolas – particularmente as católicas – deveriam enfrentar a realidade das pesquisas empíricas sobre a educação mediada pela tecnologia e das evidentes consequências do acesso à inteligência artificial generativa, impossível de proibir e controlar completamente. Isso significa que as escolas deveriam banir a tecnologia na educação? Não exatamente. Significa, sim, que é cada vez mais difícil justificar que os alunos a utilizem para tudo. O papa Leão XIV apresenta precisamente esse argumento na Magnifica Humanitas, lembrando-nos de que “toda tecnologia molda aqueles que a utilizam”. Educar os jovens para que usem bem a tecnologia inclui, portanto, “ensiná-los a decidir quando e com que finalidade ela não deve ser utilizada”. Na verdade, todos os aspectos especificamente católicos que os diretores e educadores deveriam levar em consideração nas escolas católicas tornam difícil justificar a continuidade de políticas de distribuição individual de dispositivos, nas quais os alunos têm acesso a um tablet e o utilizam em todas ou na maioria de suas atividades. Vejamos quais poderiam ser esses aspectos.
Pegar sempre o caminho mais fácil não ajuda a formar o caráter
Eu arriscaria dizer que uma boa maioria das escolas católicas está explicitamente comprometida com a formação do caráter dos alunos e até mesmo incluiu essa preocupação em sua missão, lema ou declaração de valores (se não fez, deveria fazê-lo). A formação do caráter diz respeito àquilo em que os alunos se tornam, e não às notas que obtêm ou aos resultados que conseguem produzir. Significa investir na formação de estudantes que sejam capazes de enfrentar as dificuldades com paciência, perseverar diante do desconforto e cultivar o apreço por tudo o que é bom, belo e verdadeiro. A eficiência e a facilidade se opõem à formação da virtude e da boa vontade – pelo menos no início. Certamente, em seus estágios iniciais, a formação da virtude rejeita o caminho da resistência mínima.
Não parece que uma política de distribuição individual de aparelhos digitais ofereça algum benefício claro aos esforços dos alunos para trilhar o caminho da virtude. Pelo contrário, ela frequentemente estimula seu exato oposto: a expectativa de facilidade, o acesso a fontes cada vez maiores de gratificação imediata e distração, uma desculpa para baixar a cabeça e entregar-se às próprias obsessões autocentradas, em detrimento dos seres humanos que estão à nossa volta. Se perguntássemos: “Um programa de distribuição individual de dispositivos oferece algum benefício significativo à formação das virtudes dos alunos?”, teríamos grande dificuldade em responder afirmativamente. Nesse aspecto, ele é claramente um obstáculo.
A recompensa imediata das telas atrapalha a formação espiritual
Naturalmente, toda escola católica é, de maneira evidente, um ministério da Igreja. Independentemente da população que atende, ela tem a responsabilidade de formar discípulos de Cristo – não apenas ensinando os princípios da fé, mas criando um ambiente no qual os jovens possam se tornar receptivos e dispostos a encontrar o Deus vivo (Salmo 42,2). A formação espiritual exige uma certa “ecologia”. Para alguém que está começando sua jornada espiritual, é mais difícil encontrar beleza no deserto e abrir intencionalmente espaço para o Espírito Santo em meio a uma avalanche de estímulos que aguçam os apetites mais baixos. É precisamente isso que torna problemáticas as políticas de uso individual de dispositivos nas escolas católicas, sobretudo naquelas de educação infantil e ensino fundamental.
Esses programas ajudam a promover uma cultura escolar na qual se estimula o discernimento sobre o uso da tecnologia? Ou isso é simplesmente dado como certo? Um programa de distribuição individual de dispositivos oferece aos alunos espaço para se sentarem e aguentarem períodos de silêncio que preparem seus corações para ouvir as inspirações do Espírito Santo e as exigências da consciência? Na Magnifica Humanitas, Leão XIV descreve nossa tarefa como o cultivo da “liberdade interior” necessária para viver bem em meio às tecnologias digitais. A onipresença de telas e dispositivos estimula o desenvolvimento espiritual e o discernimento propício à maturidade espiritual? Mais uma vez, teríamos grande dificuldade em responder afirmativamente.
Nossas escolhas a respeito das normas educacionais não devem ser determinadas pelo Vale do Silício. Elas devem ser estabelecidas levando-se em conta as realidades da lei natural e a antropologia teológica
Uma visão distorcida sobre como a tecnologia pode ajudar os mais pobres
Por fim, embora isso não faça parte da missão de todas as escolas católicas, muitas delas atendem especificamente pessoas mais pobres e, ao fazê-lo, proporcionam aos jovens habilidades e talentos que poderão conduzi-los a uma carreira próspera e romper o ciclo de privação material de suas famílias. Nesse ponto, parece haver um argumento mais forte em favor do incentivo à fluência tecnológica entre os jovens, considerando que tal proficiência certamente fará parte de sua futura vida profissional. O argumento, porém, depende da ideia de que o uso generalizado e intensivo de dispositivos necessariamente desenvolverá essa proficiência. Essa premissa carece de evidências.
As barreiras para o uso fluente da tecnologia são cada vez menores, à medida que nossas ferramentas evoluíram em direção ao chamado “design centrado no ser humano”, que prioriza a facilidade de uso. iPads e iPhones, por exemplo, são concebidos dessa maneira. É por isso que crianças pequenas não têm dificuldade em manipulá-los para jogar, encontrar aplicativos e iniciar e reproduzir vídeos. É também por isso que os baby boomers desenvolveram suas próprias dependências e vícios em redes sociais, apesar de não terem utilizado um tablet ou smartphone durante os primeiros 50 anos de suas vidas. Tampouco é evidente que o domínio do uso de um tablet esteja entre as principais habilidades que as empresas procuram.
Além disso, utilizar bem as ferramentas de inteligência artificial generativa não exige conhecimentos de programação ou de lógica booleana: elas funcionam em linguagem comum. Justamente por isso, o domínio do idioma é a habilidade fundamental para utilizá-las da melhor maneira, isto é, para obter, por meio de uma instrução (o que chamamos de prompt), o resultado desejado. Essa capacidade utilitária depende, antes de tudo, de outras capacidades intelectuais, entre as quais estão a gramática, a lógica e a retórica. Fazer julgamentos criteriosos sobre os resultados produzidos pela IA também exige essas capacidades intelectuais, além do discernimento necessário para saber o que vale a pena desejar, quais limites devem ser estabelecidos e em que situações a IA não constitui uma ferramenta ou interlocutora adequada. Tudo isso depende da formação do caráter e da abertura espiritual descritas anteriormente.
Vale a pena, também, observar que algumas das pessoas que conhecem profundamente as exigências do mercado – e que comprovadamente se beneficiaram delas, acumulando fortunas – escolhem matricular seus filhos em escolas surpreendentemente pouco tecnológicas. As tecnologias vendidas como soluções milagrosas para os pobres são mantidas a uma distância cuidadosamente calculada dos filhos de alguns dos mais ricos executivos do setor tecnológico.
Isso, naturalmente, não significa que a tecnologia educacional seja intrinsecamente ruim. Tampouco significa que ela não tenha lugar na educação. Significa, em vez disso, que não deve ser considerada um bem presumido nem encarada como uma força inevitável que precisa ser aceita o tempo todo e em todas as disciplinas. Como católicos, nossas escolhas a respeito das normas educacionais não devem ser determinadas pelo Vale do Silício. Elas devem ser estabelecidas levando-se em conta as realidades da lei natural e a antropologia teológica herdada e concreta da pessoa humana, desenvolvida ao longo de nossa tradição intelectual. O mundo gira e se transforma, mas somos chamados a responder a isso com discernimento, e não simplesmente sucumbir à lógica do secularismo. Ocorre apenas que boa parte da ciência empírica confirma realidades que já sabemos ser verdadeiras: os seres humanos precisam uns dos outros, de limites, de descanso e de um ambiente que favoreça a concentração e o crescimento e desenvolvimento contínuos.
Assim, se os programas de uso individual de dispositivos não trazem um benefício específico para a aprendizagem em geral, para o desenvolvimento do caráter, para o desenvolvimento espiritual ou para o cuidado da Igreja com os pobres, o argumento em favor de sua ampla adoção na maioria das escolas católicas parece, na melhor das hipóteses, frágil – e, na pior, imprudente e negligente.
Embora repensar essa prática exija muitas conversas e um planejamento cuidadoso, é algo que todo dirigente escolar deveria sentir-se chamado a considerar e a abordar com boa-fé. Isso exigirá, naturalmente, a mesma força de caráter que esperamos encontrar em nossos alunos: a recusa em se submeter àquilo que é mais fácil, mais rápido e mais conveniente. Nesse aspecto, as escolas católicas podem dar o exemplo.
Lily M. Abadal é professora assistente de Filosofia na Universidade do Sul da Flórida. É especialista em ética normativa, psicologia moral e teoria das virtudes, com ênfase em como práticas moldadas pela tradição influenciam a formação do caráter. Seus projetos atuais investigam o dano moral, o sofrimento e a desorientação, bem como as dimensões éticas da inteligência artificial em contextos educacionais e profissionais.
©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: When It Comes to Technology, Catholic Schools Can Lead by Example
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