PolíticaBolsonaro tenta reunir aliados para definir estratégia contra Alcolumbre no Senado
A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) solicitou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorização para que ele receba os senadores Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS), dois dos principais nomes da oposição na disputa pela presidência do Senado. O pedido ocorre em meio às articulações para a eleição de 1º de fevereiro de 2027, quando os parlamentares escolherão o comando da Casa para os dois primeiros anos do novo mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A movimentação acontece em um momento de indefinição sobre a estratégia do bolsonarismo no Congresso. Marinho e Tereza Cristina pretendem disputar a presidência do Senado, mas a manutenção de duas candidaturas do mesmo campo político pode dividir os votos da oposição e favorecer a tentativa de reeleição de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), atual presidente da Casa.
O pedido de visitas, divulgado em 6 de novembro, coloca Bolsonaro novamente no centro das articulações de seus aliados. A eventual realização dos encontros, entretanto, depende de autorização judicial e das condições estabelecidas pelo STF. Até a conclusão desta reportagem, não havia confirmação de que as visitas solicitadas tivessem sido autorizadas ou realizadas.
Bolsonaro cumpre prisão domiciliar humanitária, mantida por decisão de Moraes em julho de 2026. O ex-presidente foi condenado a 27 anos e três meses de prisão na ação penal relacionada à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. As condições de cumprimento da pena incluem restrições determinadas pela Justiça.
O principal desafio político de seus aliados está na escolha de um candidato capaz de reunir votos suficientes para impedir a permanência de Alcolumbre na presidência do Senado. Embora Marinho e Tereza Cristina compartilhem a oposição à recondução do senador amapaense, os dois mantêm projetos próprios para comandar a instituição.
Na quarta-feira (4), o PL oficializou a candidatura de Rogério Marinho. Ex-ministro do Desenvolvimento Regional no governo Bolsonaro, o senador pelo Rio Grande do Norte é líder da oposição no Senado e procura consolidar o apoio de parlamentares de direita, além de negociar votos em partidos que não integram formalmente o bloco bolsonarista.
Tereza Cristina, que comandou o Ministério da Agricultura durante o governo Bolsonaro, também mantém a intenção de disputar o cargo. A senadora por Mato Grosso do Sul pretende se tornar a primeira mulher a presidir o Senado Federal e considera que sua candidatura pode conquistar votos de diferentes grupos políticos.
Apesar das duas pré-candidaturas, Marinho afirmou, em 3 de novembro, que existe um entendimento para que os dois não disputem diretamente um contra o outro. A declaração indica a possibilidade de uma candidatura única, mas ainda não representa a definição de quem permanecerá na corrida.
Na sexta-feira (6), Marinho reforçou a defesa de uma composição e pediu que apoiadores da direita evitassem ataques contra Tereza Cristina nas redes sociais. O senador argumentou que a pressão sobre integrantes do mesmo grupo político pode dificultar as negociações necessárias à formação de uma candidatura competitiva.
A tentativa de aproximação também revela um problema para a oposição: uma candidatura única não garante, por si só, a conquista dos votos necessários para derrotar Alcolumbre. O resultado dependerá de negociações com senadores de partidos que já anunciaram apoio ao atual presidente e de eventuais dissidências dentro dessas legendas.
O PL projeta uma bancada de 29 senadores a partir de fevereiro de 2027. Somados aos três integrantes do Novo, os dois partidos terão 32 cadeiras, caso a composição prevista seja mantida. O número representa uma base importante para a oposição, mas é insuficiente para assegurar a eleição da presidência do Senado.
A Casa tem 81 senadores, e a disputa exige maioria absoluta de 41 votos para uma vitória em primeiro turno, se todos os parlamentares participarem da votação. Assim, mesmo com o apoio integral das bancadas do PL e do Novo, Marinho precisaria conquistar pelo menos nove votos adicionais.
A disputa por essas adesões envolve principalmente Republicanos, PP, União Brasil, Podemos e outras legendas com parlamentares alinhados à direita ou dispostos a negociar apoio. A composição partidária, contudo, não permite tratar automaticamente todos os integrantes dessas bancadas como votos confirmados.
O cenário se torna mais complexo porque a federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, anunciou formalmente apoio à reeleição de Alcolumbre em 27 de outubro. A decisão coloca Tereza Cristina em posição diferente da defendida pela direção nacional de seu próprio grupo partidário.
A senadora contestou a ideia de que o posicionamento da federação determine o voto de seus integrantes. A escolha do presidente do Senado ocorre por votação individual e secreta, permitindo que parlamentares adotem posições diferentes das orientações anunciadas pelos partidos.
Além da federação União Progressista, Alcolumbre reúne apoio político de lideranças do PT, MDB e PSD. A articulação aproxima partidos da base do presidente Lula de setores do centro político e amplia a disputa por senadores que poderão definir o resultado da votação.
As projeções divulgadas por aliados dos principais candidatos ainda apresentam divergências. Representantes dos grupos de Marinho e Alcolumbre já trabalharam com estimativas de até 48 votos para cada lado, números que não podem ser simultaneamente confirmados, considerando o total de 81 senadores.
Em declaração divulgada na sexta-feira (6), Marinho estimou contar com aproximadamente 40 votos. O cálculo representa uma projeção política do candidato, não uma confirmação de compromissos individuais dos parlamentares.
O caráter secreto da votação acrescenta incerteza ao processo. Mesmo quando um senador manifesta apoio público a determinada candidatura, não existe garantia de que mantenha essa escolha no momento do voto.
Marinho já defendeu que integrantes da direita tornem públicas suas preferências para a presidência do Senado. A estratégia busca ampliar a cobrança política sobre parlamentares eleitos com o apoio do bolsonarismo, embora a divulgação voluntária das posições não altere a regra institucional do voto secreto.
A eleição de fevereiro também terá consequências para a relação entre o Legislativo e o governo Lula. O presidente do Senado exerce influência sobre a pauta de votações, a tramitação de propostas, as negociações partidárias e o funcionamento institucional da Casa.
Entre as atribuições constitucionais do Senado estão a análise de indicações para cargos de elevada responsabilidade, incluindo ministros de tribunais superiores e autoridades de órgãos federais, além do processamento e julgamento de autoridades nos casos de crimes de responsabilidade previstos na Constituição.
Por isso, o controle da presidência da Casa interessa tanto ao governo quanto à oposição. A definição também afeta a organização das comissões permanentes e a distribuição de postos de comando entre os partidos, elementos relevantes para a tramitação de projetos e para a fiscalização do Poder Executivo.
Para o bolsonarismo, a presidência do Senado é particularmente importante por causa das discussões sobre medidas relacionadas aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e das cobranças dirigidas ao Supremo Tribunal Federal. Setores da oposição criticam Alcolumbre por sua atuação nessas pautas e defendem mudanças na condução política da Casa.
Essas divergências, entretanto, não significam que a eleição de um presidente alinhado à oposição produziria automaticamente mudanças nas decisões judiciais ou nas regras constitucionais. A atuação do Senado continua submetida aos procedimentos legislativos e às competências estabelecidas pela Constituição.
A eleição de 2027 também poderá representar uma mudança na composição política do grupo ligado a Bolsonaro. Michelle Bolsonaro (PL), eleita senadora, passará a integrar a Casa na nova legislatura, ampliando a presença da família do ex-presidente nas articulações parlamentares.
O resultado da eleição presidencial de outubro, que garantiu um novo mandato a Lula, e a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após o segundo turno modificaram o cenário político no qual a direita organiza sua atuação. Nesse contexto, a disputa pelo comando do Senado representa uma das primeiras oportunidades de medir a capacidade de articulação da oposição para o próximo período legislativo.
A tentativa de Bolsonaro de receber Marinho e Tereza Cristina ocorre justamente enquanto seus aliados negociam a definição de uma candidatura comum. Apesar da expectativa política em torno dos encontros, não há confirmação de que uma eventual visita resulte em apoio formal a um dos dois nomes.
Também permanece indefinido se Tereza Cristina abrirá mão de sua candidatura, se Marinho conseguirá ampliar sua base além do PL e do Novo ou se Alcolumbre manterá os apoios anunciados até fevereiro.
A escolha do presidente do Senado está prevista para 1º de fevereiro de 2027, quando os novos parlamentares tomarão posse e participarão da eleição da Mesa Diretora. Até lá, os três projetos políticos continuam condicionados à capacidade de reunir votos e consolidar acordos.
Para Bolsonaro, a tentativa de contato com antigos integrantes de seu governo ocorre em um momento no qual a oposição procura reorganizar sua atuação após as eleições presidenciais. Para Marinho, Tereza Cristina e Alcolumbre, a disputa definirá quem estará à frente de uma das principais instituições do país no início do novo mandato de Lula.
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