Viver07 de novembro de 2026AVC atinge pessoas cada vez mais jovens
Redação Tribuna do Norte • 07 de novembro de 2026 • 17h05

Tádzio França
Repórter
Pessoas não idosas, em geral, costumam se dizer “jovens demais” para sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Mas não é o que dizem os últimos números: segundo o Ministério da Saúde, as internações em decorrência de derrames aumentaram 16,9% no Brasil, entre pessoas de 15 a 49 anos, de 2020 a 2025. Embora o problema seja de fato mais frequente em pessoas acima dos 60 anos, serve de alerta o aumento de ocorrências entre adolescentes e adultos jovens. Informações sobre prevenção e tratamento são necessárias para todas as idades.
“O AVC não é exclusivo da população idosa. Embora sua incidência aumente com a idade, temos observado uma preocupação crescente com a ocorrência em adultos jovens”, diz a neurologista Maria Weryca de Souza, especialista em doenças cerebrovasculares. Ela cita um estudo publicado em 2025 no Journal of the American Heart Association, que analisou dados de 204 países entre 1990 e 2021, identificando um aumento de 36% no número de casos de AVC entre pessoas de 15 a 49 anos.
A médica ressalta que é importante considerar que esse aumento também sofre influência do crescimento populacional. “Ainda assim os dados apontam uma tendência preocupante, relacionada, entre outros fatores, ao aparecimento cada vez mais precoce de hipertensão, diabetes, obesidade, alterações do colesterol, tabagismo e sedentarismo”, explica. Esse aumento tem relação direta com mudanças no estilo de vida, combinadas a fatores genéticos.
Os principais fatores de risco para os mais jovens são semelhantes aos observados em pessoas mais velhas, enfatiza a neurologista: hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo e sedentarismo. “Entretanto, nos jovens, também precisamos investigar doenças cardíacas, alterações da coagulação, dissecções arteriais, doenças autoimunes e condições genéticas”, completa.
Nas mulheres, em especial, merecem atenção situações como gravidez, puerpério e uso de anticoncepcionais hormonais - especialmente quando associados ao tabagismo e à enxaqueca com aura. “Por isso, o AVC nessa população exige investigação individualizada”, ressalta a médica.
O estilo de vida contemporâneo também é um dos fatores que contribuem para o AVC entre os mais jovens. Maria Weryca cita a alimentação rica em ultraprocessados e sódio, o sedentarismo, a privação de sono, o estresse crônico, o consumo excessivo de álcool e o tabagismo entre os fatores que aumentam o risco cardiovascular. Também merece destaque o uso de drogas estimulantes, como cocaína e anfetaminas, que podem provocar alterações na circulação cerebral e favorecer a ocorrência de AVC.
Uma pessoa pode aparentar boa saúde e não apresentar doenças conhecidas, mas ainda assim sofrer um AVC. A neurologista alerta sobre condições silenciosas, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e algumas alterações cardíacas, que podem permanecer anos sem diagnóstico. “Além disso, existem causas menos comuns, como distúrbios da coagulação, doenças da parede dos vasos, malformações vasculares e determinadas cardiopatias. Portanto, pouca idade e ausência de sintomas prévios não significam ausência de risco”, explica.
Sinais
Os principais sinais de AVC são alterações neurológicas de início súbito, como fraqueza ou perda de sensibilidade em um lado do corpo; desvio da boca; dificuldade para falar ou compreender; alteração súbita da visão; tontura intensa, desequilíbrio ou dificuldade para caminhar; dor de cabeça súbita e muito intensa, especialmente nos casos hemorrágicos.
Não há diferenças fundamentais entre os sintomas de jovens e idosos, segundo Maria. “Entretanto, nos jovens, o reconhecimento pode ser mais difícil porque o AVC não é inicialmente considerado uma possibilidade. Qualquer alteração neurológica súbita deve ser tratada como uma emergência médica”, alerta.
É fato que muitos jovens demoram a procurar atendimento por não imaginarem que podem estar tendo um AVC. “A ideia de que o AVC acomete apenas idosos pode atrasar o reconhecimento dos sintomas e a procura por atendimento. Muitas vezes, as manifestações são confundidas com enxaqueca, queda de pressão ou mal-estar passageiro. Esse atraso pode comprometer a recuperação”, afirma.
No AVC isquêmico, existem tratamentos capazes de desobstruir a artéria e restabelecer a circulação cerebral, mas que dependem do tempo e de critérios clínicos e radiológicos específicos. Maria explica que na neurologia vascular há um princípio fundamental: tempo é cérebro. Quanto mais rápido o atendimento, maiores as chances de preservar tecido cerebral e reduzir incapacidades.
As consequências de um AVC para uma pessoa jovem dependem da região cerebral afetada, da extensão da lesão, do tipo de AVC e da rapidez do tratamento. Podem ocorrer dificuldades motoras, alterações visuais, da fala, problemas de memória, alterações cognitivas e emocionais. O impacto social e profissional também merece destaque. “O adulto jovem geralmente está em plena fase produtiva, construindo sua carreira e sua família. Assim, um AVC pode resultar em muitos anos de vida com incapacidade, além de repercussões familiares, emocionais e econômicas”, complementa.
A predisposição genética e o histórico familiar também são fatores aos quais se deve prestar atenção. “O histórico familiar, especialmente de familiares de primeiro grau com AVC em idade precoce, pode aumentar o risco. Isso pode estar relacionado tanto à herança genética quanto ao compartilhamento de fatores ambientais e hábitos de vida”, diz. Há doenças genéticas específicas que favorecem o AVC, incluindo algumas doenças hereditárias dos pequenos vasos cerebrais e condições que afetam a coagulação ou a estrutura das artérias.
Prevenção
O AVC pode ser prevenido porque uma parcela significativa dos casos está relacionada a fatores de risco modificáveis. A prevenção, explica Maria Weryca, envolve alimentação equilibrada, atividade física regular, controle do peso, boa qualidade do sono, evitar o tabagismo e moderar o consumo de álcool. Também é fundamental acompanhar a pressão arterial, a glicemia e o colesterol, além de tratar adequadamente doenças já diagnosticadas, como hipertensão, diabetes e cardiopatias. A prevenção não deve começar apenas na terceira idade, mas ser construída desde a juventude.
De maneira geral, pessoas mais jovens podem apresentar maior potencial de recuperação funcional, em parte pela maior capacidade de neuroplasticidade cerebral, que permite ao cérebro reorganizar suas conexões e desenvolver estratégias para recuperar funções comprometidas.
“Entretanto, isso não significa que as sequelas serão necessariamente mais leves. A recuperação depende da extensão e localização da lesão, da gravidade inicial, da rapidez do tratamento e da presença de complicações”, explica. Segundo a médica, a reabilitação multiprofissional deve começar precocemente, quando houver estabilidade clínica.
Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento neuropsicológico, quando indicados, são fundamentais para recuperar funções e melhorar a qualidade de vida. “Mesmo jovens podem apresentar sequelas graves e permanentes, por isso o AVC nessa população não deve ser subestimado”, conclui.
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