Economia07 de novembro de 2026Qualidade, mercado milionário e ciência projetam o futuro da cafeicultura no RN
Redação Tribuna do Norte • 07 de novembro de 2026 • 17h03

Fernando Azevêdo
Repórter
Apesar da retomada recente, a cafeicultura no Rio Grande do Norte já representa um mercado milionário e com perspectivas concretas de ampliação. Especialistas avaliam que a atividade é sustentável e altamente rentável para os produtores potiguares. Além disso, as expectativas apontam para um futuro marcado por maior volume de produção e grãos com padrão crescente de qualidade.
Em 2026, o estado já exportou o equivalente a US$ 2,1 milhões em grãos de café não torrado e não descafeinado para o México, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Já a produção de grãos movimentou R$ 10,04 milhões no RN em 2025, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
O engenheiro-agrônomo Jheyson Dantas, pesquisador e consultor especializado em Cafeicultura, projeta que em um período de três a cinco anos haverá um mercado representativo para a cafeicultura potiguar. “Teremos um mercado de café sendo mais comentado. É um setor em expansão devido ao plantio em novas áreas. Daqui a cinco anos, vejo o RN com uma produtividade representativa”, afirma.
A retomada da cafeicultura em diversas regiões do estado – das serras ao litoral – mobilizou cafés remanescentes do século 20 e atraiu novos produtores. Segundo especialistas, leva cerca de três anos para que a produção de uma lavoura atinja estabilidade e viabilidade comercial.
Além de quantidade ou de movimentação financeira, o café carrega outro valor agregado: a identidade potiguar. A avaliação é de Elton Alves, gestor de cafeicultura do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no RN (Sebrae-RN). Ele projeta dois caminhos para o setor.
“A perspectiva econômica que observamos na região do Mato Grande indica um cenário expressivo para a cafeicultura de commodity — aquele café focado em volume e sem tanto critério de qualidade”, explica. São, neste caso, produtores com alta capacidade de investimento, maior mecanização, mais estrutura e mais mão de obra.
“Para a realidade dos pequenos produtores, o foco é o café de especialidade. A perspectiva é que eles consigam desenvolver a própria marca ou fornecer para torrefações locais que agreguem valor ao produto”, diz Elton Alves. Esses cafeicultores se diferenciam pela qualidade, abrindo espaço, inclusive, para o desenvolvimento do turismo de experiência no meio rural.

Mais tecnologia no campo
O economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do RN, afirma que é preciso intensificar políticas públicas que levem mais tecnologia ao campo potiguar. “Outro ponto importante é garantir assistência aos agricultores no acesso ao comércio internacional”, acrescenta.
Ele vê a indicação geográfica – selo que identifica um produto por sua origem territorial – como uma oportunidade para fortalecer o mercado. “É extremamente importante para que as pessoas possam consumir o café sabendo qual é a região produtora. A identificação é importante para conceituar o registro de marca da nossa região”, explica.
Dependendo das condições em que é produzido, como solo, água, sombreamento e manejo, o café pode desenvolver alguma característica específica, ligada ao terroir. Para Elton Alves, “temos muito potencial em relação ao terroir do RN”.
“O sombreamento com cajueiros, o próprio microclima de algumas regiões, o solo, tudo isso traz o que percebemos nesses cafés: muita doçura, um café mais frutado, mais delicado”, frisa.
O Sebrae-RN atua na cadeia do café desde 2021, quando resgatou a história da cafeicultura e atendeu ao primeiro pequeno produtor interessado em retomar a produção, Diogo Castro, em Jaçanã.
Já em 2026, a entidade criou o projeto “Cafés do RN”, que hoje atende a 46 produtores, muitos dos quais iniciaram o plantio neste ano. Considerando o tempo de maturação e estabilidade de produção, os próximos anos podem reservar boas safras para essas propriedades. Elton Alves reforça, porém, que a quantidade não é o foco desses produtores, mas a qualidade.
A Secretaria do Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN) avalia que “o potencial da cafeicultura potiguar deve ser compreendido não pela competição em volume com os grandes polos produtores brasileiros, mas pela capacidade de desenvolver produtos diferenciados, fortalecer economias locais e construir uma cadeia produtiva com maior valor agregado”.
A pasta destaca ainda “a possibilidade de transformar essa expansão em uma atividade economicamente sustentável, competitiva e capaz de gerar resultados de longo prazo para o desenvolvimento regional.”
Para Arthur Néo, a cafeicultura oferece vantagens frente a outras culturas agrícolas, como a colheita contínua ao longo do ano, o que fixa o trabalhador no campo. Além disso, apresenta alto rendimento médio, boas margens de lucro e aumento na arrecadação municipal.
A retomada recente da atividade conta com outros benefícios, destaca Jheyson Dantas. Segundo ele, o avanço tecnológico – como o melhoramento genético para resistência a pragas – e o suporte técnico do Sebrae-RN e do Núcleo de Estudos em Cafeicultura (Necaf) da UFPB têm alavancado a produtividade.
Já o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no RN (Senar-RN) prevê a abertura de uma turma de Assistência Técnica e Gerencial dedicada ao setor em 2027. “Já há uma mobilização e qualificação nesse sentido, mas precisamos identificar uma demanda organizada e um número suficiente de produtores interessados”, diz, por meio da assessoria de comunicação.

Associação e núcleo de estudos reforçam potencial
A apresentação da Associação dos Produtores de Café da Serra de Santana (Acafes) e a criação do Grupo de Estudos e Pesquisa em Cafeicultura do RN (Cafern) marcam a retomada da cafeicultura no estado e reforçam o potencial da atividade, mirando o seu futuro. Ambas as iniciativas foram anunciadas em 16 de outubro deste ano, na Agência Sebrae Festa do Boi.
Primeira associação de cafeicultores do RN, a Acafes reúne 15 produtores de Tenente Laurentino Cruz, Santana do Matos e Lagoa Nova, com expectativa de incluir outros municípios da serra. O coletivo de produtores já se reunia desde o fim de 2025 e plantou as primeiras mudas entre fevereiro e abril de 2026.
A presidente da associação, Vanessa Trigueiro, relata que os interessados compraram as sementes sob orientação técnica do Sebrae-RN e do Necaf. “O objetivo comum entre esses produtores é fortalecer a si e à cadeia do café no RN como um todo”, afirma. Isso inclui o incentivo ao turismo, por exemplo.
Dos associados fundadores, são nove homens e seis mulheres. “Há no grupo uma geração mais jovem, na faixa dos 30, 40 anos. É legal quando se fala principalmente sobre sucessão rural, sobre a continuidade da agricultura familiar por meio dos mais jovens. Muitos são filhos ou netos de agricultores. Acho que o café resgatou essas pessoas para olhar com mais carinho para o campo”, destaca Vanessa Trigueiro, que planta café em Santana do Matos.
A expectativa é de uma primeira safra, ainda modesta, no segundo semestre de 2027. Fortalecendo a cafeicultura no RN e se articulando, a associação mira o futuro. “Nossa ideia é que outras regiões do estado possam também se formalizar enquanto associação”, conta a presidente da associação.
Por sua vez, o Cafern foi desenvolvido em parceria institucional entre a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e o Sebrae-RN. O coordenador do projeto, professor Vitor Machado, explica que a iniciativa integra pesquisa científica, inovação tecnológica, extensão rural e empreendedorismo.
“O grupo busca identificar o potencial produtivo das diferentes regiões do estado, avaliar a adaptação de cultivares de café às condições edafoclimáticas, especialmente do semiárido, e desenvolver alternativas tecnológicas que contribuam para a viabilidade econômica e ambiental da atividade”, diz Vitor Machado.
A união entre a produção acadêmica da Ufersa e a experiência do Sebrae-RN no fortalecimento dos pequenos negócios também visa ao futuro da atividade. “Nossa perspectiva é contribuir para que a cafeicultura se consolide como uma nova oportunidade de diversificação agrícola, geração de renda e desenvolvimento regional, valorizando as potencialidades do RN”, afirma o professor.
Na prática, o grupo desenvolverá atividades de pesquisa científica, visitas técnicas a propriedades rurais, acompanhamento de áreas de cultivo e capacitação de produtores, entre outras ações.
Elton Alves destaca ainda o impacto na geração de empregos qualificados. “Vamos precisar de profissionais que saibam avaliar e vender café. Quem sabe, num futuro não tão distante, nós tenhamos aqui formações de classificadores de café, de operadores da bolsa do mercado financeiro de café, assim como hoje nós temos diversos baristas e cafeterias pelo estado”, projeta.
NÚMEROS
US$ 2,1 milhões: Valor exportado pelo RN em 2026 em grãos de café não torrado e não descafeinado para o México (MDIC)
R$ 10,04 milhões: Valor movimentado pela produção de grãos no estado em 2025 (IBGE)
3 a 5 anos: Prazo estimado para a consolidação de um mercado representativo de café no RN
3 anos: Tempo médio necessário para que uma nova lavoura atinja estabilidade de produção
46 produtores: Número de cafeicultores atendidos em 2026 pelo projeto Cafés do RN, do Sebrae-RN
15 produtores: Número de cafeicultores que compõem a Acafes, primeira associação do setor no RN
16 de outubro de 2026: Data de assinatura de termo de cooperação entre Ufersa e Sebrae-RN para criação do Cafern
Esta reportagem conclui a série “Caminhos do Café Potiguar”, que a TRIBUNA DO NORTE publicou em três partes sobre a história e a força da cafeicultura no Rio Grande do Norte.
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