Tribuna do Norte
07/11/2026 17:30

Economia07 de novembro de 2026‘Indústria do RN tem potencial fabuloso, e inovação tem evoluído em cada setor’, diz diretor do Senai-RN

Redação Tribuna do Norte • 07 de novembro de 2026 • 17h02

Diretor do Senai-RN detalha os impactos da inovação na indústria potiguar, os setores que mais demandam mão de obra qualificada e as estratégias para atrair os jovens para o ambiente industrial no estado. Foto: Alex Régiis

Com os desafios impostos pela alta carga tributária, pelos juros elevados e pela segurança jurídica, a indústria do Rio Grande do Norte busca acelerar sua modernização tecnológica e ampliar a qualificação de mão de obra para impulsionar setores estratégicos como energias renováveis, construção civil e petróleo e gás. Na entrevista a seguir, o diretor do Senai-RN, da Faeti e do ISI-ER, Rodrigo Mello, analisa os principais gargalos para a inovação no estado, o papel das micro e pequenas empresas nesse ecossistema e os caminhos para aproximar a juventude das oportunidades do setor industrial.

A inovação tecnológica vem transformando rapidamente os processos industriais. Como a indústria do Rio Grande do Norte está absorvendo essas mudanças?
É importante a gente enxergar que inovação não segue, necessariamente, fronteiras. Então não existe inovação para a indústria do Rio Grande do Norte. A indústria do Rio Grande do Norte se beneficia de uma inovação industrial que é posta. Mas, para trazer um número medido recentemente, em 2025, um dos principais atores do processo de inovação do mundo, que é uma instituição chamada Fraunhofer, da Alemanha, fez uma avaliação sobre a atuação dos nossos institutos Senai na inovação no Brasil. E nós, medidos por eles e não por nós, pelo Brasil, a atuação desses institutos tiveram um impacto positivo de 0,66% no PIB do Brasil. Isso é um número gigantesco, real e medido por uma instituição de renome internacional. Quando a gente traz aqui para a vida das pessoas que compõem as atividades dessas indústrias, seja no Brasil, seja no Rio Grande do Norte, claramente você vê uma evolução do que era uma indústria, por exemplo, de alimentos há 20 anos atrás e o que é uma indústria de alimentos hoje. É certo que a competitividade das empresas industriais no Brasil demanda muito de inovação e esse é um processo. Nós passamos por uma onda de indústria 4.0, onde máquina conversa com máquina a partir de programas de implantação de inteligência artificial, de conectividade de dados e geração de novos dados para a tomada de decisão, isso tudo resultado de muita inovação implantado diretamente no ambiente industrial que impacta a vida das pessoas.

Em que estágio se encontra esse processo de transformação tecnológica na indústria do RN quando comparado a outros centros industriais do país?
Eu diria que não existe um ‘estágio’ desse processo. Os estágios são diversos. Junto à Federação das Indústrias existem 31 setores industriais associados. Cada setor tem níveis distintos de implantação ou de exigência de novas tecnologias no seu ambiente produtivo. Cada cadeia dessas possui um nível tecnológico diferente. Em uma análise geral, vejo que o Rio Grande do Norte está bem situado. Nós temos uma indústria pequena, mas de um potencial fabuloso, fortalecendo-se, buscando trabalhar com mais inovação e isso tem evoluído, como eu disse, em graus de velocidade distintos setor a setor. Tem cadeias, como a de geração de energias renováveis, que são mais recentes no estado, se desenvolvendo nos últimos 20 anos, e já nasceram com alto nível tecnológico e alto nível de inovação no seu ambiente industrial. E outras cadeias que têm uma oportunidade de incremento de inovação, de maturidade tecnológica muito grande. Uma das cadeias hoje que mais geram inovação é a da construção civil. É uma atividade que tem, por exemplo, muita oportunidade de implantação de novos métodos construtivos. A indústria de alimentos, da mesma forma. Há dez anos, você chegava numa padaria e tinha pão, bolo, bolacha, etc. Hoje você vê na padaria um nível muito maior de produtos. E a cada dia as indústrias estão se tornando diferentes na apresentação dos seus produtos, na arrumação de sua prateleira. Tudo isso é inovação.

Na sua avaliação, quais são hoje os principais gargalos que o RN enfrenta para avançar ainda mais em inovação?
Inovação requer investimento, requer decisão de colocação de recursos do ambiente industrial. Sem dúvida nenhuma, no Brasil, e acho que isso é bem discutido com toda a sociedade, tem três grandes gargalos no ambiente industrial: o primeiro é o custo de recurso, juro alto, dificuldade de acesso a recursos para investimento. Isso, isso pesa muito. O segundo ponto é a alta carga tributária.
E o terceiro ponto, a segurança jurídica. Então, o empreendedor precisa tomar decisão sobre a velocidade de inovação que ele trará para o seu processo produtivo e, consequentemente, a disponibilidade de recurso que ele fará para esse processo. E esse custo, a carga tributária e a insegurança jurídica faz com que tenhamos algumas dificuldades na tomada de decisão para investimentos no setor de inovação, assim como outros investimentos. Então, o juro alto do Brasil, a carga tributária e a insegurança jurídica são sempre uma dificuldade para a tomada de decisão do empreendedor. Muitas vezes ele até tomou a decisão de a inovação ser primeiro plano, mas ele precisa tomar decisão se ele vai usar recurso com esse custo de capital.

Um dos grandes desafios do setor produtivo é encontrar mão de obra qualificada. Existe hoje um descompasso entre a formação disponível no RN e as necessidades da indústria local?
A necessidade da indústria do mundo, a necessidade da indústria do Brasil, do Nordeste e do Rio Grande do Norte é maior do que a disponibilidade de pessoas qualificadas. Isso tem algumas causas e aí eu vou dar um passo atrás na sua pergunta. Hoje a gente tem um nível de ocupação, considerando a informalidade dessas pessoas, um nível de ocupação bom. Isso é verdade nos últimos 20 anos, talvez 25 anos. Os jovens estão buscando outro tipo de ocupação que não necessariamente a ocupação industrial, ou seja, caiu o interesse da juventude em ocupações tradicionais da indústria. A juventude está muito envolvida com ocupações mais gamificadas, mais virtuais, mais digitais. É verdade que alguns, independente de discutir o mérito, alguns, programas de garantia de renda mínima têm dificultado algumas pessoas a procurarem uma ocupação industrial. As ocupações chamadas de plataforma têm ganhado muito espaço também, então o jovem profissional até 30 anos de idade muitas vezes procura uma ocupação mais urbana, digamos assim, dentro de plataformas de prestações de serviços de entrega, de transporte, enfim. Mas o Senai tem buscado, de forma insistente, suprir a necessidade das empresas. Nós aqui no Rio Grande do Norte, nos últimos cinco anos, colocamos mais de 100.000 profissionais qualificados no mercado em diversos setores industriais, desde a panificação, que tem uma capilaridade em todo o estado; confecção, que é outro setor que demanda muita gente; o setor de energia, enfim, independente do setor, o Senai tem se preocupado, se esforçado, trabalhado num número positivo. Mas é verdade que nós precisamos ainda mais trazer, oportunizar a qualificação para que as pessoas sejam mais atraídas.

Quais áreas concentram as maiores carências de mão de obra qualificada em nosso estado e qual o papel do SENAI na solução deste problema?
Sem dúvida, a maior demanda por pessoas no estado está na construção civil. Esse é um setor grande, é um setor que usa muita mão de obra nos diversos níveis, do nível mais simples em termos de qualificação, que é um ajudante de obra, até o engenheiro de projeto complexo. A construção civil é o setor que mais demanda mão de obra qualificada aqui no Rio Grande do Norte. De novo, não só no Rio Grande do Norte, mas no Brasil como um todo. O Senai tem um papel relevante nisso. Nós, de forma bem capilar, buscamos fazer, primeiro, insistentemente, a abertura de turmas em diversas qualificações voltadas à construção civil, nos seus endereços fixos: Natal, Mossoró e Santa Cruz. Mas, de forma capilar, nos 167 municípios, em parcerias com empresas, com prefeituras e até algumas instituições de fora, formar o maior número de pessoas para atender a essas oportunidades geradas pela indústria para ocupação de pessoas. Mas não fica só na construção civil. Nós temos uma demanda importante no setor de alimentos. O setor de óleo e gás voltou a aquecer nos últimos cinco anos e muita gente já tinha saído do Rio Grande do Norte para outros centros, como Rio de Janeiro, Bahia, etc. E nós estamos num programa intenso de qualificação de pessoas na região Assú-Mossoró, onde está mais concentrada a produção de óleo e gás. Vale salientar que esses são postos de trabalho com muita qualidade remuneratória. Mas, de uma maneira geral, todos os setores industriais, como eu já citei anteriormente, aqui no Rio Grande do Norte, no Brasil, passam por uma intensa busca por profissionais qualificados e uma dificuldade de achar essas pessoas.

O RN tem atividades industriais estratégicas como petróleo e gás, energias renováveis, mineração. Quais áreas da economia potiguar devem demandar mais trabalhadores qualificados nos próximos anos?
Claramente, qualquer pessoa que olhe para o Rio Grande do Norte industrial vai enxergar o setor de óleo e gás, energia e mineração, porque esses três setores devem totalizar talvez aí uns 60% do PIB industrial do estado. Então, realmente é onde está a maior pujança industrial aqui no estado. Mas quando você traz a pergunta de necessidade de maior número de trabalhadores qualificados para os próximos anos, e aí, sim, construção civil, a indústria do vestuário e a indústria de alimentos merecem um destaque especial. Lembrando que, quando você fala desses três setores anteriores, você não está falando necessariamente apenas ou diretamente da indústria de óleo e gás, da indústria de energia ou da indústria de mineração. E sim a cadeia de óleo e gás, que aí é muito mais abrangente. Mas, junto a esses três, sem dúvida, construção civil, vestuário e a indústria de alimentos são outros três cadeias importantes, com ótimas perspectivas de desenvolvimento aqui no Rio Grande do Norte e que requer muita gente, até pelo nível, como eu já citei anteriormente. São setores que ainda, nos dias atuais, podemos considerar que têm baixo nível tecnológico, mas que estão passando por uma revolução de implantação de muita inovação no seu ambiente fabril, e isso vai demandar muita gente qualificada. É tanto que nesses últimos anos, nós desenvolvemos e iniciamos o funcionamento de uma faculdade, chamada Faeti, aqui do Senai, que é uma faculdade de energias renováveis e tecnologias industriais que está buscando trazer ao novo profissional da engenharia um comportamento diferente do passado, muito mais inovador, muito mais consciente do papel da inovação nas suas atividades e até atividades inovadoras que ainda nem existem aqui no Rio Grande do Norte, como, por exemplo, a produção de energia no ambiente offshore, que é o ambiente marinho. É levar os aerogeradores para a produção dessa energia para o meio do mar.

A inovação costuma ser associada às grandes empresas, mas boa parte da economia potiguar é formada por pequenos e médios negócios. Como levar tecnologia e modernização para esses grupos?
Primeiro, nós temos que desmistificar a inovação. Inovação está em um trinco de uma porta que você mudou o modelo. Inovação está numa cadeira que você botou um comando que ela pode ajustar o assento ao tamanho da pessoa que está usando. Inovação está numa nova forma de fazer com que um avião decole. Tem inovações muito simples e inovações muito complexas. Aí o nome inovação, a gente sempre associa a algo muito complexo, disruptivo, e nem nota pequenas inovações da nossa vida pessoal. Então, buscando desmistificar isso, é importante que a gente substitua a perspectiva de que a inovação está ligada a grandes empresas, para começar a discutir que inovação está ligado a grandes cadeias profissionais competitivas, eficientes. A inovação busca gerar eficiência, eficácia e melhoria na qualidade de vida das pessoas. Enfim, inovação não é uma característica das grandes empresas. Existem muitas grandes empresas de baixo nível de inovação implantado em seu processo e existem pequenas empresas de um nível, de uma maturidade especial quanto ao raciocínio e a inovação. O Rio Grande do Norte é formado, o Brasil todo, por mais de quase 90% de micro e pequenas empresas, em alguns estados mais de 90% de micro e pequenas empresas. Isso em nada tira o mérito da intervenção da inovação.

O Mundo SENAI apresentou experiências que aproximam o público de tecnologia e processos industriais. Qual a importância de iniciativas como esta para despertar o interesse dos jovens pela indústria e mostrar oportunidades de formação e carreira?
Essa é uma estratégia que o Senai usa no Brasil. A gente para durante um dia em todo Senai do Brasil para conversar com a sociedade, apresentar o que fazemos, como fazemos, trazer a sociedade para enxergar o que um profissional faz em diversas atividades no ambiente industrial. Este é um momento que nós passamos o dia todo de portas abertas, trazendo as pessoas para conhecer os nossos laboratórios, as tecnologias usadas aqui. Passamos o dia aberto, conversando com a sociedade, tirando dúvidas, gerando dúvidas, matando curiosidades, num ambiente de relacionamento que certamente aproxima cada dia mais o Senai da sociedade e a sociedade do Senai.

QUEM

Rodrigo Mello é diretor do Senai-RN, da Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais (Faeti) da instituição e do Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER). Ele é engenheiro agrônomo e especialista em engenharia da produção, com foco na área de gestão.

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