Gazeta do Povo
07/11/2026 21:32

Mercado prevê estagflação em 2027 e cenário parecido com o da era Dilma

Grandes bancos, corretoras e consultorias revisaram suas projeções e passaram a trabalhar com um cenário de crescimento baixo e inflação elevada, com risco de recessão, para a economia brasileira em 2027.

As estimativas remetem à 2014, quando a deterioração econômica do governo Dilma Rousseff provocou a queda do PIB brasileiro por dois anos consecutivos — 2015 e 2016 — na pior recessão do país desde a redemocratização.

O alerta mais drástico foi dado pelo Itaú BBA na semana passada. O banco elevou de 4,6% para 6,1% a estimativa de inflação para 2027, enquanto reduziu de 1,2% para apenas 0,5% a previsão de crescimento do PIB.

A inflação projetada ficou 1,6 ponto percentual acima do teto da meta, de 4,5%. Já o crescimento esperado representa menos de um quarto da expansão de 2,3% registrada em 2025.

O banco também abandonou a expectativa de redução dos juros. Em vez de encerrar 2027 com a Selic em 12,5%, passou a projetar a taxa em 13,75% durante todo o ano.

A revisão reflete, segundo o Itaú, a combinação de maior pressão inflacionária, endividamento elevado das famílias e empresas e incertezas sobre a trajetória das contas públicas.

Também incorpora os efeitos potenciais da reforma tributária, das mudanças na jornada de trabalho e de alterações nos tributos e subsídios sobre combustíveis, que ainda seguem dependentes do cenário externo.

Piora das expectativas se intensificou após a eleição

Outras instituições já vinham apontando a perda de fôlego da economia. Em 13 de outubro, o ASA reduziu de 1,5% para 1% sua projeção de crescimento do PIB em 2027 e manteve a estimativa de Selic em 12% no fim do ano. Depois da vitória do presidente Lula (PT), porém, a piora das projeções ganhou força.

Levantamento da corretora BGC Liquidez divulgado em 31 de outubro mostrou que a expectativa mediana de inflação para 2027 havia subido para 5,3%. Além disso, 11% dos participantes projetavam uma alta superior a 6%. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) também revisou seus números: elevou a previsão do IPCA de 2027 de 4,3% para 4,9% e reduziu a de crescimento do PIB de 1,34% para 1%.

Outro sinal que corrobora a piora no cenário veio na quarta-feira (4), com a interrupção do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75% ao ano, encerrando a sequência de cinco reduções consecutivas iniciada em março.

Em comunicado, o colegiado não indicou quando poderá retomar os cortes e destacou a combinação de expectativas de inflação mais elevadas e desaceleração mais acentuada da atividade econômica.

As projeções do Copom para a inflação de 2026 passaram de 5,2% para 5,6%, e as de 2027, de 3,9% para 4,7%. Ambas ficam acima do teto da meta (4,5%), sendo que o centro é  de 3%.

Cenário de estagflação remete à Dilma 2

O cenário não é de todo desconhecido dos brasileiros. Na virada para o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), em janeiro de 2015, o país já tinha inflação de 6,41%, crescimento do PIB de apenas 0,5% em 2014 e Selic de 11,75% ao ano. Os indicadores guardam semelhanças com o cenário atual, mas há diferenças importantes, segundo Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria.

Na avaliação dele, os desequilíbrios que antecederam a recessão de 2015 e 2016 tinham uma origem diferente. O país vinha de anos de forte intervenção estatal na economia, com crédito subsidiado e financiamento público.

“Você veio de vários anos de políticas extremamente voluntaristas e ultra intervencionistas naquela época, especialmente desde a crise global de 2008 [desencadeada pelo colapso do mercado imobiliário americano]. Era uma economia muito dependente do BNDES e de empresas estatais”, afirma.

Agora, embora o intervencionismo tenha sido menos intenso, a situação é mais delicada. “Essa desaceleração já está contratada para o ano que vem”, diz o economista da Tendências, que projeta um crescimento de apenas 0,7% do PIB para 2027.

“Nós temos uma situação fiscal pior, a dívida está mais alta do governo e os juros também estão mais altos”, diz. Há ainda um componente que, para ele, amplia a vulnerabilidade do cenário atual: o endividamento privado.

“Já deixou de ser só um problema de dívidas públicas. Também temos uma preocupação grande com as dívidas das empresas e famílias, ambas muito endividadas e sujeitas a taxas de juros muito altas.”

João Mário de França, economista do FGV-Ibre, também cita o endividamento e admite “um cenário para 2027 de fato preocupante”. “O modelo de crescimento adotado no Lula 3, baseado em impulsos fiscais, claramente mostra sinais de esgotamento”, diz.

“O aumento da renda obtido nos últimos anos tem se convertido cada vez menos em consumo, porque as famílias precisam destinar a maior parte dos recursos ao pagamento de dívidas.”

Para ele, um processo de estagflação só será barrado por “um ajuste crível para diminuir a incerteza fiscal que vem contaminando os mercados e possibilitar alguma margem de manobra ao BC para reduzir os juros”.

Governo não sinaliza ajuste

Um ajuste fiscal “crível” também é apontado como saída pelo relatório de revisão de cenário do Itaú. Diante das incertezas sobre a trajetória da dívida pública, o banco estima que seria necessário um ajuste relevante, da ordem de 4 pontos percentuais do PIB, concentrado no controle das despesas.

A dívida bruta cresceu 11,2 pontos percentuais do PIB no atual governo e chegou a 82,9% do PIB em setembro de 2026, segundo o BC.

Enquanto o presidente Lula não sinaliza mudanças na condução das políticas fiscal e monetária, o mercado financeiro precifica as incertezas por meio da queda das ações na Bolsa, da alta do dólar e da abertura dos juros futuros.

Entre o último pregão antes do segundo turno (23 de outubro) e 4 de novembro, o Ibovespa acumulou queda de aproximadamente 18,5%, perdendo cerca de 38,1 mil pontos. No mesmo período, o dólar subiu 8,7%, de R$ 5,04 para R$ 5,48.

A reação do mercado não foi acompanhada de uma sinalização de mudança por parte do Planalto no período após a reeleição. O debate econômico foi marcado por declarações controversas de integrantes da base aliada e por ruídos em torno de medidas heterodoxas, como a possibilidade de tabelamento dos juros.

A hipótese foi afastada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, mas recebeu apoio de integrantes do PT. A indefinição sobre quem comandará a equipe econômica no próximo mandato também alimenta a apreensão dos investidores.

“O governo não tem dado uma demonstração clara de que vê esse cenário como grave a ponto de exigir uma mudança substancial na forma de conduzir a economia e principalmente a questão fiscal”, afirma Silvio Campos Neto.

Na avaliação do economista, o governo não dá sinais de que pretende alterar a trajetória de crescimento das despesas obrigatórias, que comprometem 94% do Orçamento da União.

“A estratégia parece ser manter a linha dos últimos anos, com contingenciamentos, bloqueios orçamentários e medidas pontuais, além de recorrer a exceções para cumprir formalmente as metas fiscais”, diz.

Entre as alternativas aventadas por aliados estão a racionalização de programas sociais e mudanças relacionadas às emendas parlamentares, como a inclusão de despesas já previstas nessas emendas para liberar espaço no Orçamento.

Para Silvio Campos Neto, porém, essas medidas não enfrentam o problema estrutural. “Eventualmente o governo entende que isso é suficiente para resolver o problema fiscal e não é”, afirma. “O nosso foco deveria ser a dinâmica das despesas, porque é onde realmente está o nosso problema.”

O receio dos investidores é que a resistência a um ajuste estrutural abra espaço para soluções heterodoxas, agravando a desconfiança. No cenário mais adverso, segundo Campos Neto, a deterioração da confiança poderia levar o dólar a patamares próximos ou superiores a R$ 6, pressionar ainda mais a inflação e os juros e empurrar a economia para uma recessão semelhante à de 2015 e 2016.

Lula e equipe debatem cenário econômico, mas não apresentam medidas fiscais

Na quinta-feira (5), diante da pressão do mercado, Lula se reuniu com o ministro da Fazenda, Dario Durigan; os ex-ministros Fernando Haddad e Guido Mantega; o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; o ministro do Planejamento, Bruno Moretti; e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

O encontro visou discutir a política econômica. Após a reunião, contudo, Durigan afirmou que não foram discutidas medidas fiscais. Segundo ele, a equipe apresentará um levantamento sobre o cenário econômico a Lula na volta de sua viagem à Cop31, na Turquia, na próxima semana.

Além da reunião, é esperado que Lula faça um pronunciamento no domingo (8). Segundo o Estadão, o presidente deve anunciar o compromisso em cumprir as metas fiscais, além de reforçar a manutenção das promessas de campanha.

Também na quinta-feira (5), o presidente defendeu a necessidade de estabilidade econômica para atrair investimentos privados e estrangeiros para o país. A fala ocorreu durante a primeira reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.

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