ESPORTES Conheça as baianas que podem jogar a Copa do Mundo de 2027 pelo Brasil
O mundo inteiro olha para o Brasil quando o assunto é futebol. Nem sempre, no entanto, outros países e o próprio povo brasileiro olham para o Nordeste, para a Bahia - mas é justamente de lá que vêm talentos preciosos para a Seleção Brasileira do passado, presente e futuro.
No início, veio Sisleide do Amor Lima, a eterna Sissi. Primeira grande camisa 10 da Seleção Brasileira, agigantando o número que um dia pertenceria a Marta, Sissi nasceu em Esplanada, na Bahia, e se tornou uma das principais referências de uma geração pioneira que derrubou preconceitos regionais e de gênero rumo ao futuro, hoje presente, do futebol feminino brasileiro.
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Baiana, ela foi uma das guerreiras que superaram a época em que o futebol era proibido para as mulheres no Brasil, por um decreto que durou até 1979. Durante esse período, jogou futebol na rua com os meninos, enquanto se preparava para ser tudo aquilo que um dia seria.
Um talento como o dela só precisava, assim, de oportunidade. E ela chegou com a liberação. Em 1999, Sissi foi a artilheira da Copa do Mundo, dividindo o posto com a chinesa Sun Wen, com sete gols cada.

Naquela época, conduziu o Brasil à medalha de bronze e foi eleita a segunda melhor jogadora do mundo pela FIFA. Depois, representou o Brasil nas primeiras edições em que o futebol feminino esteve nas Olimpíadas, em Atlanta 1996 e Sydney 2000.
Por clubes, brilhou no Bahia, no São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Vasco. Se tornou, aos poucos, uma das maiores jogadoras da história do país. Sissi abriu o caminho, e outras brasileiras o seguiram.

Uma delas é Elaine, nascida em Salvador em 1982, e dona de uma das maiores carreiras de uma baiana na história do futebol feminino, tão feito de tradição. Polivalente, Elaine atuava tanto na defesa quanto no meio-campo, ficando conhecida por jogar ao lado de Marta no futebol sueco, mas sendo muito além de uma companheira.
Ao longo dos anos passados dentro das quatro linhas, Elaine conquistou uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos em 2003 e 2007, foi vice-campeã mundial na Copa do Mundo de 2007 e pentacampeã do Campeonato Sueco (Damallsvenskan) jogando pelo Umeå IK e Tyresö FF.
Hoje, se tornou sueca e trabalha na comissão técnica e transição de equipes, tendo atuado como auxiliar em clubes como o Djurgården e como treinadora de categorias de base.

Nascida antes, mas em campo até muito tempo depois, se aposentando apenas aos 44 anos de idade, outra baiana veio para lembrar o tamanho do talento que mora na Bahia - Formiga.
Miraildes Maciel Mota nasceu em Salvador, capital baiana, e se tornou a única pessoa no planeta, entre homens e mulheres, a disputar sete edições da Copa do Mundo, estando em campo de 1995 a 2019.

Também é ela a única atleta de futebol a participar de sete edições dos Jogos Olímpicos, de Atlanta 1996 a Tóquio 2020. Formiga é a futebolista com o maior número de partidas com a camisa da Seleção Brasileira, masculina ou feminina, acumulando 234 jogos oficiais.
Os recordes, cada vez mais, se amontoaram. É ela a jogadora mais velha a entrar em campo e a marcar um gol na história das Copas do Mundo Femininas, juntando marcas históricas a uma prateleira gigantesca de títulos.

Formiga é dona de duas pratas olímpicas, em Atenas 2004 e Pequim 2008, um vice na Copa do Mundo de 2007, três ouros em Jogos Pan-Americanos em 2003, 2007 e 2015, e seis títulos da Copa América.
Por clubes, fez história no São Paulo, São José, onde conquistou a Libertadores Feminina, e no Paris Saint-Germain, na França, onde também foi capitã do elenco. De Sissis a Formigas, a Bahia sempre foi central no futebol feminino mundial - e com a Copa do Mundo chegando ao Brasil em 2027, não poderia ser diferente.

Da Bahia para o Brasil e o mundo
Antes de sonhar com uma Copa do Mundo, Yanne chegou a pensar em parar de jogar futebol. No final de 2019, com o terceiro ano do ensino médio pela frente, a futura goleira da Seleção Brasileira se preparava para trocar os treinos por uma rotina integral de estudos, pensando em cursar medicina. Foi a insistência de outras meninas, que enxergaram nela uma possibilidade que a própria adolescente ainda não via com clareza, que a levou a tentar mais uma vez.

Em Cipó, anos antes, Rafaelle também cresceu sem saber até onde a bola poderia levá-la. Jogava futsal, dividia as brincadeiras de rua com os meninos e não encontrava na cidade uma equipe de futebol de campo que tornasse evidente a possibilidade de viver do esporte.
Por isso, saiu do interior, estudou, se formou em Engenharia Civil e construiu uma carreira que atravessou continentes. Agora, enquanto Yanne busca o primeiro Mundial, a zagueira tem a possibilidade de disputar o terceiro.

Ao lado delas, outras duas estrelas brilham vindo da Bahia. Uma delas leva o estado até no nome - Raíssa Bahia, lateral-esquerda do Palmeiras que começou também jogando com os meninos em Jacobina e se tornou uma das principais futebolistas do país.

Além dela, Tâmara Bolt, soteropolitana que passou pelo Bahia, se profissionalizou no Internacional e encontrou no futebol dos Estados Unidos uma nova etapa da carreira, construindo sua carreira longe de casa, mas perto de Rafaelle, representando um pedacinho da Bahia mundo afora.

Enquanto o país inteiro se prepara para receber a Copa do Mundo de 2027, as quatro se tornaram figurinhas no grande álbum das convocações de Arthur Elias, dando um gostinho do que pode ter de baianidade na lista definitiva.
Com 32 seleções, 64 partidas e oito cidades-sede, entre elas Salvador, levando seis jogos da fase de grupos e um das oitavas de final à Fonte Nova, a Copa chega ao território brasileiro dando à Canarinha a missão de conquistar o mundo pela primeira vez - e a Bahia promete estar lá.
Yanne: gol protegido pelo destino
Em uma realidade tão sofrida quanto a do futebol feminino, é preciso que o destino, como quem sabe de todas as coisas, dê um empurrãozinho para que talentos irrecusáveis não se percam pelo caminho. Um deles estava crescendo em Conceição do Coité, na Bahia, antes de ganhar o mundo vestindo amarelo.
O futebol quase ficou para trás quando Yanne ainda tentava entender se poderia transformá-lo em profissão. A decisão de priorizar os estudos parecia encaminhada. Em 2020, estudaria de manhã e à tarde, e pretendia abandonar até os "babas", como se diz em bom baianês.
No fim de 2019, no entanto, as companheiras souberam de uma peneira e insistiram para que ela participasse. Yanne foi sem grandes pretensões, e aquilo que ainda tratava como uma brincadeira começou, aos poucos, a ocupar outro lugar.

A mudança de perspectiva veio durante a pandemia, quando encontrou uma maneira de conciliar escola e treinamentos. Assistia às aulas pela manhã, deixava gravando as atividades que coincidiam com os treinos e retomava os estudos à noite. Nesse período, passou a experimentar com mais intensidade a rotina de uma atleta.
Foi assim que, naquela época, disputou uma partida entre Vitória e Internacional, no Barradão. Apesar da derrota rubro-negra por 3 a 0, Yanne recorda ter feito entre 15 e 20 defesas. Ao fim do jogo, recebeu o cumprimento de um dirigente do adversário.
"Acho que aquele jogo foi o marco para que eu tivesse essa virada de chave na minha mente, que talvez eu pudesse viver do futebol", conta.

Até então, a medicina era o projeto de futuro. A afinidade com a saúde vinha de casa, com familiares que atuavam na área, e a vontade de ajudar outras pessoas se misturava à lembrança do avô, que faleceu após um acidente vascular cerebral.
"Eu gosto muito de ajudar e eu queria ajudar as pessoas de alguma forma. Eu gosto muito da área de saúde", explica. O desejo de fazer diferença permaneceu, mas encontrou outro espaço.
Hoje, aos 23 anos, a goleira tenta impedir gols, sustentar resultados e se tornar uma referência para meninas que também precisam decidir se vale a pena continuar. Quando pensa na menina que foi, "agradeceria por não ter desistido, porque foi muito perto de eu ter parado de jogar. Então, eu agradeceria por ter tentado uma última vez".
Assim, a Bahia ganhou mais uma grande estrela, formada no Vitória e na Ferroviária, onde atuou nas categorias de base e teve contato com a equipe principal. De lá, ganhou o Brasil, e pela Seleção Sub-20, integrou o grupo campeão sul-americano e esteve na Copa do Mundo da categoria em 2022.

Em 2024, chegou ao Bahia, gabaritando os dois grandes clubes baianos, conquistando o Brasileiro A2 e os estaduais de 2024 e 2025, e assumindo um papel central no crescimento das Mulheres de Aço, que agora já são um time de semifinal de Brasileirão.
Entre clubes e torneios, Yanne se encontrou como pessoa e profissional. Antes de defender o gol, jogava na linha, com passagens pela zaga e pelo futsal. A experiência com a bola nos pés, mais tarde, se tornou uma ferramenta para a goleira que precisaria participar da construção das jogadas.
O que a fez permanecer debaixo das traves, por sua vez, foi outra sensação. "Acho que o que eu realmente mais gosto na minha posição é a adrenalina que ela me concede", conta.
A disposição para se jogar na bola ajuda a explicar sua identificação com o gol. A própria Yanne se descreve como uma atleta explosiva, determinada, dedicada e disposta a buscar, a cada partida, uma versão melhor de si mesma - e agora sonha em fazer com que essas características também apareçam com a camisa da Seleção.
Uma convocação construída no Bahia
Como toda pecinha que faz parte do mundo do futebol, Yanne sempre sonhou com a Seleção. Havia muitos anos, no entanto, que nenhuma atleta de um clube nordestino havia sido convocada para defender o país.
Mas se há algo que jogadoras sabem fazer é desafiar o improvável, e Yanne o fez com maestria. Assim, em setembro de 2026, a lista para os amistosos de outubro contra a Argentina tinha um nome em especial - Yanne, Bahia.

Na temporada, Yanne havia se destacado na classificação sobre o Palmeiras que levou o Esquadrão à semifinal inédita do Brasileiro A1, com defesas na disputa de pênaltis que se tornaram parte de uma campanha que ampliou a projeção da goleira e do clube.
Mesmo depois de ouvir seu nome entre as convocadas, a dimensão da conquista demorou a se tornar concreta. "A ficha só caiu que eu tinha sido convocada quando realmente eu pisei os pés lá no hotel, que eu vi toda a estrutura, toda a galera me recepcionando. É muito emocionante poder estar realizando um sonho de criança", conta.

Chegando lá, a goleira conheceu as jogadoras que passou a vida inteira assistindo pela televisão, e conta que se sentiu à vontade para conversar, apresentar opiniões nas reuniões e pedir ajuda. Ao mesmo tempo em que procurava auxiliar as outras atletas, deixava claro que estava aberta às orientações de quem já conhecia aquele ambiente.
Aos poucos, Yanne aprendeu os ajustes que jogar por um país exige. No clube, há mais tempo. Na Seleção, os períodos de concentração são curtos, e o trabalho precisa se concentrar nas necessidades imediatas e nas adversárias.
Para a goleira, houve também uma adaptação ao modelo de jogo. Nem tudo o que executa no Bahia com Felipe Freitas é pedido da mesma maneira por Arthur Elias, e aquela primeira convocação se tornou, portanto, uma oportunidade de aprender o funcionamento da equipe e preparar-se para quando a chance de entrar em campo aparecer.

Mesmo sem jogar naquela Data Fifa, viveu intensamente os dois compromissos. O hino nacional, cantado pela torcida, provocou uma emoção que não conseguiu conter no segundo jogo, e deu a Yanne ainda mais vontade de voltar àquele espaço.
"Que esse peso não se torne uma âncora para a gente, pelo contrário, se torne um motivador para que a gente possa continuar fazendo história", diz.
A goleira da Bahia
A concorrência para chegar à Seleção é gigantesca, claro. E, no caso de Yanne, é maior ainda. No gol, as oportunidades são particularmente restritas, e Yanne sabe que concorre com atletas de alto nível, entre elas Lorena, indicada à Bola de Ouro nesta temporada.
O plano, então, é continuar treinando como sempre, enxergando no Bahia o caminho até todos esses feitos. "O que vai me fazer chegar lá é o meu dia a dia aqui no Bahia, é o que eu faço aqui no Bahia. Então eu busco ser a minha melhor versão aqui no Bahia", conta.

"Espero muito estar na Copa do Mundo 2027, não vai faltar vontade, não vai faltar trabalho, não vai faltar dedicação. Lembro da expectativa em cima do Brasil na Copa de 2014, em casa, e imagino o significado de conseguir o primeiro título mundial feminino do Brasil diante da torcida brasileira", completa.
O sonho de entrar em campo pela Seleção segue vivo. Hoje, Yanne garante que estará disposta a contribuir mesmo que uma eventual convocação não venha acompanhada da titularidade. Mas, se jogar, promete se entregar completamente, lutando pelo maior sonho da vida: "ser campeã da Copa do Mundo".

Raíssa Bahia: as origens no nome
Não existe, no entanto, um caminho único até a Seleção. Enquanto Yanne procura defender o Brasil sem sair do futebol baiano, Raíssa levou o estado para o próprio nome de jogo, ao mesmo tempo que ganhou o Brasil em outros estados.
Nascida em Jacobina, em 27 de agosto de 2003, a lateral-esquerda do Palmeiras começou a jogar aos seis anos, dividindo os espaços com os meninos. A ausência de uma equipe feminina de campo na cidade fazia com que aquele fosse o caminho disponível, e sua trajetória passou pela Associação Desportiva Esporte Clube Caieira, pelo Centro de Formação de Futebol da Bahia e pelo Fluminense de Feira, antes da mudança para o Grêmio.

No clube gaúcho, chegou às categorias de base e avançou até o profissional. Conquistou os campeonatos estaduais de 2022 e 2024 e permaneceu até julho de 2025, quando foi contratada pelo Palmeiras, onde venceu cinco taças em um ano após vir do Grêmio, onde se destacou nas categorias de base e na equipe principal e venceu três torneios.
A passagem pelo Sul deixou também o apelido, que marcaria sua carreira e sua identidade para sempre. Na época, uma companheira começou a chamá-la de "baianinha", e depois, o tratamento foi abreviado para "Bahia".

Mesmo longe de casa, Raíssa passou a carregar Jacobina e a Bahia consigo no nome, até que levou uma Bahia para o Brasil no FIFA Series de abril de 2026. Raíssa participou da campanha do título e marcou na vitória por 6 a 1 sobre a Zâmbia, na Arena Pantanal, em Cuiabá.
Em outubro, voltou à Seleção e iniciou como titular a vitória por 3 a 1 sobre a Argentina, no Beira-Rio. Agora, com experiência e convocações no currículo, o sonho, parece, e é, mais tangível - a Copa do Mundo está logo à frente.

"Estou muito feliz e grata pela oportunidade de ser convocada e continuo focada, trabalhando muito e buscando evoluir a cada dia. Se Deus quiser, vou conquistar o sonho de ser convocada para uma Copa do Mundo", projeta.
O sonho, então, é dela, da Bahia e do Brasil. "Ter uma Copa do Mundo no nosso país pode aumentar ainda mais a visibilidade da modalidade, aproximar o público e ajudar a fortalecer o futebol feminino, principalmente para que as meninas tenham cada vez mais oportunidades", opina.
"Espero que as pessoas passem a olhar com ainda mais carinho para o futebol feminino da Bahia, não apenas durante a Copa, mas também depois", diz.

Tâmara Bolt: primeiro, ser profissional
Salvador, Conceição do Coité, Jacobina, e de volta a Salvador, onde é possível encontrar o comecinho da carreira de Tâmara Paranaguá do Carmo, a Tâmara Bolt. Aos 23 anos, começou a jogar aos sete, entre irmãos, primos e amigos.
Passou por escolinhas onde era a única menina e, antes de pensar em uma Copa, queria alcançar um objetivo mais próximo: tornar-se profissional e ajudar a família.

Assim, começou pelo Bahia, em 2021, que funcionou como uma etapa de formação antes da mudança para o Internacional. No clube gaúcho, encontrou as condições para avançar na carreira e começou a entender, aos poucos, que a Seleção também poderia ser uma possibilidade.
Com o apoio da avó, Edna, e do irmão mais velho do coração, Alan, Tamara deixou a Bahia para ganhar o Brasil e, no Internacional, atuou como atacante e lateral-direita e acumulou mais de 80 partidas desde 2021. O caminho dela, no entanto, transbordaria as fronteiras brasileiras.

Em janeiro de 2025, foi negociada com o Washington Spirit, dos Estados Unidos. A primeira temporada no país foi disputada por empréstimo no Dallas Trinity, antes do retorno ao Washington para 2026, levando a jogadora a se adaptar ao idioma, à rotina e ao futebol de outro país - e deu certo.
Em junho de 2026, o Washington exerceu a opção de manter seu contrato para 2027, e o principal motivo era muito claro. Entre as qualidades da jogadora, destaca-se a velocidade, uma de suas principais características e responsável pelo apelido inspirado no velocista jamaicano Usain Bolt.

Ela, junto à capacidade de ocupar diferentes posições pelo lado do campo, levou o clube a manter o contrato com ela e, mais à frente, a levou à tão sonhada Seleção Brasileira.
Pouco antes da primeira chamada, Tâmara marcou seu primeiro gol na NWSL. Em 20 de setembro, entrou durante a partida e fez, de cabeça, o terceiro da vitória por 3 a 0 sobre o Chicago Stars, após cruzamento de Trinity Rodman. Dias depois, estava entre as escolhidas para os amistosos do Brasil.

A estreia pela Seleção principal aconteceu em 10 de outubro, na vitória sobre a Argentina em Porto Alegre. Raíssa também esteve em campo naquele jogo, que aproximou duas trajetórias baianas do mesmo projeto de Mundial.
Para Rafaelle, que acompanha a conterrânea no futebol dos Estados Unidos, a ascensão de Tâmara confirma que a presença baiana pode crescer quando as oportunidades aparecem, e, hoje, as duas marcam presença e fazem história na liga estadunidense, da qual é justamente uma baiana a pioneira do Brasil.

Rafaelle: pioneira, veterana, baiana
O pioneirismo, como com Sissi e Formiga, cabe a quem chega antes - e nessa geração, fica por conta de Rafaelle. A mais experiente das quatro nasceu em Cipó, em 18 de junho de 1991.
Aos 35 anos, Rafaelle tem uma trajetória de gigante. Carrega duas Copas do Mundo, três participações olímpicas e uma medalha de prata conquistada em Paris. Antes das grandes competições, porém, havia o futsal da cidade, as brincadeiras com os meninos e uma perspectiva de futuro que ainda parecia distante do futebol profissional.
A saída para Salvador esteve ligada aos estudos, quando Rafaelle passou pelo então Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia, o Cefet, e encontrou no São Francisco do Conde uma possibilidade de avançar no futebol. Mais tarde, uma bolsa universitária abriu o caminho para os Estados Unidos, onde se formou em Engenharia Civil pela Universidade do Mississippi.

Filha de uma professora de matemática, Rafaelle encontrou o caminho até a bola por meio dos cálculos e números: "Eu sempre tive a educação do meu lado. Mesmo com o futebol me abrindo os caminhos, eu sempre foquei na educação".
Existia, claro, a angústia que ronda o futebol feminino em saber que talento e esforço nem sempre garantem uma carreira, e Rafaelle sabia disso. "Graças a Deus eu consegui vencer no futebol. Mas eu tenho outra opção se não desse certo", conta.

Os caminhos, no entanto, se abriram para ela, e depois do futebol universitário, foi escolhida pelo Houston Dash no draft de 2014. Foi aí que se tornou pioneira - Rafaelle virou a primeira brasileira selecionada no processo da liga norte-americana, abrindo espaço para tantas outras, como a própria Tâmara.
A carreira da baiana passou ainda pelo América-MG, pelo futebol chinês, pelo Palmeiras e pelo Arsenal, até a chegada ao Orlando Pride, em 2023. Na equipe inglesa, conquistou a Copa da Liga, e no Orlando, participou da temporada de 2024 que terminou com os títulos do NWSL Shield e do campeonato da liga.
Ao olhar para trás, a zagueira se reconhece justamente como alguém que ajudou a abrir caminhos em diferentes mercados. "Eu que vim do interior, sempre foi a minha atividade predileta. Sempre estava brincando na rua com os meninos. Isso me fez seguir jogando, e quebrar muitas barreiras".

O que fazer depois de vencer tudo?
Rafaelle, então, não tem mais nada a provar. Tendo escrito uma carreira ilustre, anunciou em outubro o encerramento sua trajetória na NWSL no final da temporada de 2026, o que não significa uma aposentadoria da Seleção - apenas o início do adeus de uma das maiores jogadoras da geração.
Quando pensa na Copa do Mundo, no entanto, uma coisa é clara. A vontade de estar entre os nomes convocados permanece a mesma de sempre, e o sonho em conquistar o título que falta a ela e ao Brasil ainda é tão gigante quanto sempre foi.
Caso seja convocada, será sua terceira participação, depois dos Mundiais de 2015 e 2023, somados aos Jogos Olímpicos do Rio, de Tóquio e de Paris, além do ouro no Pan-Americano de 2015 e das conquistas continentais de 2018 e 2022.

Agora, como no Rio, Rafaelle experimentaria mais uma vez a sensação de jogar uma grande competição em casa, mas com um "gostinho" adicional. Na Copa, Salvador é uma das sedes, levando à Fonte a mesma torcida que a seguiu na primeira vez que jogou na capital baiana.
A memória remete ao amistoso contra a Jamaica na Fonte Nova, antes dos Jogos de Paris, quando reuniu mais de 300 pessoas entre familiares, amigos e conhecidos.
"É uma sensação que não tem como se explicar. Jogar em Salvador foi especial. Além do mais, tem a torcida baiana que tem essa energia que a gente não encontra em lugar nenhum", diz.

Nascida em Cipó, Rafaelle mantém os vínculos com a cidade onde a mãe e outros familiares continuam morando. Carregar essa origem, para ela, é também uma forma de mostrar às meninas do interior que o caminho existe, mesmo quando exige sair de casa e buscar oportunidades em outra região.
"Eu carrego muito essa bandeira de mostrar que é possível. Que você precisa acreditar", conta.
A Seleção entre a experiência e a renovação
Enquanto as outras estão iniciando seus caminhos na Seleção, então, Rafaelle retorna e termina aos poucos o seu próprio. Depois de enfrentar lesões que a afastaram das convocações, Rafaelle voltou ao grupo para os amistosos contra os Estados Unidos em junho de 2026, e no retorno, encontrou uma Seleção de proposta agressiva e com um modelo diferente do de muitas adversárias.
Na avaliação da defensora, manter essa intensidade ao longo de todo um Mundial será um desafio. "Eu espero que a gente consiga variar um pouquinho e ter um bom desempenho na Seleção com esse modelo de jogo superagressivo", avaliou.

No entanto, a mistura entre atletas experientes e jovens é, para ela, uma das forças do grupo. As mais novas chegam com talento, experiência em clubes de fora do país e energia para cumprir as exigências do sistema. As veteranas, por sua vez, ajudam a acolher e a transmitir o que aprenderam.
"Todo mundo respeita todo mundo na Seleção. Não tem aqueles grupinhos das mais experientes, das mais jovens. Acho que está todo mundo no mesmo barco", conta.
Juntas, todas sonham com a primeira estrela e, ao mesmo tempo, aproveitam o caminho ao lado de conterrâneas. "O talento (baiano) existe e só precisa ser visto e lapidado", afirma Rafaelle.

Talento da Bahia
Assim, como veterana, ela acompanha a chegada das novatas com alegria e identificação. Sobre Yanne, considera a convocação merecida pelo destaque no Bahia e lembra a festa provocada pela primeira chamada. Elogia os jogos de Raíssa no Palmeiras e na Seleção e diz acompanhar Tâmara mais de perto no futebol norte-americano.
A presença de quatro baianas no caminho da Seleção, no entanto, não elimina as dificuldades da modalidade no estado. Nesse sentido, Yanne destaca as condições oferecidas pelo Bahia em preparação física, mental, técnica e tática. Para ela, os resultados são consequência desse trabalho, fazendo com que o feminino do clube deixe de ser um projeto e se torne uma estrutura em funcionamento, uma equipe competitiva e conquistas concretas.
Ao mesmo tempo, cobra apoio maior da federação na organização e no fortalecimento das competições femininas: "A gente acaba enfrentando algumas dificuldades, inclusive dentro do estado, competições femininas, o que muitas vezes dificulta muito essa evolução, que poderia já estar acontecendo há muito tempo".

Ser convocada atuando por um clube baiano tem, para a goleira, um valor próprio. O Bahia não tinha uma atleta na Seleção principal desde a própria Sissi, convocada em 1988. Hoje, Yanne espera honrar essa referência e ajudar a transformar o clube em exemplo para o estado e para o Nordeste.
"Espero que eu possa honrar e ser tão marcante quanto a Sissi foi para a camisa do Brasil. Poder fazer história com o clube nordestino e colocar o Bahia em cada vez mais ascensão é uma sensação única", diz.
Ainda que já tenha conquistado títulos fora do estado, diz que buscar resultados na terra onde nasceu tem uma representatividade diferente, sonhando em ver o clube ganhar espaço no cenário nacional e internacional.
O mesmo caminho atravessou a história de diversas jogadoras, como a própria Rafaelle. Quando começou, o São Francisco do Conde era uma referência, mas a visibilidade era menor e o futebol profissional parecia distante da realidade de muitas meninas. Hoje, as transmissões, os grandes clubes e a presença de jogadoras reconhecidas tornam essa possibilidade mais concreta.

Para ela, antes, sair da Bahia em direção a São Paulo parecia uma necessidade para ganhar projeção. Agora, o estado também recebe jogadoras de outros centros, e uma atleta pode, como Yanne, sair do Bahia diretamente para uma convocação.
O avanço, por outro lado, precisa continuar. Rafaelle cobra investimento no Vitória e defende que os dois grandes clubes baianos fortaleçam a formação. "Eu acho que esses grandes clubes, o Bahia e o Vitória, precisam investir na base. Tem muitas meninas que sonham em ser jogadoras, mas não têm como praticar", diz.
A Copa aparece, nesse contexto, como uma oportunidade de ampliar o alcance da modalidade. Yanne lembra o crescimento percebido depois das edições de 2019 e 2023 e espera que o torneio em casa aproxime a torcida não apenas da Seleção, mas também dos clubes.
Na visão da goleira, esse interesse pode atrair empresas, melhorar premiações, fortalecer competições e criar um crescimento que alcance diferentes setores do esporte. A Fonte Nova será, assim, um dos lugares em que essa aproximação poderá acontecer.
Os sete jogos estão previstos para 25, 27 e 29 de junho e 2, 4, 7 e 12 de julho, com o último válido pelas oitavas de final, e Yanne pede que o público compareça mesmo quando o Brasil não estiver em campo, enxergando na receptividade e na festa baianas uma contribuição para o sucesso do Mundial.

Rafaelle, por sua vez, também espera estádios cheios. A experiência recente nos amistosos contra os Estados Unidos reforçou sua percepção sobre a energia da torcida brasileira, que descreve como diferente daquela que costuma encontrar no futebol norte-americano.
"Você tem uma responsabilidade maior quando você entra num jogo assim", pensa. Para a veterana, apresentar um bom futebol em casa será também uma forma de estimular outras meninas a começar.
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A Copa de 2027 poderá ser a primeira de Yanne, Raíssa e Tâmara ou a terceira de Rafaelle. Antes da convocação definitiva, porém, há algo que já aproxima as quatro: cada trajetória torna mais visível uma possibilidade que nem sempre esteve ao alcance das meninas baianas.
Rafaelle reconhece essa responsabilidade porque também foi uma criança assistindo a Marta. Lembra do Brasil vice-campeão mundial diante da Alemanha e entende que, em 2027, outras meninas estarão diante da televisão ou nas arquibancadas, formando suas próprias referências.
A experiência das veteranas inclui transmitir a história que tornou esse momento possível. Ao falar de Formiga, Sissi, Elaine e outras jogadoras que enfrentaram barreiras, a zagueira associa a realização da Copa no Brasil a uma construção que atravessa gerações.

"A gente tem que levar não só o futebol em si, a qualidade técnica, mas levar um pouquinho da história que a gente carrega", diz. Hoje, se pudesse conversar com a menina de Cipó, diria que haveria dificuldades e dúvidas, mas pediria que não desistisse. "O futebol vai te proporcionar muitos momentos de alegria", afirma.
Para realizar o sonho e levar a Bahia consigo rumo a ele, então, existe uma direção clara, resumida nas palavras de Yanne rumo à primeira estrela: "Eu sei que para ser campeã da Copa do Mundo eu tenho que jogar contra as melhores. E eu estou me preparando para que, quando eu jogar contra as melhores, eu seja a melhor".
E, na Bahia, no Brasil, e quem sabe, no mundo, elas prometem ser.
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