SALVADOR Especial: Caos no trânsito de Salvador expõe desafios para a mobilidade urbana
Engarrafamentos cada vez mais longos, ônibus e vans escolares presos em filas, motoristas de aplicativo contabilizando horas de espera e empresas acumulando prejuízos: o trânsito de Salvador se transformou em um gargalo que trava a rotina da cidade.
Para compreender esse cenário, o grupo A TARDE dá início à série "Trânsito em Salvador: realidade do caos", que em três reportagens vai mostrar como o trânsito impacta a vida da população. Ouvindo quem enfrenta esse drama todos os dias, a série discute se as soluções propostas realmente atacam a raiz do problema ou o desloca para outro ponto.
Tudo sobre Salvador em primeira mão!"Historicamente, nossas cidades foram estruturadas priorizando o transporte individual motorizado, e Salvador não foge dessa realidade. O crescimento urbano, a concentração de atividades econômicas em determinadas áreas, a distribuição desigual dos equipamentos e serviços e a dependência de grandes eixos viários acabam produzindo deslocamentos extensos e sobrecarregando a infraestrutura existente", explica o arquiteto e urbanista Lucas de Lucena Rocha, docente da Wyden.
Além disso, intervenções pontuais, como a ampliação de vias e implantação de novos corredores, "não conseguem resolver isoladamente um problema que é estrutural", ressalta. "É necessário considerar a mobilidade de maneira integrada, articulando transporte público, caminhabilidade, ciclomobilidade, uso e ocupação do solo e distribuição das centralidades urbanas. Uma cidade não pode depender exclusivamente de grandes avenidas para garantir o deslocamento da sua população", explica Lucas de Lucena Rocha.
Entre atrasos, prejuízos e horas perdidas, a cidade busca alternativas para destravar a mobilidade. É nesse cenário que começa a série de matérias, que vai acompanhar de perto os principais gargalos viários que paralisam a capital diariamente, discutir o papel dos viadutos, do BRT e outras intervenções nessa dinâmica e, por fim, apresentar um diagnóstico sobre a mobilidade de Salvador e como é possível enfrentar um trânsito que insiste em parar.
Destravar as vias ainda é um desafio na capital
O caos do trânsito de Salvador expõe diariamente os limites da mobilidade urbana e transforma cada deslocamento em um desafio. Nesta primeira reportagem da série "Trânsito em Salvador: realidade do caos", o A TARDE mostra como o caos afeta o transporte coletivo, escolar e corporativo, ouvindo motoristas, rodoviários e especialistas, e questionando se soluções como o BRT e a abertura de novas vias ajudaram a destravar a cidade.
Motorista de ônibus há 18 anos em Salvador, Florisvaldo Godinho de Jesus Júnior - o Júnior Cabeça - opera atualmente a linha 1637, que sai de Mirantes de Periperi e vai até a Boca do Rio, uma das mais extensas e complexas da cidade. "Os congestionamentos e a falta de fluidez no trânsito afetam diretamente o psicológico do motorista. Quando ficamos presos por muito tempo em um engarrafamento, o estresse aumenta e sobra menos tempo para o básico, como ir ao banheiro, se alimentar direito ou descansar", explica.

O motorista afirma que não há corredores exclusivos para ônibus o suficiente na cidade, nem ordenação nos pontos de ônibus. "Os intervalos entre as paradas são curtos e os horários apertadíssimos, o que gera ainda mais pressão sobre motoristas e cobradores", afirma Júnior Cabeça, apontando que, na prática, "os corredores exclusivos e projetos como o BRT trouxeram melhorias, mas a maioria das linhas rodam em locais sem corredores e sem pontos organizados, o que impacta diretamente na vida do motorista".
Presidente do Sindicato dos Rodoviários de Salvador, Fábio Primo concorda que o BRT foi um acréscimo importante para a mobilidade da cidade. "Mas só é bom quando a gente roda dentro das estações". No dia a dia, a mobilidade ainda é um grande problema em toda a cidade. "A melhor solução seria a abertura de mais vias exclusivas de ônibus e melhorar as frotas. Isso daria condições ao soteropolitano de deixar o carro em casa, pois teria à disposição um transporte de massa rápido e de qualidade", argumenta Fábio primo.
A realidade, aponta o especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG) do Governo Federal, membro do Observatório da Mobilidade de Salvador e do Instituto EquiCidades, Daniel Caribé, é que Salvador está fazendo praticamente tudo ao contrário do que deveria.
"Grande parte dessas obras não resolvem os gargalos e, muitas vezes, acabam estimulando ainda mais o uso do carro. É claro que não é possível eliminar todos os gargalos. Mas podemos reduzir o número de veículos em circulação com um planejamento urbano que aproxime as pessoas de seus locais de trabalho e um sistema de transporte público seguro, acessível e eficiente", afirma Daniel Caribé.
Ele explica que o BRT, por exemplo, tinha potencial. "Mas junto com o ele, a Prefeitura tamponou rios, arrancou árvores, construiu viadutos e duplicou e até triplicou vias, ampliando o espaço destinado aos automóveis, além do corte expressivo de linhas de ônibus, que o próprio Observatório denunciou", explica.
Titular da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), Pablo Souza afirma que, entre os problemas que o BRT queria solucionar, estava o acúmulo de corredores de ônibus - como no terminal de ônibus na antiga rodoviária - e que foi solucionado.
"Além disso, o BRT oferece pré-embarques em ambientes seguros, com ônibus com piso baixo, que garantem acessibilidade para idoso e pessoas com deficiência, e ônibus elétricos que trouxemos para testar a mobilidade sustentável em Salvador. O BRT hoje tem quase 100 mil passageiros por dia útil, o que é um grande movimento. Mas acho importante entender que partes diferentes da cidade precisam de modais diferentes: para uns BRT, para outros o VLT e outros lugares o metrô", argumenta o secretário.
Para a motorista Edna Santana Pereira, do Dinha Transporte Escolar, que atua principalmente na Av. Pinto de Aguiar e seu entorno, corredores exclusivos e BRT não ajudam. "Na minha visão, seria preciso abrir mais vias e melhorar a sinalização. Um maior incentivo ao transporte escolar também faria diferença, já que muitos pais insistem em levar os filhos de carro. Imagine dez crianças indo para a escola, cada uma em um veículo: não é segredo que os horários de entrada e saída geram engarrafamentos enormes em frente às escolas e afetam todo o entorno", reflete.

Esse trânsito travado também tem afetado o setor de transporte privado, afirma o administrador e sócio fundador da WEU - empresa de transporte executivo - Wellington Correia.
"Os congestionamentos já não acontecem apenas nos horários de pico. Qualquer veículo quebrado ou manutenção na via pode travar todo o fluxo. Os atrasos geram desgaste físico e emocional tanto para motoristas quanto para passageiros. Houveram sim muitas melhorias nos últimos anos, mas ainda há muito a avançar, como a presença de agentes de trânsito para organizar o fluxo", pondera.
Quando o problema chega na ponta: depender do trânsito para garantir o 'ganha-pão'
Que o trânsito de Salvador é um tópico sensível para toda a população, é evidente, principalmente para aqueles que precisam atravessar os gargalos viários diariamente para ir ao trabalho ou voltar para casa. Se esse é um problema capaz de causar a irritabilidade do público geral, a situação se agrava quando envolve pessoas que dependem das vias urbanas para garantir o sustento.
Motoristas por aplicativo e taxistas, por exemplo, vivem diariamente o drama de um ciclo que não tem escapatória: precisam continuar trabalhando para ganhar dinheiro, mas os congestionamentos materializam a perda de tempo, que impacta na redução da produtividade, aumentando os custos com combustível e manutenção e, consequentemente, reduzindo a renda.
No caso dos condutores via plataforma, é comum encontrar jornadas que ultrapassam 12h diárias, como é o caso de João Paulo. Ao A TARDE, ele explicou que os desafios que enfrenta, principalmente nas regiões da Calçada, Iguatemi e Avenida Paralela, acabam impactando na escolha das viagens e já deixou de aceitar corridas para determinadas regiões e horários devido às condições do trânsito que, segundo ele, tem piorado.
São muitos carros na rua, tenho que criar atalhos para conseguir superar minhas metas. João Paulo - Motorista
A experiência é semelhante à de Franklin Esquível, que mantém o mesmo ritmo de trabalho nessas regiões e também no subúrbio. Ele estima perder aproximadamente 12h por semana em congestionamentos, o que equivale a um dia inteiro de trabalho.
Meu ganho depende do número de passageiros que consigo transportar. Se perco tempo no trânsito, deixo de ganhar. Franklin Esquível - Motorista
A rotina dos taxistas é semelhante. Atuante em Salvador há anos, Antônio Braz passa entre oito e dez horas por dia ao volante e relata que percursos curtos podem ter o tempo de duração multiplicado nos horários de maior movimento, chegando a quatro horas.
“Trajeto que às vezes a gente faz sem trânsito em 15 minutos, com trânsito, a gente leva de 45 minutos a uma hora”, conta.
Entre os pontos que mais prejudicam sua rotina estão: Avenida Tancredo Neves, Garibaldi, São Cristóvão, Bonocô e trechos da orla entre Ondina e Praia da Paciência.
Apesar das dificuldades, ele reconhece avanços em algumas vias nos últimos anos, como a Magalhães Neto e trechos da orla, mas avalia que os congestionamentos continuam sendo problema em diferentes pontos da capital.

Carros nas ruas pressionam sistema viário
Embora os veículos privados sejam essenciais, a situação gera outro ciclo: o aumento da quantidade de carros contribui na pressão do sistema viário, impactando no congestionamento e gerando prejuízos na rotina dos trabalhadores.
Dados da Superintendência do Trânsito de Salvador (Transalvador), mostram que em 2025, a frota de veículos da capital baiana correspondia a 1.116.907 milhão. À reportagem, a pasta detalhou as vias mais impactadas, considerando o tempo médio de deslocamento em dias úteis, entre 7h e 9h e entre 17h e 19h:
- Av. Paralela: 54,47 minutos
- Av. Octávio Mangabeira: 53,39 minutos
- Av. Afrânio Peixoto: 39,73 minutos
Transporte público poderia resolver
Na avaliação de Lázaro Carvalho, especialista em engenharia de transportes, urbanista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a deficiência do transporte público ajuda a explicar a procura pelo transporte individual.
“Tem bairro em que a frequência é muito baixa de ônibus, a pessoa fica esperando. O que ela vai fazer? Pegar aplicativo. E o transporte por aplicativo provocou o aumento da circulação de veículos na cidade. Tudo isso impacta na mobilidade urbana no sistema viário”, analisa o professor.
Segundo o especialista, além dos coletivos, a gestão municipal pode adotar outras medidas para reduzir a quantidade de carros nas ruas. "Há uma ineficiência da acessibilidade a pé, de bicicleta, que tira alternativas para se deslocar", pontuou.

Intervenções realizadas pela prefeitura
Secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza reconhece que os veículos por aplicativo provocam impactos na rotina do trânsito, mas pondera que a atividade se consolidou como uma importante alternativa de emprego e complementação de renda, além disso, o gestor defende que as intervenções viárias realizadas pela prefeitura estão contribuindo para melhorar a circulação e garantir condições para diferentes categorias que atuam no transporte.
Questionado sobre os pontos de maior retenção no trânsito, ele citou intervenções já realizadas e projetos previstos em corredores que concentram o fluxo de veículos na capital. A região do Iguatemi é uma delas, onde os motoristas relatam dificuldades para circular. O secretário destacou o mergulho da Avenida Magalhães Neto, a duplicação da Ligação Iguatemi-Paralela (LIP) e intervenções na Avenida ACM, incluindo mudanças nos retornos e nos elevados do BRT.
Já no eixo da Paralela e de São Cristóvão, a prefeitura aponta ações relacionadas ao BRS Orla, sistema de transporte coletivo que terá pontos de pré-embarque para facilitar o acesso dos passageiros.
Para a região da Suburbana, o secretário mencionou que mesmo o VLT como uma alternativa de transporte, a BR-324 é como um problema crônico, cuja gestão não está sob responsabilidade municipal. "As pessoas que vem tanto do subúrbio, quanto da região de Cajazeiras, enfrentam um transtorno muito grande no dia a dia. Dependendo da prefeitura, a gente naturalmente vai colaborar", reforça.

Atuais possíveis soluções para mobilidade urbana
No entanto, para outros pontos de retenção grave, como o viaduto Nelson Dahia, que atende motoristas que seguem da Paralela, em direção ao centro e à região da Av. Tancredo Neves, a prefeitura planeja uma nova via para implantar um sistema binário, fazendo a ligação com a Rua da Gratidão e uma ampliação do viaduto.
Na Calçada, Souza destacou a cooperação com o governo estadual para a implantação do VLT no trecho entre o bairro e o Comércio, além da cessão de uma área municipal para viabilizar a chegada do metrô ao Campo Grande. Ele também demonstrou preocupação com os possíveis impactos viários da construção da ponte Salvador-Itaparica.
A próxima matéria da série de reportagens do Especial Mobilidade, que vai ao ar no próximo domingo, 15, destaca os cinco nós viários que paralisam Salvador e os desafios para destravar a mobilidade.
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