Mulheres da Transacreana projetam R$ 800 mil em vendas até 2026
Um movimento silencioso, mas transformador, vem mudando a vida de mulheres que apostam na produção agrícola no quilômetro 36 da Estrada Transacreana, em Rio Branco. Histórias marcadas por madrugadas de trabalho e longas jornadas no campo estão redesenhando a realidade da comunidade e fortalecendo a economia local.
A produtora rural Rozilene Teles afirma que essa transformação tem nome, endereço e, principalmente, gênero. “Nossa cooperativa é formada, em 95%, por mulheres. Somos 30 cooperados e apenas quatro são homens. O restante é tudo mulher”, conta a presidente da Cooperativa dos Agricultores Familiares Árvore Viva (Cooperviva), localizada no quilômetro 36 da Transacreana.
A cooperativa nasceu de uma necessidade urgente. Em 2021, produtores da região forneciam alimentos para a merenda escolar, mas enfrentavam dificuldades para receber pelos produtos devido à suspensão da emissão de notas fiscais. “Foi aí que resolvemos montar a cooperativa”, relembra.
O que começou como uma solução para um problema burocrático rapidamente se transformou em uma ferramenta de autonomia econômica para dezenas de famílias rurais.
Mulheres no comando
Na Cooperviva, a presença feminina vai muito além da maioria numérica. As mulheres estão à frente de praticamente todas as etapas da cadeia produtiva. São elas que coordenam as rotas de entrega, administram as vendas em feiras de bairro e produzem grande parte dos alimentos que abastecem programas governamentais.
“Nossos maiores produtores, nossa maior produção, vêm das mãos das mulheres”, afirma Rozilene. Ela atribui parte do reconhecimento conquistado pela cooperativa ao perfil das associadas. “A mulher é mais responsável, mais dedicada ao que faz. Nossa cooperativa é uma das mais conceituadas exatamente pelo comprometimento, pela responsabilidade e pelo zelo que temos com o nosso trabalho”, diz.

Os resultados aparecem em conquistas concretas. Se antes as produtoras precisavam transportar suas mercadorias em ônibus coletivos até a capital, hoje a maior parte delas possui veículo próprio para realizar as entregas.
“Antigamente, levávamos a produção para vender no Elias Mansour em transporte coletivo. Hoje, cada produtora tem seu carro. Nós mesmas fazemos as entregas”, destaca. Atualmente, a cooperativa atende escolas de toda a rede pública de Rio Branco, fornecendo alimentos por meio de programas de compras institucionais dos governos municipal, estadual e federal.
Quando o atravessador desaparece, a renda fica no campo
Para as agricultoras da Transacreana, a venda direta para programas públicos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), representa independência financeira e melhores condições de comercialização.
“O governo paga um preço justo para a gente. Quando entra o atravessador, aí o negócio já complica”, resume Rozilene. Foi justamente essa renda mais estável que permitiu à cooperativa acumular recursos para o maior projeto de sua história: a construção de uma agroindústria para o beneficiamento de polpas de frutas.
O investimento deve chegar a cerca de R$ 1,5 milhão e está sendo financiado, em grande parte, com recursos gerados pelas próprias vendas da cooperativa.
“Tudo é recurso próprio. É a porcentagem das nossas vendas, das nossas entregas. Estamos investindo na agroindústria porque aqui na comunidade tem muita fruta e não existe um local para beneficiar essa produção”, explica.
O sonho nasceu dos freezers lotados
Atualmente, a produção de polpas acontece de forma artesanal. Sem uma agroindústria certificada e com selo sanitário, as produtoras processam as frutas em casa e comercializam os produtos principalmente nas feiras de bairro.
A presidente da cooperativa calcula que utiliza sozinha cinco freezers para armazenar a produção ao longo do ano. “Eu fico armazenando minhas polpas e outras mulheres também fazem a mesma coisa. A agroindústria vai ajudar não só nós, mas todo mundo que trabalha com frutas aqui na Transacreana”.

A expectativa é concluir a estrutura física até meados de 2027. Depois disso, será necessário investir em equipamentos, câmaras frias e adequações para obtenção das certificações sanitárias.
Se tudo ocorrer conforme o planejado, a agroindústria deverá entrar em operação entre o fim de 2027 e o início de 2028. A meta é fornecer polpas de frutas para a merenda escolar, agregando valor à produção local e reduzindo o desperdício.
“Tem muita gente por aqui que perde fruta, principalmente cupuaçu, porque não tem como armazenar. Com essa agroindústria, vamos conseguir aproveitar essa produção e gerar mais renda para toda a região”, afirma.
Crescer para que nenhuma mulher dependa de ninguém
Embora os números impressionem, Rozilene insiste que a maior conquista da cooperativa não está no faturamento, que deve alcançar cerca de R$ 800 mil em 2026, nem nos futuros equipamentos industriais.
Para ela, o mais importante é garantir independência financeira às mulheres da comunidade.
“A minha maior motivação é que cada uma delas tenha sua renda, tenha seu trabalho e não precise depender de ninguém”, diz.

Em seu relato, desenvolvimento econômico, maternidade e os desafios da vida rural se entrelaçam. “Aqui a gente não tem creche. Se a mulher vai para a feira de madrugada, tem que levar os filhos juntos. Tem mãe que sai às duas horas da manhã, no inverno, levando duas crianças para a beira da estrada”, relata.
Boa parte das cooperadas é formada por mães solo. São elas que plantam, colhem, embalam, transportam e comercializam a produção. Também enfrentam ramais alagados, longas jornadas de trabalho e a responsabilidade de administrar o orçamento familiar.
São essas mesmas mulheres que impulsionam o crescimento da cooperativa. Por isso, quando fala sobre o futuro, Rozilene não esconde o desejo de ampliar ainda mais o protagonismo feminino na organização. “Nosso sonho era transformar a cooperativa em uma cooperativa só de mulheres. A gente viu que deu muito certo trabalhar com elas. Como já temos alguns homens, não podemos excluir ninguém. Mas, para o futuro, temos essa pretensão”.
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