O que se sabe sobre a onda de falsas ameaças de bomba na Europa
Dezenas de voos e vários veículos de imprensa por toda a Europa foram afetados, na última semana, por uma série de falsas ameaças de bomba, que prejudicaram planos de viagem e levaram as autoridades a uma corrida para identificar os responsáveis.
Novos transtornos atingiram diversos aeroportos e voos europeus na sexta-feira (6); ao mesmo tempo, funcionários da emissora pública irlandesa RTÉ tiveram que deixar suas instalações após também receberem uma ameaça de bomba. Outros veículos de comunicação, incluindo a britânica Sky, relataram ter recebido ameaças semelhantes.
Essa sequência de incidentes ocorre em um momento em que a Europa enfrenta um número crescente de ataques híbridos — alguns dos quais as autoridades atribuíram à Rússia, embora ainda não esteja claro quem, exatamente, está por trás desta nova onda de ameaças.
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Confira o que se sabe até agora.
Quem foi alvo?
Inicialmente, as ameaças tiveram como alvo aeroportos e companhias aéreas. Na sexta-feira, a polícia da Dinamarca e da República Tcheca informou que novas ameaças foram direcionadas ao tráfego aéreo nos aeroportos de Copenhague e Praga, respectivamente. Já o ministro da Defesa da Hungria relatou que caças escoltaram três aeronaves no espaço aéreo do país, na manhã de sexta-feira, após o recebimento de “alertas”.
Um voo da KLM, que seguia de Praga para Amsterdã, também passou por uma busca após o pouso, mas nenhum explosivo foi encontrado a bordo, informaram autoridades holandesas à emissora pública NOS. Tudo isso aconteceu depois que, na quinta-feira (5), pelo menos 14 voos foram afetados por ameaças do mesmo tipo.
Mais tarde, no dia seguinte, surgiram também ameaças contra veículos de imprensa, principalmente na Irlanda. Um repórter da RTÉ leu trechos de um e-mail recebido pela emissora, no qual o autor afirmava planejar ataques a “aviões, navios de cruzeiro, estações de metrô e trens” na Europa.
“Queremos que o mundo inteiro saiba quem somos; por isso, um de nossos agentes colocou um artefato explosivo em seu prédio”, dizia o e-mail, segundo a agência PA Media. “Ele explodirá em 45 minutos; o tempo está correndo.”
Como as ameaças foram feitas?
Não há total clareza, embora autoridades tchecas e italianas afirmem que elas foram enviadas por e-mail.
Um representante do Aeroporto Václav Havel, em Praga, informou à CNN que as ameaças — referentes à presença de explosivos em quatro voos — foram feitas por meio de um e-mail anônimo. Um porta-voz da polícia tcheca informou à CNN que o e-mail foi enviado ao aeroporto, acrescentando que mensagens semelhantes foram encaminhadas a outras pontes aéreas na Europa.
As ameaças a aeronaves na Itália chegaram por meio de um e-mail enviado por um grupo antifeminista, autodenominado “The Male State” (“O Estado Masculino”), a uma empresa de logística que presta serviços ao Aeroporto de Roma-Fiumicino.
O e-mail, divulgado inicialmente pela SkyTG24 — emissora afiliada à CNN —, alegava falsamente que “artefatos explosivos” haviam sido colocados em dois voos: um vindo de Helsinque e outro de Dublin. Um porta-voz do local confirmou à CNN que a captura de tela era autêntica.
O Centro Internacional para o Contraterrorismo, um think tank sediado nos Países Baixos, afirmou que o “The Male State” surgiu na Rússia, em 2016, como um movimento misógino, passando, mais tarde, a defender abertamente a guerra na Ucrânia. Em 2021, um tribunal russo proibiu o grupo e o classificou como uma organização extremista.
Todos os aeroportos europeus planejam e realizam treinamentos para lidar com incidentes desse tipo. Em entrevista à CNN, Keith Jeffries, ex-diretor de segurança federal no LAX, Aeroporto de Los Angeles, explicou que todos os aeroportos “possuem planos de gestão para ameaças de bomba e realizam treinamentos baseados nesses planos”, o que lhes permite tomar decisões em questão de segundos.
Em suma, nenhuma autoridade de aviação jamais ignoraria uma ameaça de bomba, ressaltou Jeffries.
Quem estava por trás disso?
Até o momento, ainda não está claro quem exatamente esteve por trás das ameaças. Nenhum grupo ou Estado foi identificado por qualquer país europeu até agora. A União Europeia declarou que ainda é cedo para determinar se os incidentes estão relacionados entre si.
Analistas de segurança e ministros de governo sugeriram que o episódio poderia fazer parte de uma campanha híbrida mais ampla ou de uma série de trotes maliciosos.
Eric Schouten, chefe do grupo de segurança na aviação Dyami, sugeriu que a responsabilidade poderia ser de sabotadores que atuam em nome do Estado russo.
“Desde ferrovias até a infraestrutura alimentar — como vimos ocorrer com a invasão de sistemas de refrigeração — e diversos outros tipos de operações, tudo isso se encaixa na narrativa de atores estatais russos que buscam desestabilizar a Europa”, afirmou Schouten, segundo a agência Reuters. Ele também ressaltou que muitos dos países afetados apoiaram a Ucrânia em sua guerra contra a Rússia.
O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha também fez referência à invasão da Ucrânia pela Rússia, afirmando que a segurança da Europa está “sendo testada muito além da linha de frente ucraniana”. O ministério citou, como exemplos dessas ameaças, os alertas de bomba, os ataques cibernéticos a sistemas de refrigeração de supermercados e a incursão de drones no espaço aéreo de alguns países europeus.
Da mesma forma, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, declarou que “a suposição mais razoável é a de que estamos diante de uma tentativa de agressão híbrida e de uma forma de guerra psicológica”.
A ministra dos Transportes do Reino Unido, Heidi Alexander, por sua vez, descreveu as ameaças como um “trote malicioso”.
As autoridades, contudo, evitaram apontar um culpado específico. A autoridade irlandesa Simon Harris declarou à rádio Cork 96FM: “ainda não sabemos se há um indivíduo por trás dessa ação” — que teve como alvo veículos de imprensa do país — “ou se isso faz parte de um esforço coordenado”.
Qual tem sido o impacto?
De modo geral, o impacto tem sido relativamente contido. Até o momento, todas as ameaças mostraram-se falsas; as autoridades envolvidas informaram que nenhum artefato explosivo foi encontrado.
As ameaças, naturalmente, causaram transtornos aos viajantes. Na quinta-feira, passageiros e tripulações de pelo menos 14 aeronaves foram afetados — incluindo um voo da Aer Lingus com destino a Roma, que precisou ser desviado para a França, e dois voos vindos da Espanha e da Dinamarca, que tiveram de ser desviados para Sófia, a capital da Bulgária. O episódio ocorre após pelo menos sete aviões terem sido redirecionados na terça-feira (3).
Analistas alertam que as ameaças podem ter como objetivo tanto causar transtornos quanto observar a resposta das companhias aéreas e das autoridades.
“Essas ameaças à aviação ocorrem, inclusive, no mesmo período em que são registrados ataques cibernéticos a sistemas de refrigeração de supermercados por toda a Europa”, afirmou à Reuters Eliran Almog, CEO da Cyviation, empresa especializada em cibersegurança na aviação.
“Diferentes serviços essenciais estão sofrendo interrupções que acarretam custos econômicos e podem abalar a confiança do público.”
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