A Crítica
08/11/2026 09:30

Saúde Uro-oncologista destaca a importância da prevenção para saúde dos homens

O Novembro Azul, campanha de conscientização sobre a saúde masculina, amplia em 2026 o debate sobre a importância do cuidado integral. Embora a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de próstata continuem fundamentais, outras condições, como doenças cardiovasculares, diabetes, alterações hormonais e problemas urológicos, também exigem atenção. Para o médico uro-oncologista e andrologista Cristiano Silveira Paiva, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), o desafio é mudar a relação dos homens com a própria saúde e incentivar o acompanhamento antes do surgimento de doenças.

“Durante décadas, o Novembro Azul foi associado quase exclusivamente à prevenção do câncer de próstata. Embora esse tema continue fundamental, a saúde masculina exige uma visão mais ampla”, afirma o especialista. Segundo ele, uma avaliação completa permite identificar problemas que podem comprometer silenciosamente a qualidade de vida e a longevidade.

Entre as condições que merecem atenção estão hipertensão arterial, diabetes tipo 2, alterações do colesterol, obesidade visceral, doença renal crônica e doenças cardiovasculares. O médico também destaca os distúrbios do sono, a saúde mental, as alterações hormonais e doenças urológicas, como hiperplasia prostática benigna, disfunções miccionais e cálculos urinários, comuns na região.

“O cansaço persistente não deve ser atribuído automaticamente à idade ou à queda da testosterona. Pode estar relacionado a sono insuficiente ou apneia obstrutiva do sono, anemia, depressão, doenças metabólicas, cardiovasculares ou alterações hormonais”, explica Paiva. Para ele, a investigação deve partir de uma boa história clínica e de exames direcionados, evitando diagnósticos e tratamentos precipitados.

As alterações urinárias também precisam ser observadas. Mudanças no jato urinário, aumento da frequência das micções, urgência, necessidade de levantar durante a noite, ardor ao urinar e presença de sangue na urina são sinais que devem motivar uma avaliação. O especialista ressalta, no entanto, que esses sintomas não indicam necessariamente câncer de próstata, pois podem decorrer de condições benignas, infecções ou outras doenças.

“É importante esclarecer que sintomas urinários não significam, necessariamente, câncer de próstata. Já a hematúria, mesmo sem dor, merece investigação adequada”, alerta.

Na saúde sexual, a redução persistente da libido e as dificuldades de ereção também merecem atenção. Segundo o médico, a disfunção erétil pode ser um sinal precoce de comprometimento vascular, além de envolver fatores psicológicos, medicamentosos e hormonais.

“A disfunção erétil pode ser um marcador precoce de comprometimento vascular”, afirma Paiva. O especialista acrescenta que estudos atuais sugerem que a disfunção sexual masculina pode anteceder de três a cinco anos um infarto agudo do miocárdio. A avaliação da testosterona, por sua vez, é indicada quando existem sinais e sintomas compatíveis com deficiência hormonal.

Prevenção cardiovascular e renal

O cuidado com a saúde masculina também passa pelo acompanhamento cardiovascular e renal. Pressão arterial elevada, glicemia alterada e colesterol alto podem permanecer sem sintomas durante anos, provocando danos progressivos ao coração, cérebro, rins e vasos sanguíneos.

“O primeiro passo é conhecer os próprios fatores de risco”, orienta o médico. A consulta preventiva deve considerar pressão arterial, peso, circunferência abdominal, histórico familiar, tabagismo, atividade física e hábitos alimentares.

Conforme a idade e o perfil de risco, a avaliação pode incluir perfil lipídico, glicemia de jejum ou hemoglobina glicada. Para analisar a função renal, são utilizados principalmente a creatinina e o cálculo da taxa de filtração glomerular. A relação albumina/creatinina urinária também pode ser importante, especialmente para pessoas com diabetes, hipertensão ou risco de doença renal.

“Não existe um painel único de exames obrigatório para todos os homens: a indicação precisa ser individualizada”, destaca Paiva. Ele também reforça que a prevenção não depende apenas da realização de exames, mas do acompanhamento dos resultados e do estabelecimento de metas para cada paciente.

Entre as medidas recomendadas estão a prática regular de atividades físicas, alimentação equilibrada, redução de ultraprocessados e do excesso de sal, controle do peso, sono adequado e abandono do tabagismo. O treinamento de força, associado ao exercício aeróbico, também contribui para preservar a massa muscular e a saúde metabólica durante o envelhecimento.

Rastreamento do câncer de próstata

Na prevenção do câncer de próstata, o especialista explica que a realização de exames deve considerar o histórico e os fatores de risco de cada homem. A avaliação com PSA pode ser discutida a partir dos 50 anos para aqueles com risco habitual e entre 40 e 45 anos para pessoas com maior predisposição, como homens negros, indivíduos com histórico familiar importante ou alterações genéticas hereditárias conhecidas.

“Rastreamento não é sinônimo de realizar todos os exames disponíveis de forma aleatória. É uma decisão que deve considerar a probabilidade de benefício, os possíveis danos, a expectativa de vida e as preferências do paciente”, afirma.

O médico ressalta que o PSA não confirma isoladamente a presença de câncer, já que alterações nos resultados também podem ocorrer em situações benignas. O toque retal pode complementar a avaliação em casos selecionados, enquanto a ressonância magnética multiparamétrica e o PET-PSMA são recursos que auxiliam na investigação e no estadiamento da doença.

Entre as opções de tratamento, Paiva destaca a cirurgia robótica, que utiliza tecnologia para auxiliar os procedimentos e pode favorecer a recuperação e a preservação da continência urinária e da função sexual em pacientes selecionados. Segundo o especialista, a técnica já está disponível em dois hospitais privados de Manaus.

“A prevenção oncológica masculina também deve considerar outros tipos de câncer. O câncer colorretal, por exemplo, exige estratégias de rastreamento conforme a idade e o risco individual. No Amazonas, o médico chama atenção para o câncer de pênis, destacando a importância da higiene genital, da vacinação contra o HPV conforme as recomendações vigentes e da avaliação de lesões persistentes’, ressalta.

Ao ampliar a discussão sobre a saúde masculina, Cristiano Silveira Paiva defende que a consulta urológica seja também uma oportunidade para avaliar diferentes aspectos do organismo. “O Novembro Azul deve deixar uma mensagem clara: a consulta urológica pode ser uma porta de entrada para uma visão integrada da saúde masculina, em articulação com a atenção primária e outras especialidades”, conclui.

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