Gazeta do Povo
08/11/2026 10:00

Cientistas encontram vestígios de sangue em fóssil de dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos

Ilustração representa o Aratasaurus museunacionali, terópode que viveu há cerca de 115 milhões de anos na região da Chapada do Araripe, no Nordeste brasileiro.

Ilustração representa o Aratasaurus museunacionali, terópode que viveu há cerca de 115 milhões de anos na região da Chapada do Araripe, no Nordeste brasileiro. (Foto: Maurilio Oliveira/Wikimedia Commons)

Um fóssil de dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos acaba de revelar uma pista biológica que normalmente desaparece muito antes de chegar ao registro fóssil: vestígios relacionados ao sangue.

Pesquisadores identificaram, em ossos da perna do Aratasaurus museunacionali, estruturas microscópicas semelhantes a glóbulos vermelhos e moléculas derivadas do heme, componente da hemoglobina responsável pelo transporte de oxigênio.

O material foi encontrado em 2008 em uma mina de gipsita no Ceará, na região da Chapada do Araripe, e pertence a um dinossauro terópode que viveu durante o período Cretáceo.

O estudo, liderado pela Universidade Curtin, na Austrália, teve participação de pesquisadores da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

O que as análises revelaram sobre o sangue preservado no fóssil?

As estruturas foram identificadas dentro de canais vasculares dos ossos, espaços por onde passavam vasos sanguíneos quando o animal estava vivo. Elas apresentam formato e dimensões compatíveis com células sanguíneas e, segundo os autores, foram mineralizadas durante o processo de fossilização.

A evidência mais importante, porém, veio das análises químicas. Os pesquisadores detectaram heme B e derivados alterados da molécula, além de sinais químicos associados às próprias estruturas. O heme é uma parte da hemoglobina e contém ferro, sendo fundamental para o transporte de oxigênio no sangue. A equipe também encontrou aminoácidos relacionados ao colágeno.

Para diferenciar o material original do animal de possíveis contaminações, os cientistas compararam a composição do interior dos ossos com a do material que os envolvia. No sedimento havia sinais associados a clorofila e bacterioclorofila, enquanto os ossos apresentaram assinaturas de heme.

Técnicas como espectrometria de massas, espectroscopia Raman e microscopia eletrônica foram utilizadas na investigação.

A principal autora do estudo, a geoquímica Kliti Grice, da Universidade Curtin, classificou o resultado como uma descoberta marcante. Em comunicado da Universidade de Curtin, ela afirmou: “Detectar moléculas intactas derivadas do heme em glóbulos vermelhos de 115 milhões de anos é surpreendente: esta é realmente uma descoberta histórica”.

Como o sangue pode ter sobrevivido por milhões de anos?

O achado não significa que os pesquisadores tenham encontrado sangue líquido, células intactas ou um tecido preservado como estaria no animal vivo. O que sobreviveu foram estruturas mineralizadas e sinais químicos relacionados ao material sanguíneo original.

Uma das explicações propostas para a preservação excepcional está na forma como o animal foi enterrado. Os pesquisadores acreditam que o Aratasaurus tenha sido rapidamente soterrado em um ambiente pobre em oxigênio e rico em microrganismos.

Nessas condições, a mineralização teria ocorrido precocemente e ajudado a estabilizar estruturas microscópicas que normalmente seriam destruídas pela decomposição.

Fragmento ósseo do Aratasaurus que preservou evidências moleculares associadas ao sangue do dinossauro, segundo estudo publicado na PNAS.

Fragmento ósseo do Aratasaurus que preservou evidências moleculares associadas ao sangue do dinossauro, segundo estudo publicado na PNAS. (Foto: Divulgação/Universidade Curtin)

Outro elemento importante foi a presença de hausmannita, um mineral de óxido de manganês. Segundo os autores, ele funcionou como uma espécie de “cápsula do tempo” mineral, ajudando a estabilizar as estruturas celulares e componentes biomoleculares durante o processo de fossilização.

A descoberta é especialmente incomum porque tecidos moles e moléculas orgânicas são muito mais frágeis do que ossos e dentes. Por isso, a preservação de sinais químicos relacionados ao sangue durante uma escala de tempo tão longa desafia a ideia de que determinadas biomoléculas necessariamente desaparecem depois de milhões de anos.

Ausência de DNA limita conclusões sobre a descoberta, mas não reduz sua relevância

Apesar do impacto da descoberta, é importante não confundir os resultados. Testes realizados para investigar a presença de DNA deram resultado negativo. A própria Grice ressaltou que a sobrevivência de estruturas semelhantes a células e de sinais químicos associados ao heme não significa que o material genético tenha sobrevivido.

Também existe cautela sobre a identificação das estruturas como hemácias. Especialistas que não participaram do estudo consideram convincente a presença de heme e de material mineralizado, mas avaliam que a interpretação morfológica das estruturas ainda envolve alguma incerteza.

Em entrevista à revista Super Interessante, a paleontóloga Mary Schweitzer, por exemplo, questionou se o formato observado corresponde ao esperado para glóbulos vermelhos de animais não mamíferos, que mantêm o núcleo celular.

Ainda assim, a combinação das evidências é considerada relevante pelos autores. Para Grice, o estudo abre novas possibilidades para investigar a evolução do sangue, o metabolismo e até os níveis de atividade de animais extintos.

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