A Tarde
08/11/2026 11:00

MUITO “A cultura transforma a vida”, diz gerente do CCBB Salvador

“Passamos a ter uma programação muito mais intensa”. É assim que Júlio Paranaguá, gerente geral do CCBB Salvador, resume o que muda com a abertura da sede física do Centro Cultural Banco do Brasil na capital baiana, marcada para 21 de novembro, no histórico Palácio da Aclamação. Espaço que conecta arte, patrimônio, diversidade e cultura brasileira, o CCBB chega a Salvador como a quinta unidade do país e a primeira do Nordeste.

A rede, criada há 37 anos no Rio de Janeiro, figura entre os espaços culturais mais visitados do mundo. O projeto foi anunciado em 2024, por meio de acordo entre o Banco do Brasil e o Governo da Bahia, proprietário do imóvel. Antes mesmo da sede, o centro já atua no circuito cultural baiano, com mais de 20 projetos, público superior a 600 mil pessoas e parceria com 18 equipamentos culturais. Na abertura, em pleno mês da Consciência Negra, a primeira etapa entrega ao público 1 mil metros quadrados de área expositiva e de convivência, com a mostra inédita Nação Ilê, dedicada ao Ilê Aiyê.

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O restauro do prédio principal tem previsão de conclusão em 2028 e, quando estiver totalmente pronto, o CCBB Salvador somará 10 mil metros quadrados. Nesta entrevista, Júlio ainda fala sobre o crescimento de projetos baianos no edital do CCBB e o legado que a instituição quer deixar. “A cultura, de verdade, transforma a vida, as pessoas e o ecossistema”.

O que muda na prática com a abertura da sede física do CCBB?

A primeira grande mudança é que passamos a ter uma programação muito mais intensa. A história do CCBB com Salvador começa em 2024, quando assinamos um protocolo de intenções com o governo do estado para estudar a instalação do centro na cidade. Logo depois, começamos a realizar atividades por aqui, como forma de dialogar com a cidade. Salvador é um território especial: primeira capital do Brasil, tem uma representatividade muito forte em todas as linguagens em que atuamos, das artes visuais ao cinema, da música ao teatro.

Começamos com conteúdo da Bahia e de fora. O primeiro projeto foi o espetáculo Fausto, do Grupo Oficina, e na sequência veio a nossa primeira exposição, sobre o Teatro Vila Velha, nosso vizinho aqui no Passeio Público, no Pátio da Aclamação. O teatro tem hoje 62 anos e reinventou a forma de fazer arte na Bahia e no Brasil. Antes, realizávamos a programação em parceria com outros espaços. Agora, passamos a promovê-la na nossa sede.

Por que Salvador foi escolhida para essa expansão? O que a instituição representa para a descentralização dos investimentos culturais no país?

Isso é muito importante. Vivemos um processo de nacionalização dos investimentos. O Banco do Brasil participa de vários programas do Ministério da Cultura nessa linha, como os programas Norte e Nordeste, e mantém projetos, como turnês e festivais, que acontecem em diversas regiões do país. Instalar o Centro Cultural Banco do Brasil em Salvador, o primeiro do Nordeste, tem um impacto muito grande nesse movimento.

E não é só pelo investimento direto. Quando estiver totalmente pronto, o centro cultural terá mais de 10 mil metros quadrados, com teatro, cinema, área expositiva, área de convivência e espaços para o programa educativo. O investimento gera emprego e renda, fomenta a economia criativa e oferece um palco para as produções locais. Também abre a possibilidade de circulação: uma produção baiana que se apresenta no CCBB Salvador pode itinerar pelos demais CCBB.

Já temos exemplos recentes de projetos selecionados em nosso edital que foram realizados em outras unidades. Há ainda a possibilidade de incluir Salvador no circuito de itinerância de grandes projetos nacionais e internacionais.

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O CCBB tem trajetória em outras capitais. Como vocês pensam em desenvolver uma identidade própria aqui, aproveitando as particularidades da Bahia?

Sempre dizemos que em Salvador e na Bahia não dá para chegar de qualquer jeito. É preciso chegar devagarinho, porque este é um território muito especial. Por isso, começamos a ter atividades na cidade mesmo antes de ter a sede física. Nas outras capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte), a programação só começa quando o prédio fica pronto.

Aqui na Bahia foi diferente: começamos antes, para chegar entendendo e dialogando com o espaço. Temos, assim, um olhar muito especial para o que é feito na Bahia, que tem uma tradição muito forte em todas as linguagens em que atuamos. Pense no cinema, na música, em toda a produção teatral baiana. Procuramos também dar a essas produções a oportunidade de circular pelas outras unidades. É um olhar de cuidado com a produção local, em diálogo com a nacional e a internacional.

Então, vocês têm a intenção de priorizar artistas e produções locais?

Sim. A programação do CCBB é montada a partir de um edital bianual. O último foi publicado em 2025, para a programação de 2026 e 2027. Nele, já incluímos a Bahia e, na comparação com o edital anterior, de 2023, o número de projetos baianos selecionados cresce de forma significativa.

Como será a experiência do público nesse período de implantação, já a partir do fim deste mês?

No dia 21 de novembro teremos uma nova etapa do processo de instalação: a abertura do espaço. Já serão mil metros quadrados disponíveis para visitação, com um pavilhão temporário, uma sala do complexo do Palácio da Aclamação e uma área de convivência, onde também teremos um café. A exposição sobre o Ilê, de arte contemporânea inspirada no bloco Ilê Aiyê, ocupará toda a nossa área expositiva. Será uma mostra bem grandiosa.

Por que o Ilê Aiyê para inaugurar o espaço? Qual mensagem o CCBB quer transmitir a Salvador com essa homenagem?

O Ilê é patrimônio da Bahia. Na abertura da nossa sede física, queríamos valorizar e enaltecer um patrimônio que vai muito além do bloco afro. O Ilê é a primeira plataforma de valorização da cultura afro-brasileira: sua fundação é anterior à criação do movimento negro institucionalizado. Formou, e continuará formando, muitas gerações na Bahia.

O olhar de valorização e de autoafirmação que existe hoje em Salvador deve muito a ele. O tema da exposição que inaugura um espaço é sempre muito marcante. Queríamos fazer uma grande homenagem à Bahia e ao povo baiano, e o Ilê conecta tudo isso: estética, dança, valorização da cultura negra, educação. Ele mantém a Escola Mãe Hilda, um programa educacional que é exemplo para várias instituições.

Você disse que é preciso chegar devagarinho, mas a proposta é robusta: uma exposição que homenageia um patrimônio baiano, um espaço grande, com muitas opções culturais... Não é bem devagarinho que vocês estão chegando...

Claro [risos]. O “devagarinho” é no sentido de entender o território, de chegar à cidade compreendendo-a. É nesse sentido. E seguimos adiante: abrimos essa exposição e continuamos com uma programação cheia de novidades, que vamos apresentar nas próximas semanas e nos próximos meses. Não paramos na abertura. Também é importante deixar claro que o prédio principal continua em obra e não será disponibilizado agora.

Novos espaços serão liberados ao longo dos próximos meses, além dos 1.000 metros quadrados já abertos. A estimativa é que o prédio principal esteja totalmente restaurado em cerca de 24 meses, ou seja, em 2028. Queríamos muito conectar esse espaço à cidade. A partir de agora, passamos a concentrar a programação na sede do CCBB, na Avenida Sete de Setembro, 1330, com acesso pelo Passeio Público. É um local histórico, importante na dinâmica da cidade e próximo a outros importantes equipamentos culturais.

Qual legado o CCBB pretende deixar para Salvador e para o Nordeste daqui a dez anos? Que papel gostariam de ter conquistado na vida cultural da cidade?

Admito que penso bastante nisso. O legado que queremos deixar é de transformação: contribuir para transformar esse espaço e todo o seu ecossistema. Quando paramos para refletir sobre as contribuições das unidades que instalamos em outras cidades, olhamos para a vizinhança ao redor e vemos um legado de transformação do local e da vida das pessoas.

Isso acontece porque é um espaço aberto, gratuito, de celebração da cultura e da arte, do fazer artístico. A cultura, de verdade, transforma a vida, transforma as pessoas e transforma o ecossistema. Esse é o legado que queremos deixar.

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