Economia ‘Bioeconomia pode repetir sucesso do Polo Industrial’, prevê diretor do Idesam
A bioeconomia tem condições de alcançar uma dimensão econômica comparável à do Polo Industrial de Manaus (PIM) e se tornar uma das principais matrizes de desenvolvimento do Amazonas. Para isso, precisa contar com políticas públicas, investimentos e planejamento de longo prazo, a exemplo do que foi feito para consolidar a indústria na Zona Franca de Manaus (ZFM). A avaliação é do engenheiro florestal Carlos Koury, diretor de Inovação e Bioeconomia do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e coordenador do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
Para Koury, o Amazonas já dispõe de conhecimento científico, recursos naturais e experiências bem-sucedidas que demonstram a viabilidade econômica de atividades produtivas associadas à conservação da floresta. O problema é que essas iniciativas ainda enfrentam dificuldades para ganhar escala, principalmente pela falta de integração entre políticas públicas, assistência técnica, crédito, inovação e acesso aos mercados. Um dos exemplos de que é possível avançar, segundo ele, está nos negócios apoiados pelo PPBio, cujo faturamento médio passou de pouco mais de R$ 4 mil para R$ 86 mil em três anos.
Nesta entrevista a A CRÍTICA, concedida durante a quarta edição do Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), realizado em Manaus pelo Idesam e pelo Impact Hub Manaus, Carlos Koury fala sobre os entraves ao desenvolvimento da sociobioeconomia, as oportunidades de integração com o PIM e as perspectivas para os próximos dez anos. Também aborda a trajetória do Idesam, as cadeias produtivas com maior potencial de crescimento e o desafio de fazer com que a riqueza da biodiversidade amazônica deixe de representar apenas uma promessa econômica.
O FIINSA chega à sua quarta edição reunindo empreendedores, investidores, organizações sociais e representantes do poder público. Que avanços concretos o festival já proporcionou ao ecossistema de negócios sustentáveis da Amazônia e o que ainda precisa acontecer para que essas conexões se traduzam em investimentos e oportunidades econômicas para a região?
O FIINSA é um evento, um formato de festival desenvolvido pelo Idesam e pelo Impact Hub Manaus, que já está na sua quarta edição, além da edição que foi feita na COP 30, no ano passado. E a proposta dele é fazer essa aproximação e discutir os incômodos que temos para desenvolver uma nova economia na Amazônia. Nós temos uma condição característica da Amazônia que tem perfis de públicos também que são relativos aos comunitários, aos empreendedores científicos, aos pesquisadores e aos desenvolvedores de cadeias produtivas. E eles não têm um respaldo, seja na política pública, seja nos investimentos, nos fundos de investimentos e negócios que querem desempenhar, apoiar a Amazônia, não tem um respaldo para se desenvolver. Então a gente precisa gerar o que a gente fala de um atrito entre esses públicos, entre esses atores, para conseguir refletir sobre as condições que estão postas e a forma de desenvolver essa integração de atores. Os resultados são alcançados a cada interação entre esses parceiros e o crescimento do público agora com mais de 1.050 pessoas participantes demonstra que aqui é um lugar de encontros e essa é a meta nossa. Esses são os resultados que são buscados.
Muito se fala sobre o potencial econômico da biodiversidade amazônica, mas transformar esse potencial em negócios rentáveis e duradouros continua sendo um desafio. Quais são hoje os maiores entraves ao desenvolvimento da sociobioeconomia no Amazonas? O problema está principalmente na falta de investimentos, na infraestrutura, no acesso aos mercados, nas políticas públicas ou na combinação desses fatores?
Você acertou no último. A combinação dos fatores ainda não deixa o fluxo da inovação e da agregação de valor na Amazônia acontecer. A gente ainda tem desafios que não são normais em outras cadeias produtivas. Conseguir fluir os veículos necessários para desempenhar uma cadeia produtiva é a grande meta de todos. Isso começa numa política pública fundamentada, com direito a acesso à terra, proteção dos territórios, passa por um programa de assistência técnica, fomento, entra em linhas de crédito para financiar e depois uma atratividade do conhecimento da inovação desenvolvida na academia. Esse é o tripé também que ainda não está bem estabelecido. O conhecimento tradicional, o conhecimento acadêmico e o conhecimento empreendedor industrial, eles trabalham ainda de formas paralelas. A gente tem chances de integrar e quando isso acontece a gente vê bons resultados.
E qual desses entraves citados pode ser considerado o maior gargalo de todos?
Acho que a gente começou a tratar o gargalo na forma sistêmica com os planos de desenvolvimento da bioeconomia, onde você tem programas de governo tanto federais quanto estaduais sendo traçados para se desenvolver com metas, com propostas de resultados e com alcances a serem estabelecidos. Esse era um elemento muito gritante da ausência de um direcionamento de governo para a promoção da bioeconomia. A gente tem 526 anos de Brasil e a gente tem 2 anos do Plano Nacional de Desenvolvimento sobre a Bioeconomia. É importante o Estado mostrar que existe um plano de ação para evoluir. A gente pode desenvolver uma economia com florestas e pessoas sem o menor problema. A gente tem ótimos exemplos que a Embrapa já mostrou para a gente, que a ciência já demonstrou para a gente e que o conhecimento tradicional já demonstrou para a gente. Conciliado com um plano de ação que traga as necessidades, que preencha as lacunas que a gente colocou – assistência técnica, crédito, fomento, apoio à inovação –, a gente vai ter uma chance melhor de conseguir resultados mais rápidos e sair dos projetos pilotos.
Na sua avaliação, a sociobioeconomia já pode ser considerada uma matriz econômica relevante no Amazonas ou ainda estamos diante de um potencial pouco explorado? Ela tem condições de alcançar uma dimensão econômica comparável à da indústria ou seu papel será necessariamente complementar?
Eu tenho certeza que a gente pode chegar a uma situação pareia entre as desenvolventes econômicas. O Polo Industrial de Manaus é um bom exemplo de um plano de governo que dá certo. A gente pode fazer isso também com a bioeconomia, e ter a bioeconomia sendo um vetor de desenvolvimento. O plano de ação feito em 1953, em 1957, estabelecido para o Polo Industrial de Manaus, que se demonstra agora um sucesso, é a referência muito positiva para a gente seguir e fazer a mesma coisa para a bioeconomia. Então, todas as condições, os critérios que faziam certo, os ajustes necessários para a promoção de um polo industrial no meio do país, em especial na Amazônia, eles foram estabelecidos há muito tempo atrás em condições até mais adversas, e deu certo. A gente pode repetir isso para a bioeconomia da Amazônia. E uma referência que nos inspira é que quando você tem um trabalho de longo prazo acontecendo, de médio prazo, ele já começa a mostrar resultados. O Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), que é um veículo que ajuda a partir do polo industrial de Manaus. O sucesso do Polo Industrial de Manaus se descentraliza, se irradia via Programa Prioritário de Bioeconomia, onde as empresas do Polo Industrial de Manaus podem ajudar os programas de bioeconomia a acontecer. E a gente monitora isso, o Idesam é coordenador, ganhou esse edital, é coordenador do Programa Prioritário de Bioeconomia. A gente monitora os projetos e negócios apoiados lá. Há três anos, a média de faturamento dos negócios era de pouco mais de 4 mil reais. Hoje a média do faturamento dos negócios é de 86 mil reais. Então, é uma evolução que está evidente, que pode acontecer, pode ganhar escala. A Amazônia provavelmente não vai conseguir ter uma referência de uso da biodiversidade para gente seguir. Agora o exemplo de desenvolvimento do Polo Industrial de Manaus, um programa de longo prazo para ser desenvolvido, é uma referência muito positiva, assim como o Brasil já fez com outras culturas agrícolas também, que a Embrapa conduziu e capitaneou, a gente pode fazer isso também com a bioeconomia.
Considerando os avanços tecnológicos, o interesse internacional por produtos da biodiversidade e a necessidade de enfrentar as mudanças climáticas, como o senhor projeta a sociobioeconomia amazonense nos próximos dez anos? Quais cadeias produtivas apresentam maior potencial de crescimento e o que precisa ser feito agora para que esse cenário se concretize?
A crise climática evidencia a necessidade de uma mudança do direcionamento de grandes processos produtivos. Processos produtivos precisam ser acompanhados de conservação de florestas. Isso é uma evidência que está posta aqui para nós. E nós sabemos como fazer, como eu falei, a gente tem subsídio para fazer agricultura de baixo carbono, uma pecuária de baixo carbono. O sistema agroflorestal com programas de manejo florestal empresarial madeireiro não madeireiro, programas de manejo de comunidades e depois a agregação de valor desses produtos em startups, negócios de impacto e polos de biotecnologia que podem fazer essa agregação de valor acontecer. A emergência climática, então, nos direciona para migrarmos para práticas sustentáveis ainda mais do que já praticamos agora, com mais escala, mais volume, mais consórcios. E as cadeias que podem ser desenvolvidas já dão conta. A gente tem dores eternas em Manaus, por exemplo, de saber que nosso peixe vem de outros estados. Essas são agendas que poderiam ser priorizadas, identificar os gargalos de porque que não está acontecendo, trabalhar, desenvolvimento de pilotos e modelos com um impacto ambiental positivo, que é possível, já tem conhecimento para isso. E alinhar os fomentos, com crédito e assistência técnica, para que esses negócios aconteçam. Então, a piscicultura é um tema muito importante para a nossa cadeia, desde para abastecer Manaus, que já é uma oportunidade, quando a gente olha como um negócio, como para irradiar e exportar esse ativo tão importante da nossa biodiversidade. Depois a gente tem um ativo florestal, também ativos florestais, que são os óleos vegetais e as manteigas vegetais, que movimentam o mundo, estão em várias cadeias produtivas e têm tido resultados melhores cada vez que a gente consegue agregar o valor na Amazônia e não exportar um produto cru, um produto bruto, para depois comprar de volta ou importar um produto beneficiado. Então nos elos que a gente tem apoiado entre comunidades e startups, a gente vê resultados acontecendo com a agregação de valor na Amazônia. Então, isso pode ganhar escala, óleos e manteigas. A gente tem sempre também atividade madeireira, que é uma atividade que merece um respeito, um reconhecimento, é um ativo florestal muito importante. E pode ganhar mais volume, mais voz e vez de desenvolvimento e além dos processos produtivos de sistemas agroflorestais que podem consorciar espécies agrícolas e florestais, mantendo uma paisagem, conservando a questão climática e promovendo uma agregação de valor diferenciado.
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