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08/11/2026 11:20

Zélia Duncan fala sobre vitória de Lula, derrota de Flávio e polarização

Matheus Leitão

Zélia relata diálogo com bolsonaristas que ouvem suas músicas, critica fuga de Flávio e diz que acredita em Lula, mas não o endeusa

08/11/2026 11:20

, atualizado 08/11/2026 11:29

Reprodução/Acervo Sesc Audiovisual / Nilton Silva
Foto colorida de Zelia Duncan - Metrópoles

Há vozes que a gente reconhece antes mesmo de terminar o primeiro verso. A de Zélia Duncan é assim. Mas houve um tempo em que ela sentia vergonha justamente dessa voz que viria a marcar tanta gente.

Nascida em Niterói e criada em Brasília, Zélia encontrou no palco um lugar para ser quem era. De “Catedral” a “Alma”, construiu uma história que atravessa o pop, o rock, o samba e a memória afetiva de diferentes gerações. E fez das palavras também um lugar de descoberta: nas composições, nas crônicas e no livro “Benditas coisas que eu não sei”.

Essa voz também ocupa a vida pública. Zélia se posicionou em defesa da democracia, enfrentou o discurso da extrema-direita e, durante a pandemia, usou as redes para acolher as pessoas e denunciar o descaso com a vida. Uma artista que leva para a conversa com o país suas convicções, sua indignação e sua sensibilidade.

Agora, celebrando 45 anos de carreira com o disco “Agudo Grave”, ela continua procurando novas maneiras de cantar e de olhar para a vida. Hoje, em entrevista exclusiva, o Que Dia recebe uma artista que tem muito a contar — e ainda, espero, muito a descobrir pelo bem do Brasil. Zélia Duncan, que alegria ter você aqui.

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Coluna – Antes de começarmos, conversávamos sobre o movimento dos estudantes de Niterói no segundo turno. Como foi ver aquela mobilização na sua cidade?

Zélia Duncan – No dia 5 de outubro, os estudantes da UFF fizeram o que virou a primeira manifestação de uma virada. Foi uma coisa muito grande e tão verdadeira. Quando eu vi, fiquei muito comovida, porque a gente ainda estava em choque com o primeiro turno, com medo daquilo tudo, vendo o bafo chegar perto da gente. Aquelas pessoas tão jovens fazendo aquilo deram uma esperança forte e verdadeira. Despertou em mim um bairrismo gostoso, sem exageros, um carinho pela minha terra.

Coluna – Zélia, eu estava ouvindo “Catedral” para preparar a nossa conversa e fiquei muito tocado. É uma música linda, que dá uma sensação de solidão, mas também de abrigo dentro da gente. O que você encontrou nela quando a ouviu pela primeira vez — e o que sente hoje ao cantá-la, depois de tantos anos e de ela ter passado a fazer parte da vida de tanta gente?

Zélia Duncan – Ela é extremamente confessional, Matheus. Eu cumpri um contrato em Abu Dhabi, quando tinha 21 anos. Fui cantar no Hotel Méridien. Tempos depois, quando entrei para a Warner e ia começar a gravar o álbum, tinha acabado de assumir o Duncan. Minha avó era Zélia Duncan, ela é que era a verdadeira. Eu já era Zélia por causa dela e peguei o Duncan também.

Foi tudo nessa hora. Beto Boaventura, que era o presidente da Warner, perguntou se eu conhecia Tanita Tikaram. Falei: “Adoro”. “Cathedral Song” está no disco dela. Só que fiz uma versão bastante livre. Meu parceiro Christiaan assina comigo porque me deu apoio moral e uma palavra. A música já estava toda pronta, faltava uma palavra, e a conversa com ele me deu essa palavra.

Abandonei a versão original, que é bastante subjetiva, e coloquei uma experiência mais pessoal, que também tem a sua subjetividade. Estou falando do deserto de fora e do deserto de dentro. Fiz essa analogia meio silenciosa, ninguém sabia dessa história.

Quando a música estourou, as pessoas começaram a me conhecer. Havia uma dúvida se era homem ou mulher na gravação. Ligavam para a rádio perguntando: “Quem é esse cara?”. Isso já me divertia desde aquele tempo.

As pessoas perguntam se não me canso de cantar. Você não pode se cansar de uma coisa que, primeiro, abriu uma porta para tantas outras e que é verdadeira. “Catedral” é uma música verdadeira, uma versão que fiz da minha própria história, da minha vida.

Você estava me dizendo que se emocionou. Fico feliz, como sempre fico, porque a música precisa que o outro se apodere dela. A nossa profissão se realiza no outro. Isso é complexo e lindo. Milton Nascimento pode fazer a música mais linda do universo, mas, se você não ouvir e aquilo não disser alguma coisa, não adianta.

O artista precisa se completar em quem o ouve, em quem o vê. A gente precisa que alguém sinta alguma coisa. Esse desafio é difícil, mas é o que faz ser tão incontrolável. A música é uma arte muito portátil. Isso é bonito demais.

Coluna – Você já contou que sentia vergonha da própria voz. Quando percebeu que justamente aquilo que a incomodava era o que tornava você única?

Zélia Duncan – Essa foi a grande virada da minha vida. Descobri quando comecei a cantar, quando vi que tinha uma voz que não era só a de uma menina que cresceu demais, que não era uma princesinha e que, mais tarde, se viu também na comunidade LGBT.

Tudo começa a fazer sentido na música. Quando começo a cantar, a escolher o que cantar, quando aquela voz começa a me fazer companhia no meu quarto, com meu violãozinho, do meu jeito, começo a entender que a minha vida tinha um propósito. A minha voz deu um propósito para a minha vida.

Fiz 62 anos anteontem, entendendo que ter uma voz não é só ter uma voz para cantar. A voz que canta está escolhendo o que cantar. Quando escolho, tem outra voz falando: a da pessoa, da cidadã, da mulher. A gente precisa descobrir as nossas vozes e afiná-las com o mundo em que vive. Isso é um trabalho para a vida toda. Descobri isso na luta.

Coluna – Você nasceu em Niterói, mas cresceu e começou a cantar em Brasília. Como uma cidade tão planejada produziu uma geração de artistas tão disposta a sair do roteiro?

Zélia Duncan – Primeiro, quando a gente ouve falar de Brasília, só pensa no governo. E tem um povo lá, um povo incrível, que luta, trabalha e às vezes tem aquela coisa esfregada na cara muito de perto.

O rock é uma música originalmente de protesto. O movimento do rock não nasceu, em grande parte, em Brasília à toa. A gente sai para passear na Praça dos Três Poderes desde criança. Minha mãe dizia: “Hoje é domingo, vamos dar uma volta, vamos até o Palácio da Alvorada”. Você vai introjetando aquelas imagens sem entender ainda o que significam. Nasci em 1964, imagina.

Fui para lá com seis anos, praticamente nasci lá. Hoje vejo como aquelas linhas retas são fortes para a gente. E também aquela coisa que não deu exatamente certo: fazer uma cidade e as cidades-satélites em volta. Tinha algo que podia parecer poético, mas era excludente, que não funciona.

É afetuoso por um lado, mas hoje, sendo a pessoa que sou, olho também com olhos críticos. Tem algo de elitista ali. Mas o povo que está lá pensa, tem muita resistência. Já foi um lugar muito mais de esquerda do que é hoje, no sentido da abertura e da liberdade. Não quero ficar acirrando o que já está acirrado.

O céu de Brasília é um componente muito importante no nosso imaginário, não só no nosso visual. É o horizonte. A gente via isso quando era jovem, antes de entender que tinha que cantar o Hino Nacional e subir a bandeira às sextas-feiras porque estava sob um regime militar. Tinha aula de Moral e Cívica. Só o nome dessa matéria me dá arrepios. Mas parecia tudo normal.

Foi lá que a Legião Urbana apareceu e, antes, o Aborto Elétrico, a banda do Renato. Na primeira vez que o vi cantando, eu era uma garotinha MPB e tive um choque. Mas aquilo já era o embrião de coisas que viriam.

Cássia veio de lá também. Conheci Cássia quando tinha 17 anos. Ela não nasceu lá, assim como eu, mas Brasília forjou muita coisa dentro da gente. Acho muito justificáveis esses artistas “estranhos” que vieram de lá, com muitas aspas e muito amor para dizer isso.

Coluna – Você foi uma voz muito firme contra a extrema-direita. Nessa campanha que acabou de terminar, qual foi o momento em que mais temeu pelo futuro do Brasil? E como recebeu o resultado da eleição?

Zélia Duncan – Fui votar aos prantos. Fui sozinha. Moro em São Paulo hoje, mas mantive minha casa no Rio e faço questão de manter o meu voto lá, por um motivo mais emocional e amoroso do que qualquer outra coisa.

Fui na véspera e, no dia, acordei sozinha para votar. Estava com muito medo. Fiz tudo o que consegui fazer. Sempre há mais para fazer. Fui às manifestações em Salvador, São Paulo e Rio, porque estava nessas cidades, fora todas as coisas das redes, fora tudo o que a gente passa.

Quando apareceu a urna e vi a cara do Lula, todas as nossas lutas vieram à minha cabeça. Votei com as lágrimas rolando. Fui embora, algumas pessoas falaram comigo, abracei algumas. Mal sabem elas que usei aquele abraço. É engraçado o que a gente usa para se consolar.

Teve gente que me viu e disse: “Quando vi você aqui, pensei: vai dar tudo certo”. Mas eu estava com medo. Não pude falar para aquelas pessoas que estava com medo. Quando nos abraçamos, usei aquele abraço para mim também. Ainda agora me emociono. A gente é de carne e osso, como qualquer pessoa. A gente tem medo.

Botar a cara na rede tem um preço. É um preço que pago, e pago na boa hoje, porque não saberia fazer diferente. Fui aprendendo a estar na rede, a fazer sem ser uma kamikaze louca. Cada um faz o que pode, como pode, mas, em certos momentos, o silêncio grita mais do que você se colocar. O problema é que o que ele grita pode não ser o que está no seu coração. Então é melhor se arriscar.

Para qualquer um é difícil ser odiado. Para o artista, acho que tem um pontinho a mais, porque a nossa profissão se completa no outro. Se o outro está me odiando, isso pode ser ainda mais difícil para mim. Mas o oposto também acontece. Assim como recebo muitas coisas desagradáveis, recebo tanto amor. Essa troca é o que me alimenta.

Não sou colecionadora de seguidores. Consegui meu Instagram um por um, eu fazendo, resolvendo. Agora, no lançamento, temos uma equipe. Mas tudo o que a empresa contratada disse que uma pessoa precisava para estar na internet, eu já tinha feito intuitivamente: chegar do meu jeito, falar espontaneamente. As pessoas foram chegando. Aprendi a me proteger, a colocar os filtros de que preciso.

Durante o segundo turno, algumas pessoas furaram o cerco e conversei com elas. Conversei com bolsonaristas. As pessoas que chegaram enfiando o pé na porta eu bloqueei, mandei embora. Não tenho tempo nem idade para isso. Mas encontrei gente com quem consegui conversar.

Acho que consegui virar uns dois ou três votos. Não falo isso com orgulho de time. Falo com orgulho de quem conseguiu falar e ouvir. Tem uma coisa importante nesse Brasil de hoje, e nós, progressistas, precisamos aprender muita coisa, aprender a ouvir.

Não é todo mundo fascista no Brasil. As pessoas têm suas histórias, seus medos, suas questões. Tem os buracos que o Estado deixou, ocupados por um fundamentalismo religioso que nos faz muito mal, mas que não veio do nada.

Foi de extrema emoção esse resultado. Encontrei muita gente nessa luta, colegas, pessoas novas. Me emociono vendo o mundo reagir ao que a gente fez. Entramos para a história com esse momento, o que apenas significa que temos que continuar. Como disse muito bem o Bruno Torturra, ganhamos a batalha que nos fez evitar perder a guerra. Mas a guerra é forte e continua.

Coluna – Depois da derrota, Flávio Bolsonaro deixou o país, num episódio que estamos acompanhando e investigando aqui na coluna. Como você recebeu essa notícia, depois de uma campanha em que ele se apresentou aos brasileiros para presidir o país?

Zélia Duncan – Acho muito lamentável. Ele confirma tudo o que foi dito sobre ele durante a campanha, não só em relação aos crimes em que está implicado e sendo investigado, que são coisas muito sérias, mas pelo rastro dele desde muito jovem na política.

Esse rastro não é só dele, é um rastro fascista. A gente vê no mundo inteiro isso acontecer. Os caras usam a política primeiro para se beneficiar o tempo todo. É uma coisa altamente egoísta. No caso dele, tem uma família para cuidar, assim como o pai tinha.

A fuga mostra que ele é exatamente o que a gente estava apontando: um covarde. Um cara que tem culpa no cartório muito séria. A carta que escreveu, se é que escreveu, seja quem for que tenha escrito… Se foi a IA dele, deve ser despedida essa IA. Tudo estava errado, desde o brasão com Brasil com Z. Ninguém quer Brasil com Z, minha gente. A gente quer Brasil com S.

Ele se entrega de um jeito lamentável, patético. Para nós, não deixa de ser bom, tudo entre aspas, porque não queria que isso estivesse acontecendo.

Leio comentários lamentáveis de pessoas que votaram nele: “Ele tinha mais era que ir”, “Que Deus proteja”. As pessoas continuam em negação. Os que não conseguem ver ainda significam uma coisa; os que não querem ver merecem também o nosso desprezo. Muita gente da elite, muita gente que tem dinheiro.

Tem uma coisa muito perversa desde que isso começou a acontecer desse jeito, que é o reverso do discurso, o discurso torto. Uma bolsonarista entrou numa rede minha e disse: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Falei: “Amor, quem disse isso foi o seu presidente, na ONU, num momento de extrema coragem, como é do feitio dele”.

Não sei se Flávio já se deu conta do que fez. Acho, apenas acho com a minha cabeça, que vai ser deportado. Talvez o irmão seja também, porque o povo americano está vendo, todo mundo viu. O fato de estar lá sem ter nada para dar em troca para o Trump, porque não tem mais as terras raras, não tem mais o Brasil para entregar, faz com que deixe de ser vantajoso para o Trump.

O mundo está vendo. A gente virou uma fresta para a América Latina tomada pela extrema-direita. É muito bonito ver a presidente do México entrar para fazer um pronunciamento fazendo o L.

Flávio perdeu a grande oportunidade de ser a tal oposição forte que seria aqui. Um sujeito que ganha 60 milhões de votos e despreza seus eleitores. Porque eles não estão interessados no Brasil, nunca estiveram. Ele está interessado em preservar a fortuna que fez, que não é pequena, e em preservar a si mesmo.

Fugiu daqui porque pediram o passaporte dele. Está sendo investigado e fingindo que aqui é uma ditadura. Se fosse uma ditadura, ninguém da família teria sido eleito e ele mesmo não teria concorrido. Se fosse uma ditadura de esquerda, como quer fingir que é, ou do Judiciário.

O STF tem muitas questões para conversar, mas a gente escapou de uma boa. Ele, acho que entrou ainda mais. Outro dia escrevi no X: “A covardia preventiva do Flávio vai custar muito caro para ele”.

Coluna – O discurso autoritário, a mentira e a intolerância continuam presentes. O Brasil saiu da ditadura sem fazer uma justiça de transição que levasse torturadores à cadeia. Você já disse que “democracia dá trabalho”. Passada a eleição, qual é o trabalho agora? E o que espera — e vai cobrar — do quarto governo Lula?

Zélia Duncan – Tem muitos posicionamentos para serem revistos. Ele já falou muito de aprender com as coisas. Tem que olhar com cuidado as pessoas que estão no governo, ver quem precisa ser realocado, entender o que aprendemos.

Nós, como povo, aprendemos muitas coisas, e é aí que podemos mexer. Primeiro, não sair da rua. Não dá para sair da rua, ainda mais com um Congresso tomado como esse. Não dá para ficar desatento. Estou realmente nesse propósito.

Precisamos ouvir as pessoas. Todos temos pessoas de quem gostamos que queriam votar ou votaram do outro lado. Se estamos dizendo que o outro lado é o da política da morte e da intolerância, não podemos admitir que uma pessoa que amamos esteja tão tomada por isso. Precisamos ouvir, conversar, participar dos movimentos sociais, entender.

Os indígenas, por exemplo, estão sofrendo uma coisa inaceitável. O que podemos fazer? Seguir, comentar, marcar as pessoas. Coloco nos meus stories, aqui e ali. Acabei conhecendo alguns políticos de quem gosto muito nessa jornada, e marco essas pessoas nas publicações.

Agora estão aparecendo aplicativos para você ver o que os políticos estão fazendo, inclusive — e principalmente — aqueles em quem votou. Temos que colocar isso no dia a dia. Se ficarmos fazendo de quatro em quatro anos, vamos perder. O esforço que tivemos que fazer dessa vez talvez possa ser um pouco menor se não pararmos de trabalhar.

A consciência é um caminho sem volta. Ela e a democracia estão coladas, dão trabalho. Mas é o que temos que fazer no pequeno. Tento fazer na minha equipe, no meu dia a dia, com quem trabalha comigo: procurar saber como as pessoas estão, o que estão passando, entrar num ambiente e olhar onde posso contribuir.

É trabalho de formiga, mas foi isso que acabamos de fazer. Quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro. Que a gente possa ser um formigueiro, ser essas formigas vermelhinhas que mordem.

Outra coisa que observo, apenas como cidadã: a direita brasileira precisa retomar seu lugar digno. Foi muito indigno da parte da direita brasileira se entregar à extrema-direita por votos fáceis, pelo poder. Porque eles mentem. Mentir é muito mais fácil do que tentar provar um fato. A mentira é muito fácil de ser disseminada.

A direita com quem sempre convivemos se tornou odiosa porque se juntou à extrema-direita. E a extrema-direita se diz direita. Muitos deles se dizem de direita e não são. A nossa direita não era essa. Era uma direita que sabia pensar e conversar.

O nosso dever de casa como povo é não sair da rua, ouvir uns aos outros e trazer de volta quem achamos que pode ser trazido. O dever de casa do governo é muito grande: fazer jus ao que foi dito, à confiança que o povo colocou.

Sou uma pessoa que acredita no Lula, mas não endeusa o Lula. Não o coloco como um santo, mas como um homem sensacional que nos salvou. Da vez passada foi um salvamento, um livramento, e agora foi um livramento de novo. Não vai mais ter Lula, gente. O legado dele é fundamental como luta. Vamos achar outras pessoas e ser agradecidos a esse homem para sempre.

Coluna – Quando você começou a pesquisar essas sete mulheres da Independência, qual história fez você pensar: “Como eu passei tanto tempo sem saber disso?”

Zélia Duncan – Sempre penso isso. Adoro quando me tiram da ignorância, e isso acontece cotidianamente. Tem a ver com ter conhecido Heloisa Starling, uma mulher sensacional, uma historiadora que virou uma grande amiga.

Ela me levou para muitas coisas. Fez um livro com sete biografias, com Antonia Pellegrino, Cidinha da Silva e outras escritoras. Estava muito próxima da Heloisa, li o livro, e ela me levou para uma reunião na UFMG. Olha onde a minha vida me leva. Sou só uma cantora. De tanto gostar de falar das coisas, fui parar lá.

Vi aquela mesa cheia de jovens falando e perguntei: “Posso fazer uma música para cada heroína?”. Ficou aquele silêncio. “Você faria?” Falei: “É isso que posso fazer, é aí que posso contribuir”. Li o livro e fiz uma letra para cada uma.

Foi lá no Projeto República. Chamei minha grande parceira musical, Ana Costa, uma compositora sensacional, carioca. Já tínhamos feito um álbum inteiro chamado “Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz”, um manifesto feminista com 16 mulheres cantando e tocando. Uma coisa linda que foi pouco divulgada porque saiu um pouco antes da pandemia.

Mandava as letras para Heloisa e dizia: “Dá uma revisada para ver se a história está certa”. Foi uma coisa tão bonita.

Tem a Bárbara, do Ceará. Uma mulher que proclamou a Independência no Crato. Pegou os filhos, foi para a praça, declarou a Independência, e o povo veio com ela. Heloisa costuma dizer que foi a primeira presa política do Brasil. Foi arrastada publicamente, sofreu muito, mas foi uma mulher corajosa e maravilhosa.

Tem Maria Felipa, uma mulher negra. Eu ficava muito próxima dessas mulheres. Queria tanto ser do exército da Maria Felipa, em Itaparica. Não tem muito documento sobre ela, mas o que se sabe é que comandou a mulherada. Elas atacaram os homens com uma planta que provoca coceira e afundaram embarcações portuguesas.

Tem as mais conhecidas, como Maria Quitéria, que se veste de homem para lutar e, quando volta para casa, o pai não a deixa entrar. Uma mulher que lutou pelo Brasil lindamente. No meio da luta, os colegas percebem que é uma mulher. Começam a prestar atenção nela durante as batalhas porque não desiste, não para.

Tem a baianinha que, com 16 anos, pregava panfletos pela cidade de Salvador com a ajuda do pai. Demoraram a descobrir essa menina, que se chamava Urânia. Tem Ana Lins. Queria saber as letras todas de cor, mas não lembro. E Dona Hipólita, que foi o começo de tudo.

Coluna – Queria que você nos apresentasse Dona Hipólita. Quem foi essa mulher e o que na história dela pediu para virar canção?

Zélia Duncan – Era uma mulher da elite mineira. Acredita-se que encontrou até com Tiradentes e fez da casa dela um lugar de encontro para essa gente.

Fui até Ouro Preto com Ana Costa, com a presença da ministra Cármen e de pessoas muito bacanas. Cantamos a música da Hipólita porque ela foi colocada no panteão junto com os inconfidentes. Olha que coisa linda. A única mulher. Se você for a Ouro Preto hoje, está Dona Hipólita junto com os heróis.

É um trabalho muito comovente. Heloisa é uma mulher sensacional. Me sinto muito honrada de ter feito isso. Pouca gente sabe. Queria que essas músicas estivessem nas escolas, porque contam essas histórias. São um resumo, mas foi um desafio tão bacana ter essas mulheres em música.

Chegamos a fazer uma apresentação dentro da UFMG com uma banda de quatro mulheres. Já cantamos no Itamaraty também. Vocês que estão ouvindo, levem a gente para apresentar essas músicas. Em vez de Moral e Cívica, essas músicas. “Dá moral para a mulherada” devia ser o nome da matéria. Visibilidade para quem lutou.

E essas são sete. Quando estava cantando no Itamaraty, uma artista plástica do povo Tukano veio falar comigo: “Você devia fazer sobre as mulheres indígenas”. Falei: “Claro, me dá material. Vamos fazer de todas as mulheres que a nossa vida permitir”.

Coluna – Seu disco novo se chama “Agudo Grave”. O que você sente hoje com mais intensidade do que sentia quando era jovem? Como isso aparece na sua música?

Zélia Duncan – “Agudo Grave” é um álbum superautoral. Não lançava um álbum havia cinco anos. Estou muito feliz com o que conseguimos fazer. Convidei uma artista jovem e sensacional que conheci há uns três anos, Maria Beraldo. Ela tem o trabalho dela, é arranjadora, uma pessoa muito singular, que trouxe um respiro para o meu som e para o meu show.

O álbum tem parcerias com Alberto Continentino, com a própria Maria, com gente da minha geração, como Lenine, Zeca Baleiro, Lucina, Ná Ozzetti, Pedro Luís. Tem Juliano Holanda, um pernambucano com quem fiz o disco anterior. Todas as minhas músicas daquele disco eram com ele.

É um disco com as pessoas que amo, com novidades, e o assunto é extremamente existencial, mais do que romântico. Tem uma música minha com Alberto sobre IA. Acho que o mote do álbum está dentro dela, numa frase que uso para dizer o que é esse momento da minha vida: “Eu quero humanidade radical”.

Meu momento é esse, Matheus: humanidade radical. Tem a ver com a luta por um Brasil melhor, com acreditar em gentileza, em estender a mão aos outros, em não estarmos sozinhos.

Agora ficou muito fácil ilustrar isso com a vitória que tivemos, porque só conseguimos porque era coletivo. Tudo o que é coletivo, desse jeito progressista, tem uma humanidade radical como semente.

A foto da capa foi tirada por Mauro Restiffe, um grande artista da fotografia. Veio aqui em casa sem assistente, sem nada, e tirou foto trocando filme. A gente não via. É uma foto meio granulada, em preto e branco. Queria que a humanidade radical estivesse em toda parte.

Gravei muitas vozes ao vivo, junto com os músicos. Em geral, você grava uma voz-guia e coloca a voz definitiva por último. Há muitos anos gosto de gravar junto, e agora mais do que nunca. A sua voz reage enquanto o músico está tocando e vice-versa.

O show já estreou e está lindo. Coloquei músicos diferentes, gente muito jovem, mulheres na banda, meninos e meninas. Maria fez a direção musical. Foi muito comovente.

Acabei cantando uma música de Maurício Pereira porque queria uma música com esse elemento mais político. É um grande artista, identificado com a vanguarda paulista. Ele tem uma música chamada “Pan y Leche”. Fiz um clipe para esses tempos. Tem um amor dentro dela, um desejo de estar contente com toda a sua gente, de ir para a frente.

Acabei gravando depois do álbum. Corri para o estúdio, fiz um clipe, tudo na guerrilha, para que as pessoas vissem e dessem um sorriso sem pensar que já estavam fazendo política ouvindo aquela música.

Esse meu momento como artista está muito atrelado à cidadã, às minhas lutas pessoais como mulher, como LGBT. Elas vêm depois da minha luta como cidadã e como pessoa que quer se ver e estar na luta antirracista, que, para mim, é a mais importante de todas.

Ela é anterior até à bandeira que sinto na minha pele. Aprendi lendo e indo para a rua que a minha pele não é a mais importante. Me coloco nessa luta como alguém que está aprendendo a lutar, que entende os privilégios e tenta colocá-los à disposição. Errando, porque a gente erra, mas tentando desesperadamente acertar.

Coluna – Seu livro se chama “Benditas coisas que eu não sei”. Qual foi a certeza mais importante que você precisou abandonar para chegar até aqui?

Zélia Duncan – Acho que é essa de ir para o fim da fila, de entender que o começo da fila não quer dizer nada. Deixar outras coisas importantes, muito mais importantes do que eu, passarem.

Essa frase vem de uma música minha com Mart’nália. Acho que uma das grandes desgraças do nosso tempo são as certezas. Abrir mão delas talvez tenha sido uma coisa muito importante.

Já tinha uma tendência a querer ouvir. Se você quer cantar, tem que ouvir. Se quer escrever, tem que ler. Senão fica só ridículo. Falo muito isso: você quer ser novo na música? Vai ouvir Tom Zé. Você se diz novo, mas já ouviu Tom Zé? Cuidado, porque pode estar sendo velho.

Isso me deu um banho de aprendizado. Outra coisa muito importante na vida é a curiosidade. Sobre os outros, sobre tudo. A curiosidade leva a gente para a frente. Essa música fala disso o tempo todo, das coisas que não sei, dos lugares aonde não fui, dos gostos que não provei.

É um pouco o mote da minha vida e desse livro. Tentando responder à sua pergunta, a primeira coisa que aprendi a abandonar foram as certezas.

Coluna – Você acaba de fazer aniversário e está celebrando 45 anos de carreira. O que ainda consegue provocar aquele frio na barriga de quem está começando? Você sente isso toda vez que sobe ao palco?

Zélia Duncan – Sinto e cultivo muito esse frio na barriga. Quero ele. Agora tem a ver com a presença da Maria. Quem conhece a minha jornada sabe que estou sempre me arriscando, sempre saindo. Ficou gostoso, estou saindo.

Estou sempre atrás do que me desafia, porque uma carreira longa pode ser uma armadilha. Tenho a sorte de ter alguns sucessos, músicas conhecidas, e isso é um perigo. Senão você fica sempre tocando e fazendo só essas coisas. Preciso me sentir desafiada.

“Agudo Grave” é um grande desafio. Ter colocado a batuta na mão da Maria, uma artista maravilhosamente imprevisível, foi uma atitude de quem quer sair do lugar. Quem conhece meu som e ouviu o disco sabe que tem coisas ali desafiadoras para mim.

Tem Itamar Assumpção, um dos meus maiores ídolos. A única música que não é minha é dele. Esse desafio me acompanha e está muito presente. Quando toca o terceiro sinal, você se pergunta: “Para que fui inventar isso?”. É tanta coisa diferente.

Mas não sou boba. Corro perigo, mas a rede que armo é gostosa para cair bem caída. As pessoas que estão comigo são todas de muita consistência. Para poder mudar, preciso da consistência das coisas.

Vou mudando assim. Viciei nisso, não consigo largar o vício pelo perigo artístico em relação a mim. Não sei se mudo o mundo. Como diz Juliana Linhares, não posso mudar o mundo, mas balanço pelo menos o meu mundo.

Coluna – Você contou que não conseguia escrever sobre música sem chegar à própria vida. O que a escritora consegue contar que não cabe numa letra de música?

Zélia Duncan – Muitas coisas. A moldura de uma música é o grande desafio: conseguir, em poucas frases, falar de uma coisa, criar algum pensamento, uma diversão ou uma alegria. Na prosa, você foge mais dessa moldura. A palavra é mais central. Na música, a melodia tem que dividir o mesmo espaço. Na escrita, você pode discorrer de outras maneiras.

Mas jamais a compositora abandona a escritora e vice-versa. Quando estou escrevendo, me sinto musical também. As pessoas que me conhecem mais falam: “Eu te leio te ouvindo”. Uma coisa está muito impregnada da outra.

Com certeza, a coisa mais importante da minha vida é a palavra. Claro que a música é a minha espinha, mas a música por causa da palavra. A palavra, para mim, vem antes. E a voz acaba me trazendo.

Até a minha voz falada é muito importante nesse sentido. Já fiz algumas coisas como atriz. Acabei de gravar o segundo audiobook da Patti Smith, uma artista incrível da música que também é uma grande escritora. É poético o que escreve, e me identifico.

Algumas pessoas já ouviram “O pão dos anjos”. Agora gravei “Só garotos”, que deve sair logo pela Companhia das Letras. Tive a honra de gravar esse audiobook. É sempre a palavra que persigo, também correndo um pouco atrás de mim.

Coluna – Antes das heroínas da Independência, você e Ana Costa já tinham reunido 16 mulheres no disco “Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz”. O que acontece quando as mulheres ocupam o centro de um trabalho assim? O que gostaria de ver acontecer mais no Brasil?

Zélia Duncan – Competência total. Competência, e o assunto é nosso, um assunto que deveria interessar a todos. Historicamente, sabemos como é importante falarmos por nós. Nesse álbum é isso.

Tinha uns três ou quatro homens, e eu brincava que tinham ganhado o “pink card”, um passe para tocar com a gente. Homens que amamos e adoramos.

Você não sabe, porque é homem, o que é para nós entrar no estúdio e olhar o primeiro aquário, o segundo, ver mulheres tocando, mulheres cantando. É a gente se apoderar do que é nosso.

Teve uma coisa bacana que eu e Ana Costa fizemos antes da gravação. Chamei e propus que não cantássemos, que, como uma atitude feminista, cedêssemos lugar a mais duas mulheres. As letras são todas minhas, as melodias são todas dela, e ela imediatamente aceitou. A gente só canta como coro.

As nossas colegas achavam que era para dividir a faixa. Eu falava: “Não, você não vai dividir, você vai cantar”. Vai de Daniela Mercury, Elba Ramalho, Simone, Isabella Taviani, Fabiana Cozza até cantoras mais jovens, como Juliana Linhares e a nossa amada Ayrá Martins. Tem Teresa Cristina. Não devia começar a falar os nomes porque depois fico pensando que não falei de todo mundo.

É uma mulherada. Cada uma deu imensa alegria a todas nós. É diferente quando você tem esse tipo de visibilidade. Visibilidade e representatividade são palavras surradas, mas que ainda não foram usadas suficientemente.

Participei também de um filme sobre visibilidade lésbica em que só havia mulheres filmando, como uma atitude. Essas experiências me deram uma vontade de expandir e de nos ver cada vez mais nos espaços todos, não só de poder, mas de representatividade.

Coluna – Durante séculos, as mulheres foram tratadas como notas de rodapé, apesar de tudo o que estavam fazendo.

Zélia Duncan – Agora estamos vendo, nesse mundo louco para andar para trás, discursos de que mulher não sabe votar, que deveria votar sempre com o marido. Às vezes, mulheres impregnadas repetem isso.

A mulher machista é uma mulher impregnada do machismo. Tenho experimentado nas minhas redes que muitas vezes fica mais virulenta que o próprio homem. Algumas mulheres que se aproximam são muito violentas e agressivas. Me dói mais porque não entenderam.

Se os homens nunca entenderam, falta muito para essas mulheres entenderem que o fato de terem coragem de falar passa por todas nós, ainda que seja uma agressão.

Coluna – E houve mulheres eleitas com esse discurso, no meio dessa onda da extrema-direita.

Zélia Duncan – Vamos ter que enfrentar isso. É o negócio do discurso: dizem “Ué, vocês não queriam mais mulheres?”. A gente queria mais mulheres progressistas, que olhassem para a vida com generosidade e por um viés feminino, não por um viés impregnado de machismo. Porque o machismo mata. O aumento do feminicídio é uma vergonha, um sinal terrível.

Coluna – Na pandemia, você levou conversa e música para as redes. Essa pergunta tem muito a ver comigo: tenho asma grave desde os primeiros dias de vida, estava entre as pessoas com comorbidades e tive muito medo. Cheguei a ficar internado. Eu acompanhava você e me sentia acolhido. O que a levou a fazer esse movimento? Você tentava acolher as pessoas e também encontrar algum acolhimento para si?

Zélia Duncan – Que tempo, né, cara? Resolvi ir para a rede primeiro porque senti uma animosidade muito grande em relação aos artistas. Começou uma campanha da extrema-direita contra os artistas. Por quê? Acho que porque estamos muito próximos das pessoas, porque somos as pessoas. Somos os tradutores dos sentimentos. Isso não é pouca coisa.

Começaram a nos tratar como inimigos. Como diz o Rappin’ Hood, estou com o microfone, é tudo no meu nome. O fato de ter um microfone assusta os caras, eles têm medo da gente.

Como me ensinou minha querida amiga Márcia Tiburi, o pano de fundo do ódio muitas vezes é a inveja. No sentido da nossa comunicação, de que é muito raro ver um artista obrigado a ser artista. O artista sofre por muitos motivos, às vezes é o pária, mas faz o que ama. Isso é muito revolucionário.

Trazemos na nossa gênese uma coisa que assusta: o amor pelo que fazemos e o acesso às pessoas. Quando vi a animosidade em relação aos artistas, falei: “Quer saber? Vou botar a cara lá para entender onde erramos, porque erramos também. Vou tentar conversar”.

Acabei fazendo aquele escrito, “Vida em branco”, que viralizou. Não sabia o que era viralizar. Dizia que, se você não precisa de artistas, então devolva os momentos bons, os versos roubados de nós, desligue o rádio do carro, arranque as caixas de som.

Aquilo bateu nas pessoas e foi a primeira vez que senti uma proximidade assim. Comecei a receber os coices aqui e ali, mas também a entender o valor de estar ali.

Veio a pandemia e aquilo me afetou profundamente, como a todos nós. De um jeito intuitivo, comecei a tentar consolar as pessoas. Me senti consolada, sim. Para mim, como artista, foi muito importante, porque tive um respiro na comunicação com as pessoas.

Você está dizendo que falei com você. Fico muito emocionada de saber, porque foi por não saber o que fazer que fiz aquilo: ir falar, aprendendo a falar, falando.

Tinha gente que me procurava: “Zélia, cuidado, para com isso”. Gente que me queria bem. Dizia: “Obrigada pelo cuidado, estou tentando tomar cuidado”.

Já na eleição em que Bolsonaro foi eleito, minha mãe me escreveu: “Você vai votar sozinha? Cuidado”. Eu gostava de ir a pé. Comecei a pensar: “O que está havendo com o Brasil, onde precisamos ter cuidado para ter uma opinião, para colocar uma camiseta?”. Foram essas perguntas que me levaram para a rede.

O Leminski tem um livro que amo, “Distraídos venceremos”. Acho que fui para a rede um tanto distraída nesse sentido. Não estava prevenida, queria conversar e fui aprendendo várias coisas.

Alguns amigos, no começo, me procuravam porque tinham recebido alguma coisa. Eu dizia: “Calma, respira, bloqueia e segue”. Essas pessoas odiosas, em geral, mandam uma coisa e não estão esperando a sua resposta inteligente ou revoltada. Não estão interessadas. Não gaste seu coração respondendo. Te juro, 95% não vale a pena responder.

Foram pequenas coisas que aprendi. Hoje vou com tranquilidade, ainda com cuidado com o que estou falando. O mesmo cuidado que tinha quando escrevi crônicas para O Globo durante dois anos. Minha maior preocupação era não parecer que sabia alguma coisa.

Acho que por isso veio o livro. Você tem uma coluna, um microfone, é um tipo de poder, essa palavra tão perigosa. Dizia: “Não posso cair na armadilha de parecer que sei uma coisa que ninguém sabe”. Não sei, estou correndo atrás de alguma coisa.

Escrevia sobre não saber, sobre a vida, uma opinião. Comecei a brincar um pouco de ficção, o que foi um tesão para mim, inventar e criar algumas coisas. Foi aí que achei a graça e o valor de estar ali. Na rede, continuo tentando conversar como artista e como Zélia.

Coluna – Como é conversar com alguém que gosta das suas músicas, mas adere a um discurso que você considera extremista?

Zélia Duncan – Acabei de passar por isso. Nessas conversas, foi uma das coisas mais loucas que observei. Conversei com pessoas muito legais que me fizeram pensar, não sobre a minha convicção, mas sobre os seres humanos. Cada um tem ali o seu motivo, que não é necessariamente um motivo escroto. Alguma coisa levou aquela pessoa para ali. Vamos com calma, porque desaguou numa coisa muito ruim.

Mas teve uma em especial. Ela entrou com as duas patas, e eu perguntei: “Por que você está falando assim comigo?”. Ela disse que gostava das minhas músicas. Falei: “Se você gosta das minhas músicas, minhas músicas sou eu. Alguma coisa em comum a gente há de ter”.

Olha o que ela disse, como é louco esse tempo que vivemos: “Gosto das suas músicas, vou continuar ouvindo, mas não estou nem aí para o que você pensa”.

Bloqueei. Pensei: “Vai continuar ouvindo minhas músicas, ok, mas não precisa ter acesso a mim, como artista ou como pessoa”. Ela já disse quem era, com bastante aspereza.

Esse descompasso marca esse momento do Brasil. Em relação aos artistas, é muito louco. Mesmo quem quer que a gente desapareça não deixa de nos ouvir.

Talvez por isso os odiosos peguem nossas músicas para as campanhas sem nenhuma cerimônia. Depois são processados, têm que tirar, pedir desculpas. Não param para pensar: “Falo mal dessa pessoa, mas estou tocando a música dela na minha campanha”.

Não pode, gente. Se vocês odeiam a gente, vão fazer suas próprias músicas. É nesse descompasso que os artistas ficam angustiados, porque precisamos de gente que goste da gente.

Estou dando essa entrevista e quero tranquilizar meus colegas: eles odeiam a gente, mas muitas vezes continuam gostando das nossas músicas. Fazer o quê?

Coluna – Você já contou que sua mãe teve um papel importante para que deixasse de esconder sua sexualidade. Como foi esse caminho entre vocês? O que o acolhimento dela mudou na sua vida?

Zélia Duncan – Minha mãe é uma senhora de quase 91 anos, muito lúcida, muito amorosa. Teve suas dificuldades no começo, seus medos. Consigo me colocar bastante no lugar dela e pensar como é difícil ter em casa uma pessoa que está fora do padrão e que você ama tanto.

Ela foi aprendendo a me acolher, e conseguimos isso há muito tempo. Mas ainda existem pessoas sendo expulsas de casa, hostilizadas e morrendo por causa disso.

Ter esse apoio da minha mãe foi muito determinante para começar a gostar de ser quem era, já que também tinha muito medo e vergonha.

Antes dela, minha avó foi a primeira da família a me estender a mão. Depois minha irmã, finalmente meus irmãos, primos, tios. Tive muita sorte nesse aspecto.

Perdi uma tia muito amada na época da pandemia, e ela dizia: “Você ensinou nossa família a ser gente”. Acho um exagero amoroso, mas abri alguma fresta, até para as pessoas que vêm depois de mim e já se sentem melhores do que me senti.

Devo muito à minha mãe, à nossa relação continuada, tão humana, tão radicalmente humana. Às conversas que tenho com ela, ao acolhimento que deu a mim e aos meus amigos quando éramos adolescentes.

Por uma conjuntura de que até achamos graça, tinha vários amigos perto de mim que também eram gays e não sabiam, assim como eu. Minha mãe foi um lugar para todos nós. Até hoje essas pessoas, que estão coroas como eu, a chamam de tia e nunca esquecem que minha mãe era um lugar aonde ir quando a gente não sabia o que fazer.

Coluna – Recebi Tony Bellotto aqui no Que Dia e disse a ele que era meu herói. Queria dizer que você é minha heroína. Foi um prazer enorme ter você aqui. Essa entrevista foi especial para mim.

Zélia Duncan – Que honra, cara. Obrigada por esse espaço, pelo carinho com a minha jornada. Estou aqui de olho em você também. Tudo de bom para você.

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