Victor Ostetti/MidiaNews ENTRE BISTURIS E LENTES; VÍDEOS Cirurgião cuiabano conquista o mundo com fotos do Pantanal 0
Com mais de 20 anos de carreira como cirurgião plástico, o cuiabano Bruno Spadoni construiu uma trajetória dedicada a transformar corpos e reconstruir autoestimas. Mas foi fora do centro cirúrgico, entre o silêncio de um barco no Pantanal e a espera de horas por uma luz que dura segundos, que ele encontrou na fotografia uma nova forma de exercer o que define como sua essência.

Então a beira é onde a água encontra a terra e a terra encontra a gente
“Eu nunca tinha parado pra pensar que eu era um agente transformador e que a coisa que eu mais gostava de fazer era curtir o momento da transformação”, revelou em entrevista ao MidiaNews.
O interesse pela fotografia surgiu ainda na infância, entre slides projetados pelos pais e álbuns de família. “Meu pai é um cara que sempre gostou de fotografia. Me lembro dele ter uma câmera fotográfica, tripé e tudo mais”, recordou.
A medicina também contribuiu para manter esse olhar atento aos detalhes. “A cirurgia plástica está muito envolvida com fotografia. A gente tem muito cuidado com o registro fotográfico de pacientes".
O ponto de virada ocorreu durante uma expedição fotográfica à Patagônia, onde teve contato com profissionais reconhecidos internacionalmente.
“Lá eu tive contato com outros fotógrafos, premiados internacionalmente. Fui mostrando o meu trabalho e todos eles ficaram muito impressionados e me incentivaram. Falaram: 'Cara, você precisa andar pra frente, precisa se mostrar'. E aí foi que eu resolvi testar”, contou.
Desde então, Spadoni acumula prêmios internacionais em cidades como Londres, Nova York e Tóquio. Ele também é representado pela galeria Arte Expertise, de Florença, na Itália, e já teve obras exibidas em Londres, Cannes e bienais.
Neste sábado (7), o cirurgião inaugurou sua primeira exposição em Cuiabá, intitulada “A Beira”, no Museu da Caixa d'Água Velha, ao lado dos fotógrafos Marcos Mesquita e Flávio André. A mostra ficará em cartaz até 30 de dezembro, com entrada gratuita.
“A gente mora em Cuiabá, é uma cidade que nasceu ao redor da beira do rio. Então a beira é onde a água encontra a terra e a terra encontra a gente”, explicou o cirurgião, que também assina a curadoria da exposição.
Ao todo, são 30 fotografias que constroem uma narrativa dividida em quatro etapas: o silêncio, a chegada, a vida e o retorno da natureza.
“É uma narrativa de como acontece o ciclo da vida ao redor da beira do rio”, afirmou.
O Pantanal como coração

É uma verdadeira caça às vezes, porque você fica no barco, horas, e não vai ver a onça
Cuiabano, Spadoni cresceu frequentando o Pantanal, bioma que se tornou uma de suas principais inspirações na fotografia.
“Eu vou para o Pantanal desde pequeno. É um dos biomas mais incríveis que a natureza pode ter. É o terceiro ou quarto reservatório de aves e pássaros do mundo. E fica a 100 km daqui de Cuiabá. Então é um universo que a gente quer explorar, quer divulgar e quer proteger".
Fotografar onças-pintadas, porém, exige mais do que disposição. É preciso paciência para enfrentar longas horas de espera, muitas vezes sem conseguir um único registro.
“Quando a gente sai, a gente sai bem cedo, preparado para ficar horas sem ver nada. É uma verdadeira caça às vezes, porque você fica no barco, horas, e não vai ver a onça. Ela é um bicho da natureza, tem seus hábitos. Você pode ficar às vezes 12 horas no barco, com o sol a pino, e voltar sem nenhuma fotografia”, relatou.
“Não é fácil, mas é divertido. Você se distrai, conversa com os outros, contempla o vento, a água, a natureza, o pássaro".
Para conseguir o clique perfeito, Spadoni afirma que combina intuição e planejamento, uma prática que compara à rotina dentro do centro cirúrgico.
“Assim como na cirurgia você planeja, você estuda o caso anteriormente. Quando você vai pro Pantanal pra uma imersão fotográfica, você já tem que ir com o plano A, B, C, se ela fizer isso, fizer aquilo, qual imagem que eu quero tirar dela, e a gente vai tentando se adaptar até conseguir a foto ideal".
Apesar da proximidade com animais selvagens, o cirurgião afirma que nunca enfrentou situações de perigo durante as expedições. Segundo ele, o respeito ao habitat natural é fundamental para garantir a segurança.
“Nunca tive nenhum perigo, não. É um passeio bem seguro, a gente é muito respeitoso, não se aproxima muito, respeita o habitat dela, entende a nossa posição dentro daquele ecossistema".

Na fotografia, a paisagem tá ali. Mas não necessariamente as condições do clima são as ideais. Pode estar chovendo, pode estar ventando, pode estar nublado
O olhar do cirurgião e do fotógrafo
Para Spadoni, a cirurgia plástica e a fotografia de paisagem estão longe de ser universos opostos. Segundo ele, as duas atividades exigem sensibilidade, paciência e atenção aos detalhes, além da capacidade de lidar com situações inesperadas.
“Tem muita coisa em comum. O olhar atento, a espera, as condições adversas que às vezes aparecem. Você tem que saber entender, observar, olhar e ter calma ali pra poder conseguir a foto ideal ou também conseguir resolver uma situação que às vezes nem sempre é a que você esperava”, afirmou.
O cirurgião explica que, assim como na medicina, a fotografia exige adaptação diante de circunstâncias que fogem ao planejamento. Para ele, cada imagem também carrega a percepção individual de quem está por trás das lentes.
“Na fotografia, a paisagem tá ali. Mas não necessariamente as condições do clima são as ideais. Pode estar chovendo, pode estar ventando, pode estar nublado. Você imaginou uma foto e a foto não vai acontecer. E nem por causa disso você não vai registrar aquele momento com um olhar individual. A paisagem está ali, todo mundo olha, todo mundo vê, todo mundo registra de diferentes maneiras. Mas o olhar individual é de cada um. A gente não pode generalizar tudo. As pessoas são individuais".
Ao se deparar com uma onça-pintada no Pantanal, Spadoni conta que a primeira reação é de admiração. Mais do que registrar a imponência do animal, ele busca revelar uma beleza que muitas vezes passa despercebida.
“O segundo é olhar, respirar, prestar atenção em algumas nuances. Não necessariamente ela é uma fera. Existe uma beleza por trás dela e o que eu tento retratar às vezes na fotografia é mais um olhar contemplativo da onça do que propriamente um registro de uma onça".
Reconhecimento internacional

Eu falo, até brinco, que eu sou mais reconhecido lá fora do que aqui. Graças a Deus, aqui eu sou médico
Representado pela galeria Arte Expertise, de Florença, na Itália, Spadoni já teve obras expostas em Londres e Cannes, além de participar de bienais. O reconhecimento internacional veio após conquistar prêmios em concursos de fotografia, o que despertou o interesse de galeristas, especialmente na Europa.
“Eu comecei a participar de concursos internacionais de fotografia e fui recebendo muitos prêmios. Isso chama a atenção de galeristas, principalmente no circuito europeu. Minha foto já rodou bastante. E teve vários lugares que eu nunca conheci, mas minhas fotos já".
Apesar das conquistas, o cirurgião afirma que a busca por reconhecimento nunca foi sua principal motivação. Para ele, tanto na medicina quanto na fotografia, a prioridade é entregar um trabalho de qualidade.
“Eu falo, até brinco, que eu sou mais reconhecido lá fora do que aqui. Graças a Deus, aqui eu sou médico. O reconhecimento é legal quando ele vem decorrente de um bom trabalho. Eu não trabalho buscando reconhecimento. Eu trabalho buscando entregar o meu melhor e fazer com que as outras pessoas fiquem satisfeitas. Isso é na medicina, assim como é na fotografia".
A conciliação entre as duas carreiras também costuma surpreender outros fotógrafos, que questionam como ele encontra tempo para se dedicar à arte. Spadoni explica que a fotografia funciona como uma válvula de escape diante das responsabilidades e da rotina intensa da medicina.
“Eles se surpreendem, porque normalmente as pessoas são dedicadas à fotografia. Eles falam: 'Nossa, mas como é que você consegue? Como é que você encontra tempo?' Aí eu falo: 'Cara, eu uso como válvula de escape'. A gente tem um trabalho intenso, denso, com muita responsabilidade, e às vezes a gente precisa de um respiro, de um suspiro, até pra continuar entregando o melhor sempre. E a hora desse suspiro, ou é momento em família, ou é tirando foto".
Preservação do Pantanal
Questionado sobre o papel da fotografia como instrumento de denúncia das ameaças ambientais ao Pantanal, Spadoni afirma que prefere não utilizar suas imagens como forma de protesto. Embora defenda a preservação do bioma, ele busca transmitir tranquilidade e contemplação por meio de seus registros.
“Eu prefiro não me meter nesses assuntos, pra ser bem sincero. Eu levo fotografia leve. Eu não tento fazer política com ela. Eu tento trazer dela uma calma, uma tranquilidade. Mas a gente não é cego, a gente vê as coisas acontecendo e a gente apoia, sim, causas de proteção do Pantanal".
O fotógrafo ressalta que a preservação da fauna e da flora pantaneiras é fundamental e defende o diálogo para conciliar a conservação ambiental com as atividades produtivas.
“O Pantanal é importante não só pra gente do Mato Grosso, mas pro Brasil inteiro e pro Cerrado inteiro. Eu acho que as onças precisam ser protegidas, não só elas, como as aves e tudo mais. E eu acho que essa vivência entre preservar e produzir tem um caminho único e que pode ser bem feito, desde que todos se conversem e tentem chegar a uma solução que agrade aos dois lados".
Spadoni reforça que sua proposta artística está voltada à fotografia fine art, modalidade que valoriza a expressão estética e autoral, com imagens concebidas como obras de arte.
“Na fotografia eu não tento fazer protesto, nem tento abraçar causas. Eu sou um fotógrafo que a gente coloca como fine art. Eu tento trazer uma arte para dentro da casa das pessoas, não uma bandeira de protesto".
Duas carreiras, uma agenda

Muita gente me questiona isso. Já vieram até me perguntar se eu abandonei a cirurgia plástica. Eu jamais vou abandonar a cirurgia plástica
Conciliar a rotina intensa da medicina com viagens e exposições fotográficas exige planejamento e organização. Spadoni conta que a maior parte de seu tempo continua dedicada à cirurgia plástica e que as expedições são programadas com antecedência para não comprometer o atendimento aos pacientes.
“80% do nosso tempo hoje é baseado na medicina e na cirurgia plástica. A gente programa com muita antecedência e consegue organizar a agenda do consultório, os pacientes, os pós-operatórios, para que você tenha ali um período de uma semana a dez dias para se dedicar basicamente só à fotografia".
Apesar do reconhecimento conquistado no universo da fotografia, o cuiabano descarta abandonar a medicina. Ele afirma que a cirurgia plástica continua sendo sua principal paixão, mas reconhece que a arte vem conquistando cada vez mais espaço em sua vida.
“Muita gente me questiona isso. Já vieram até me perguntar se eu abandonei a cirurgia plástica. Eu jamais vou abandonar a cirurgia plástica. É o que eu escolhi pra mim, é o que eu estudei, eu me dediquei, é o que eu amo fazer. A fotografia está acontecendo. Eu não me vejo fazendo outra coisa a não ser cirurgia plástica, mas eu percebo sim que a fotografia está ganhando espaço e que eu consigo tranquilamente levar as duas coisas".
"A Beira"

Juntar essas três narrativas em uma exposição que tem uma linha coesa não foi um trabalho fácil, mas foi muito divertido
A exposição no Museu da Caixa d'Água Velha surgiu a partir de um convite da Secretaria Municipal de Turismo de Cuiabá. Spadoni ficou responsável pela curadoria da mostra, que reúne seus trabalhos e os dos fotógrafos Marcos Mesquita e Flávio André.
“Coube a mim fazer a curadoria da exposição. Foi um desafio que eu aceitei de bom grado, estudei bastante para conseguir montar algo que ficasse à altura do trabalho dos dois".
O tema “A Beira” foi idealizado pelo próprio cirurgião, que buscou reunir três perspectivas distintas sobre o Pantanal em uma única narrativa. Enquanto Flávio André retrata a grandiosidade do bioma, Marcos Mesquita registra o cotidiano das comunidades ribeirinhas e Spadoni aposta em imagens que transmitem silêncio e contemplação.
“A beira é onde quase tudo acontece. São três fotógrafos com olhares totalmente diferentes. O Flávio André tem uma visão panorâmica do bioma, ele sempre tira uma foto do alto, mostrando a imensidão, a grandiosidade da natureza. O Marcos Mesquita já é mais documentarista, ele tira foto do dia a dia e da lida das pessoas. Eu já procuro silêncio. Eu sou mais a contemplação. Juntar essas três narrativas em uma exposição que tem uma linha coesa não foi um trabalho fácil, mas foi muito divertido".
A mostra foi organizada em quatro etapas, que retratam desde a natureza intocada até a ocupação humana às margens dos rios e o retorno da vegetação aos espaços deixados para trás.
“A primeira é o silêncio, como é a natureza, como ela é grande. A segunda é a chegada, como o ser humano chega na beira do rio e vai se instalando. A terceira é a vida, como a vida é dos ribeirinhos. E o quarto é quando o humano vai embora, o que fica e como a natureza toma aquilo de volta".
A escolha do Museu da Caixa d'Água Velha também carrega um significado especial. Segundo Spadoni, o espaço estabelece uma conexão histórica com a proposta da exposição, ao resgatar a relação de Cuiabá com o rio que marcou o desenvolvimento da cidade.
“O Museu da Caixa d'Água era a caixa d'água antiga da cidade, do século XIX, era onde se armazenava a água do rio para que a cidade tivesse água. Então, nada mais justo que fazer exposição contando a relação da cidade com o rio".
Ao refletir sobre o que a fotografia revelou sobre si mesmo, Spadoni diz que a nova paixão o ajudou a compreender melhor sua própria essência e a relação entre a arte e a medicina. Para ele, ambas têm em comum a possibilidade de acompanhar e registrar transformações.
“Eu acho que a fotografia deixou mais claro pra mim como eu gosto de participar da transformação. A escolha da cirurgia plástica é justamente isso: ajudar as pessoas a reencontrarem sua autoestima e isso é um processo de transformação. A fotografia me deu esse olhar para eu identificar isso".
Entre os planos para o futuro, o cirurgião revela o desejo de desenvolver um projeto fotográfico sobre as igrejas históricas de Cuiabá e a influência delas na formação da cidade. A intenção é transformar os registros em um livro.
Spadoni, inclusive, já possui um livro fotográfico reconhecido internacionalmente. A obra, dedicada à Serra do Amolar, no Pantanal, foi selecionada entre os 40 melhores livros em um concurso internacional e integra o acervo do Museu Griffin de Fotografia, em Wisconsin, nos Estados Unidos.
Serviço:
Exposição "A Beira" — com Bruno Spadoni, Marcos Mesquita e Flávio André
Local: Museu da Caixa d'Água Velha, Cuiabá
Período: 7 de novembro a 30 de dezembro
Horário: 8h às 17h
Entrada gratuita
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