Ex-presidente do Paraguai está preso em quarto e com celular
Brasília - O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña cumpre prisão preventiva em um dormitório comum do Regimento Escolta Presidencial (REP), em Assunção, com liberdade para usar o celular e receber visitas. Segundo o comandante da unidade, coronel José Dayub, o quarto tem uma porta comum com chave, sem grades, e o quartel não dispõe de instalações penitenciárias nem abriga outros presos. “É só mais um dormitório”, disse Dayub neste domingo (8/11) à rádio 1020 AM do Paraguai.
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As condições seguem a decisão judicial, que garante a Peña a “livre comunicação”. A família vai levar as refeições ao quartel, e o comando ainda consulta se a medida permite que ele caminhe pelo terreno da unidade militar.
Peña, de 47 anos, foi destituído pelo Senado em 6 de novembro, por 44 votos a favor e uma ausência, três dias depois da intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, um dos maiores bancos do país, com o qual mantinha vínculos. Na véspera, ele havia tentado renunciar, mas os deputados do Partido Colorado, sigla do próprio Peña, deixaram o plenário durante a votação e a sessão caiu por falta de quórum. O vice Pedro Alliana assumiu a Presidência no mesmo dia e prometeu compensar integralmente os poupadores afetados.
Preso logo após a destituição, Peña deveria ficar em casa, mas os protestos levaram a Polícia Nacional a transferi-lo para o REP. Em 7 de novembro, ele se recusou a depor na Promotoria e no tribunal, e o juiz Humberto Otazú decretou a prisão preventiva pedida pelos promotores, que apontaram risco de fuga por causa de residências e contas no exterior. Ele é acusado de lesão de confiança e administração em proveito próprio, crimes que, somados, podem render até 15 anos de prisão, segundo a Promotoria. O juiz também bloqueou bens e contas de Peña e do ex-presidente do BCP Carlos Carvallo, preso no mesmo caso.
No Palácio de Justiça, Peña reagiu ao ser algemado, como exige o protocolo para presos. “Não pode ser, sou um ex-presidente da República”, reclamou, segundo o jornal paraguaio “ABC Color”.
Sócio do grupo dono do banco
A Promotoria calcula o prejuízo em US$ 809,5 milhões, valor que corresponde aos depósitos de órgãos públicos no Ueno até setembro. Entre 2023 e 2026, o banco recebeu dinheiro do Instituto de Previdência Social (IPS), da Itaipu Binacional, da Yacyretá, da estatal de energia Ande e de caixas de aposentadoria, enquanto concedia crédito de forma irregular a empresas do próprio grupo.
Segundo a acusação, Peña comprou ações da Credicentro, que depois virou Ueno Holding, em março de 2019, durante a campanha presidencial. Já na Presidência, em 2023, tinha 1,58% da holding, além de um certificado de depósito no Ueno Bank e um título da empresa Itti. Ele resgatou as ações em 22 de março de 2025, mas manteve o certificado e o título. O irmão dele, Francisco Peña Palacios, entrou como sócio da empresa de Luxemburgo que controlava o banco em 20 de março de 2024.
Para comandar o BCP, Peña nomeou Carvallo, que presidiu a Financiera Ueno até 14 de agosto de 2023, véspera da posse. A partir daí, o Ueno obteve licença bancária, absorveu o Visión Banco e passou a concentrar cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos. A Promotoria também aponta que Peña recebeu o então presidente do IPS, Jorge Brítez, em 22 e 27 de agosto de 2024, e que, dois dias depois do segundo encontro, o conselho do instituto aprovou a compra de 250 bilhões de guaranis em títulos do Ueno.
Em 13 de maio de 2024, o banco concedeu a Peña dois empréstimos para a construção de sua casa em San Bernardino, com parcelas equivalentes a seis vezes o salário presidencial. A acusação ainda cita US$ 200 mil em dinheiro vivo guardados na residência oficial e entregues ao então presidente em 17 de junho de 2025, caso revelado pelo “ABC Color”.
Defesa nega ordens
O advogado Ricardo Preda classificou a preventiva como desnecessária, já que Peña está fora do cargo, e afirmou que cada órgão decide com base em critérios técnicos onde deposita seus recursos. Segundo ele, as defesas públicas do Ueno feitas pelo ex-presidente apenas repassavam informações do BCP para evitar pânico, e Peña vendeu as ações entre o fim de 2024 e o início de 2025, sem nunca ter sido acionista direto do banco. Preda disse esperar o arquivamento do caso.
Carvallo responde ainda por falsidade em documento público, por ter enviado ao Senado, em 7 de outubro, um informe que divergia dos alertas técnicos registrados no próprio BCP sobre o banco.
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