O Diário de SP
08/11/2026 13:00

PF prepara saída de dois delegados do caso Banco Master em meio a mudanças na investigação

A Polícia Federal (PF) prepara a substituição de dois delegados que ocupam postos de comando na estrutura responsável pelas investigações sobre o Banco Master, instituição financeira ligada ao empresário Daniel Vorcaro. Daniel Mostardeiro Cola e Wedson Cajé Lopes foram informados, na sexta-feira (6), de que deixarão suas funções na Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro (CGRC). A mudança, divulgada no sábado (7), ocorre em um momento de reorganização das apurações no Supremo Tribunal Federal (STF) e de avanço da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Daniel Mostardeiro Cola ocupa a chefia da coordenação-geral, enquanto Wedson Cajé Lopes atua como seu principal subordinado na estrutura. A saída dos dois deverá provocar uma mudança na direção administrativa da área responsável por acompanhar investigações de crimes financeiros e corrupção, incluindo os procedimentos relacionados ao Banco Master.

Segundo informações divulgadas por integrantes da corporação, os delegados receberam a comunicação sobre a substituição na noite de sexta-feira e compartilharam a decisão em um grupo de mensagens de policiais federais. Até a apuração realizada neste domingo (8), não foi localizada publicação oficial das exonerações nem confirmação pública da Polícia Federal sobre os nomes dos substitutos.

A mudança não significa que os delegados serão demitidos da instituição. Ambos são servidores de carreira e a exoneração dos cargos de chefia, caso formalizada, representa o desligamento das funções de direção, com a consequente perda das gratificações correspondentes. A permanência no quadro da Polícia Federal não depende da manutenção desses postos.

A decisão provocou insatisfação entre integrantes da corporação, conforme relatos divulgados sobre as mudanças. Um dos delegados teria manifestado a intenção de retornar ao Rio Grande do Sul, enquanto o outro ainda não teria definido seus próximos passos profissionais. As informações não foram acompanhadas de manifestações públicas dos dois policiais.

A substituição ocorre poucos dias depois do segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro, que resultou na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não há, entretanto, elementos públicos que permitam estabelecer uma relação entre o resultado eleitoral e a mudança na coordenação da Polícia Federal. Também não foi apresentada uma justificativa oficial para a saída dos delegados.

A alteração na estrutura da corporação acontece enquanto as investigações sobre o Banco Master atravessam uma etapa importante. Em 28 de outubro, a Polícia Federal encaminhou ao STF um relatório parcial do Inquérito nº 5.026, relacionado à primeira e à quarta fases da Operação Compliance Zero. O documento formalizou o indiciamento de 15 pessoas por suspeitas de diferentes crimes, entre eles gestão fraudulenta de instituição financeira, falsidade em informações contábeis, organização criminosa e lavagem de capitais.

Entre os indiciados estão Daniel Vorcaro e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. O indiciamento representa uma conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de autoria e materialidade de crimes, mas não equivale a denúncia apresentada pelo Ministério Público nem a condenação judicial.

No mesmo relatório, a Polícia Federal solicitou a prorrogação do prazo das investigações por mais 60 dias para concluir exames periciais e diligências complementares. A corporação informou que as conclusões apresentadas estavam fundamentadas nos elementos probatórios considerados suficientemente consolidados até aquele momento, sem prejuízo da continuidade das apurações.

O pedido de ampliação do prazo demonstra que, apesar dos indiciamentos, ainda existem procedimentos investigativos pendentes. A troca de comando poderá exigir a reorganização das responsabilidades administrativas e o repasse de informações às novas chefias, embora não haja confirmação de que a medida tenha provocado atrasos ou interrupção das investigações.

O caso Master tem origem em suspeitas de irregularidades nas operações financeiras entre o banco de Daniel Vorcaro e o BRB. De acordo com informações oficiais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, as apurações começaram em 2024, após requisição do Ministério Público Federal, e identificaram indícios de criação de carteiras de crédito sem lastro que teriam sido negociadas entre as instituições.

A investigação aponta que esses ativos teriam sido posteriormente substituídos por outros sem avaliação técnica adequada, após a identificação de inconsistências pelo Banco Central. A Polícia Federal passou a investigar a atuação dos responsáveis pelas operações, a movimentação dos recursos e a possível participação de agentes públicos no esquema.

Na primeira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão e efetuadas sete prisões, além do bloqueio de R$ 1,3 bilhão. Em janeiro de 2026, uma nova etapa resultou em 42 mandados de busca e apreensão, uma prisão e bloqueios de aproximadamente R$ 6 bilhões, conforme balanço divulgado pelo Ministério da Justiça.

As apurações avançaram para outros possíveis delitos relacionados ao sistema financeiro. Em julho, a décima fase da operação investigou suspeitas de atuação coordenada em redes sociais para comprometer a credibilidade do Banco Central. A Polícia Federal também identificou indícios de intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, obtenção indevida de informações sigilosas e possíveis tentativas de interferência em investigações criminais.

Além das apurações policiais, o caso passou a provocar disputas processuais no STF. Em setembro, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, assumiu provisoriamente a condução de procedimentos relacionados ao Banco Master, após o surgimento de referências a autoridades com prerrogativa de foro e questionamentos sobre a condução das investigações.

A reorganização ocorreu em meio a divergências envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. Parte das controvérsias está relacionada ao tratamento de informações obtidas nas investigações e aos limites da atuação policial em procedimentos que possam envolver integrantes do próprio Supremo.

Em 13 de outubro, Fachin recebeu o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para discutir questões relacionadas aos inquéritos do Banco Master. Conforme nota oficial divulgada pela corporação, o presidente do STF ressaltou que eventuais investigações de ministros da Corte dependem de autorização do plenário, observadas as normas constitucionais e legais.

Na ocasião, também ficou estabelecido que a autoridade policial deve encaminhar todas as referências encontradas a integrantes do tribunal, acompanhadas de seu contexto, de maneira estritamente descritiva. A eventual abertura de investigações dependerá de deliberação judicial, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em 29 de outubro, Fachin decidiu devolver a Operação Sem Desconto, relacionada às investigações sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), à relatoria de André Mendonça. Entretanto, manteve provisoriamente sob responsabilidade da Presidência do STF os procedimentos da Operação Compliance Zero, referentes ao Banco Master.

A decisão estabeleceu que a atuação da Presidência nas investigações do Master permanecerá limitada a medidas urgentes, como a revisão de prisões preventivas. O prazo máximo previsto é de 90 dias, contados a partir de 12 de setembro, sujeito à ocorrência de outros eventos processuais que possam antecipar a reavaliação da competência. O próprio Supremo informou que a decisão ainda será submetida ao plenário.

Outro desenvolvimento ocorreu na sexta-feira (6), quando Fachin manteve a prisão preventiva de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e investigado na Operação Compliance Zero. O ministro considerou que permanecem os fundamentos relacionados à preservação da ordem pública, à instrução criminal e à aplicação da lei penal.

Segundo as investigações, Zettel teria atuado na movimentação de recursos e na articulação de pagamentos vinculados às atividades ilícitas apuradas. A defesa havia solicitado a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares ou prisão domiciliar, mas o pedido foi rejeitado. A decisão demonstra que o STF continua analisando medidas judiciais relacionadas ao caso, mesmo durante a definição sobre a condução dos procedimentos.

A substituição de Daniel Mostardeiro Cola e Wedson Cajé Lopes acrescenta uma mudança administrativa a esse cenário. A coordenação atingida pela decisão tem atribuições relacionadas à repressão a crimes financeiros, corrupção e lavagem de dinheiro, atividades que envolvem investigações de elevada complexidade e análise de documentos bancários, movimentações financeiras e elementos obtidos em operações policiais.

Até o momento, não há confirmação pública de que os dois delegados sejam investigados disciplinarmente ou de que suas saídas tenham sido determinadas em razão dos vazamentos de informações sigilosas. Também não foram apresentados elementos que permitam atribuir a mudança a interferência política ou a pressões de autoridades envolvidas nos procedimentos.

Permanecem indefinidos os nomes dos novos responsáveis pela coordenação, a data de formalização das exonerações e os motivos administrativos que levaram à decisão. A continuidade das investigações sobre o Banco Master, por sua vez, dependerá das diligências ainda pendentes, da análise dos elementos encaminhados pela Polícia Federal e das decisões do STF e da Procuradoria-Geral da República sobre os próximos encaminhamentos do caso.

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