O Diário de SP
08/11/2026 14:00

Presidente do Supremo da Bolívia deixa país após ordem de prisão por tráfico de drogas; Brasil é possível destino

O presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Bolívia, Romer Saucedo, anunciou que deixou o país com a família após a emissão de uma ordem de prisão por suspeita de tráfico de drogas e organização criminosa. O mandado foi expedido em 3 de novembro de 2026, um dia antes de o magistrado declarar que estava no exílio. A Procuradoria-Geral boliviana investiga a possibilidade de ele ter entrado no Brasil por via terrestre, mas ainda não confirmou oficialmente sua localização. O caso provocou uma mudança temporária no comando da mais alta instância da Justiça comum boliviana e abriu a possibilidade de uma busca internacional pelo magistrado.

A ordem de prisão foi confirmada pelo procurador-geral interino da Bolívia, José Armando Urioste. Segundo o Ministério Público, a investigação envolve suspeitas de tráfico de substâncias controladas e participação em organização criminosa. O documento expedido pela comissão de promotores menciona o artigo 48 da Lei 1008, que trata do combate ao narcotráfico, e dispositivos do Código Penal boliviano relacionados à criminalidade organizada.

A investigação foi colocada sob sigilo temporário devido à participação de testemunhas protegidas. A medida limita a divulgação das provas reunidas, das circunstâncias dos supostos crimes e da eventual participação de Saucedo. Até o momento, os detalhes apresentados publicamente não permitem estabelecer quais condutas específicas teriam sido praticadas pelo magistrado. A existência do mandado representa uma medida investigativa e não uma condenação judicial.

O paradeiro de Saucedo tornou-se um dos principais pontos da investigação. Em 6 de novembro, Urioste informou que havia indícios de que o magistrado pudesse estar em alguma cidade brasileira. A Procuradoria também acionou mecanismos de alerta migratório para tentar identificar seus deslocamentos e verificar se houve saída irregular do território boliviano.

A ausência de um registro migratório conclusivo levantou dúvidas sobre o trajeto utilizado. Informações preliminares indicam a possibilidade de deslocamento terrestre em direção ao Brasil, embora as autoridades não tenham apresentado comprovação oficial da travessia nem identificado a cidade onde Saucedo estaria. O ministro de Governo da Bolívia, Marco Antonio Oviedo, afirmou que o magistrado não estava submetido a uma restrição migratória que o impedisse de viajar quando sua saída se tornou conhecida.

A Procuradoria boliviana também iniciou procedimentos para solicitar uma notificação vermelha à Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol). O mecanismo permite comunicar às autoridades policiais de diferentes países que determinada pessoa é procurada para localização e eventual prisão provisória, conforme as regras aplicáveis em cada território. A notificação, entretanto, não equivale automaticamente a um mandado internacional de prisão executável em qualquer país.

Até as informações verificadas neste domingo (8), não havia confirmação pública de que uma notificação vermelha tivesse sido efetivamente publicada pela Interpol. As declarações oficiais disponíveis tratavam da preparação dos procedimentos necessários para o acionamento da cooperação internacional.

A eventual localização de Saucedo no Brasil poderá abrir uma nova etapa do caso. O procurador-geral interino declarou que, após o avanço dos procedimentos judiciais e uma possível declaração de rebeldia, as autoridades poderão avaliar medidas para solicitar sua extradição. Esse procedimento dependeria de um pedido formal e da análise jurídica pelas autoridades brasileiras, observadas as normas nacionais e os acordos internacionais aplicáveis.

A saída do magistrado também foi acompanhada de acusações políticas. Em comunicado divulgado nas redes sociais em 4 de novembro, Saucedo afirmou que deixou a Bolívia acompanhado da esposa e dos três filhos por considerar que sua liberdade e a segurança da família estavam ameaçadas. Ele acusou o governo do presidente Rodrigo Paz de promover uma perseguição política e sustentou que poderiam ser produzidas provas falsas para prejudicá-lo.

As declarações representam a versão apresentada por Saucedo e não foram acompanhadas de comprovação pública das supostas ameaças ou da alegada fabricação de provas. A administração de Rodrigo Paz rejeita a caracterização das investigações como perseguição política. As autoridades bolivianas sustentam que os procedimentos judiciais devem seguir seu curso.

O caso ocorre em meio a investigações mais amplas envolvendo integrantes do sistema de Justiça da Bolívia. O ex-procurador-geral Roger Mariaca foi preso após ser associado a suspeitas de corrupção e facilitação de atividades criminosas. Autoridades dos Estados Unidos também anunciaram medidas contra Mariaca, acusado de receber pagamentos indevidos para favorecer operações ligadas ao narcotráfico e auxiliar criminosos a escapar da Justiça.

Questionado sobre uma possível relação entre as investigações envolvendo Saucedo e Mariaca, Urioste respondeu afirmativamente. Contudo, não apresentou detalhes suficientes para esclarecer a natureza dessa ligação ou estabelecer uma atuação conjunta dos dois investigados. A distinção é relevante porque a existência de apurações relacionadas não comprova, por si só, participação nos mesmos crimes.

Além da investigação por narcotráfico, Saucedo enfrenta outros procedimentos mencionados pela Procuradoria na região de Santa Cruz. O Ministério Público informou que existem pelo menos duas causas sob apuração, sem apresentar publicamente todos os seus objetos. A possibilidade de novos desdobramentos permanece condicionada ao avanço das investigações e à divulgação de informações oficiais.

Na sexta-feira (6), Urioste também esclareceu que os supostos crimes de narcotráfico atribuídos ao magistrado deverão ser examinados pela Justiça criminal comum, por não estarem diretamente relacionados ao exercício das atribuições institucionais da presidência do TSJ. Eventuais acusações relacionadas ao desempenho do cargo, como suspeitas de corrupção, poderão exigir procedimentos distintos, conforme a legislação boliviana.

A crise também atingiu o funcionamento do Tribunal Supremo de Justiça. Diante da ausência de Saucedo, os magistrados designaram Rosmery Ruiz Martínez, decana da corte, para exercer temporariamente a presidência da instituição. A substituição foi anunciada em 4 de novembro, com o objetivo de preservar a continuidade administrativa e jurisdicional do tribunal.

A mudança ocorre em uma instituição cujo processo de composição apresenta uma particularidade relevante. Na Bolívia, os magistrados das principais cortes são escolhidos por voto popular. Saucedo conquistou uma vaga representando Santa Cruz nas eleições judiciais realizadas em 2024 e, posteriormente, foi escolhido pelos demais integrantes do tribunal para assumir sua presidência.

A ausência do magistrado poderá produzir novas consequências institucionais. O tribunal estabeleceu um prazo para seu retorno às funções, e a permanência fora do cargo poderá levar à análise de medidas administrativas relacionadas à continuidade de seu mandato. A eventual perda definitiva da presidência, entretanto, depende dos procedimentos e das decisões competentes.

O episódio coloca simultaneamente em discussão a atuação das instituições judiciais bolivianas, a capacidade das autoridades de localizar um investigado de alta posição institucional e os mecanismos de cooperação penal entre países vizinhos.

Para o Brasil, a principal consequência dependerá da confirmação de que Saucedo esteja efetivamente em território nacional. Nesse cenário, as autoridades brasileiras poderão ser acionadas por meio dos instrumentos formais de cooperação internacional. A eventual prisão ou extradição exigirá o cumprimento dos procedimentos legais correspondentes.

Até este domingo (8), permaneciam sem confirmação pública a localização exata de Saucedo, a rota utilizada para deixar a Bolívia, a emissão definitiva de uma notificação vermelha da Interpol e a apresentação de um pedido formal de extradição ao Brasil. O magistrado continua sendo tratado como investigado, e as acusações deverão ser submetidas à avaliação judicial.

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