Campo Grande News
08/11/2026 14:25

Justiça de MS economiza R$ 4,7 milhões e vira referência em sustentabilidade

Com energia solar, inteligência artificial e mudanças na rotina de trabalho, Tribunal de Justiça chega ao quinto lugar em sustentabilidade e ganha reconhecimento por projetos de inovação. Reduzir o consumo de papel, economizar energia, diminuir deslocamentos e usar inteligência artificial para facilitar o atendimento à população. Medidas que parecem simples, mas que, reunidas, ajudaram o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) a dar um salto de 21 posições em um ranking nacional de sustentabilidade. Em apenas dois ciclos de avaliação, o Judiciário sul-mato-grossense saiu do 26º para o 5º lugar entre os tribunais estaduais no Índice de Desempenho da Sustentabilidade (IDS), elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O resultado, divulgado em agosto deste ano, colocou Mato Grosso do Sul entre os cinco melhores do país no indicador. A mudança não aconteceu da noite para o dia, tampouco dependeu de uma única iniciativa. Foi resultado de uma combinação de tecnologia, economia de recursos públicos e participação de magistrados e servidores. Na gestão do presidente do TJMS, desembargador Dorival Renato Pavan, diferentes setores passaram a atuar de forma integrada para identificar desperdícios, melhorar procedimentos e encontrar soluções que também beneficiassem a população. Uma das responsáveis pela articulação desse trabalho é a juíza auxiliar da Presidência Joseliza Alessandra Vanzela Turine, coordenadora da Comissão Gestora do Plano de Logística Sustentável. “O trabalho envolveu desde a redução do consumo de papel e de copos descartáveis até a utilização de energia renovável, o gerenciamento de resíduos, a acessibilidade e a capacitação de servidores”, explica. Menos papel, menos combustível Um exemplo de como a tecnologia pode produzir resultados práticos está no e-Mandados, aplicativo desenvolvido pelo próprio Tribunal para modernizar o trabalho dos oficiais de Justiça. Antes, o cumprimento das ordens judiciais exigia uma quantidade maior de documentos impressos. Com o aplicativo, os profissionais passaram a receber e consultar mandados digitalmente, utilizando pequenas impressoras térmicas quando necessário. O resultado inicial foi uma redução de aproximadamente 50% no consumo de papel relacionado ao procedimento. Mas a economia não parou nas impressoras. O sistema também permite organizar melhor os trajetos dos oficiais de Justiça, evitando deslocamentos desnecessários e facilitando o atendimento de novas demandas próximas aos locais onde já estão trabalhando. Na prática, menos combustível, menos tempo perdido no trânsito e mais agilidade no cumprimento das decisões judiciais. Joseliza participou da implantação da ferramenta em Campo Grande, quando era diretora do Foro. Posteriormente, a tecnologia foi expandida para o interior do Estado. O sol ajuda a pagar a conta  Outro resultado expressivo aparece na conta de energia elétrica. Somente em 2025, o TJMS economizou mais de R$ 4,7 milhões com a utilização de energia solar. Os 54 sistemas fotovoltaicos instalados produziram aproximadamente 9,5 milhões de quilowatts-hora, quantidade equivalente a cerca de 90% de toda a energia consumida pelas unidades judiciais e administrativas naquele ano. O projeto começou em 2022, com implantação realizada em etapas até 2024, e passou a integrar o acompanhamento dos indicadores de sustentabilidade na atual gestão. A mudança também chegou aos hábitos mais simples. O Tribunal instalou filtros de água em unidades de grande circulação, reduziu a utilização de copos descartáveis, incentivou recipientes reutilizáveis e adotou medidas para melhorar o gerenciamento de resíduos. A frota de veículos também passou por mudanças, com a utilização de modelos mais eficientes e híbridos. Nem tudo, porém, está resolvido. O consumo de água continua sendo um desafio, especialmente porque muitos prédios do Judiciário possuem extensas áreas ajardinadas que precisam de irrigação. A magistrada observa que esses espaços também contribuem para a permeabilidade do solo e a drenagem da água das chuvas. Por isso, o Tribunal defende que os critérios nacionais de avaliação considerem não apenas o volume consumido, mas também os benefícios ambientais dessas áreas. Inteligência artificial a serviço do cidadão A modernização ultrapassou a preocupação com o meio ambiente e chegou ao atendimento judicial. Um dos projetos desenvolvidos em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) é a Atermação Assistida por Inteligência Artificial (AIA). A ferramenta transforma relatos apresentados pelos cidadãos, por escrito ou por voz, em documentos estruturados para o atendimento judicial. Além de facilitar o acesso à Justiça, a tecnologia demonstrou potencial para reduzir o trabalho de digitação dos servidores, liberando tempo para outras atividades. Outra iniciativa é o Conecta Promuse, desenvolvido em cooperação com a Polícia Militar e a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, dirigida pela desembargadora Sandra Artioli. O aplicativo permite que policiais registrem o acompanhamento de mulheres com medidas protetivas e encaminhem informações diretamente ao processo judicial, reduzindo etapas burocráticas e agilizando a comunicação. O projeto recebeu reconhecimento nacional na categoria Destaque do Prêmio Innovare de 2026. O Tribunal também trabalha na implantação do sistema eproc, acompanhada de capacitação de magistrados e servidores. Para Joseliza, a tecnologia precisa ser uma aliada, não um obstáculo para quem trabalha ou procura atendimento. “A tecnologia tem que ser utilizada como aliada das pessoas”, afirma. Mudança começa nas pessoas Apesar dos investimentos em equipamentos e sistemas, a juíza considera que a transformação mais importante depende do comportamento de quem trabalha no Judiciário. Por isso, o TJMS passou a investir em cursos, oficinas, encontros virtuais e atividades de educação socioambiental. Uma das iniciativas é a Gincana da Sustentabilidade, que mobiliza unidades judiciais e administrativas em desafios relacionados ao consumo consciente e à responsabilidade ambiental. Os participantes acumulam pontos, compartilham experiências e colocam em prática medidas que podem ser reproduzidas em outros setores. “Não adianta a gente querer melhorar um índice de desempenho de sustentabilidade sem disseminar a cultura da sustentabilidade”, observa Joseliza, que iniciou estudos de doutorado em Biodiversidade e Biotecnologia em 2013. A preocupação ambiental também ganhou uma estrutura específica. Em fevereiro de 2025, Dorival Renato Pavan instituiu o Grupo do Meio Ambiente do Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul, que conta entre seus integrantes com o desembargador Alexandre Raslan. Reconhecimento nacional Os avanços também levaram o TJMS à lista de finalistas da 7ª edição do Prêmio de Inovação J.Ex 2026, que reconhece iniciativas de modernização do sistema de Justiça brasileiro. Dorival Renato Pavan concorre na categoria Liderança Exponencial, enquanto Joseliza Alessandra Vanzela Turine disputa o reconhecimento como Executivo de Inovação. O Tribunal também é finalista na categoria Laboratórios de Inovação, com o projeto de Atermação Assistida por Inteligência Artificial. A votação popular para as categorias individuais será realizada entre os dias 13 e 16 de novembro. Para participar, é necessário fazer cadastro prévio até as 18h do dia 10 de novembro, pelo site oficial da premiação. Os projetos serão avaliados por uma comissão especializada, e a cerimônia está marcada para o dia 16, em São Paulo. Para o presidente da Associação dos Magistrados de Mato Grosso do Sul (Amamsul), Mário José Esbalqueiro Júnior, os resultados demonstram a importância do trabalho coletivo e da disposição para rever procedimentos antigos. Mais do que conquistar posições em rankings ou disputar prêmios, a experiência mostra que modernizar o serviço público não significa apenas comprar equipamentos ou instalar programas de computador . Significa utilizar melhor o dinheiro público, reduzir desperdícios, valorizar servidores e oferecer respostas mais rápidas à sociedade. Afinal, uma Justiça mais sustentável não é apenas aquela que consome menos papel e energia. É também aquela que consegue gastar melhor, trabalhar com mais eficiência e estar mais próxima de quem precisa dela.
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