MP denuncia 18 por lavagem de dinheiro ligada ao PCC em SP
O Ministério Público de São Paulo denunciou 18 pessoas sob a acusação de participação num suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
Empresas de comércio e locação de veículos, distribuidoras de medicamentos, supermercados, açougues, transportadores, construtoras e empresas de tecnologia da região metropolitana de São Paulo teriam sido usados no esquema, segundo a denúncia apresentada à Justiça na última terça-feira (3).
Advogados de defesa dos denunciados afirmam que não houve lavagem de dinheiro, que a Promotoria trata como crime situações lícitas e regulares, e que a origem dos valores pode ser comprovada.
A denúncia é um desdobramento da Operação Falso Mercúrio, deflagrada pela Polícia Civil em dezembro de 2025, que levou ao bloqueio de R$ 6 bilhões no patrimônio de investigados.
Além dos denunciados nessa última fase, há outros 17 réus em dois processos ligados à operação que respondem por acusações de tráfico de drogas, exploração ilegal de jogos de azar, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Grupo teria movimentado mais de R$ 98 milhões
Segundo a Promotoria de Justiça atuante perante a Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro da capital, o grupo denunciado participou da movimentação clandestina de mais de R$ 98 milhões em três anos, que teriam origem no tráfico de drogas e na exploração de máquinas caça-níqueis.
O valor tem como base a análise de documentos encontrados com os suspeitos. Um relatório policial aponta que o total movimentado pelo grupo seria ainda maior. As defesas apontam que a investigação não comprovou a origem ilícita de todos os valores citados.
A denúncia tem como foco os suspeitos de serem intermediários, coletores de dinheiro e laranjas do esquema.
A promotoria afirma que todos contribuíam para o funcionamento de um serviço criminoso que visava esconder a origem do dinheiro, os controladores das contas bancárias e os beneficiários finais. Os investigados considerados coordenadores do esquema já são réus nos outros processos.
Investigação aponta esquema de compra de dinheiro
No cerne da investigação está a prática da “compra de dinheiro”: suspeitos recebiam grandes quantidades de dinheiro vivo e, em contrapartida, faziam depósitos bancários a pessoas e empresas indicadas pelos fornecedores do numerário. Eram cobradas comissões que variavam de 1,5% a 4% pelas operações.
Entre as firmas investigadas estão 13 empresas que firmaram ao menos 66 contratos com 11 prefeituras do estado de São Paulo num período de quatro anos. Os contratos e seus aditivos correspondem a R$ 522,3 milhões repassados dos cofres municipais para essas companhias suspeitas.
“Empresários simulavam relações comerciais fictícias, sem lastro real, remetendo valores teoricamente lícitos de seu faturamento via transações bancárias a narcotraficantes, exploradores de jogos de azar e até de sonegadores de tributos”, escreveu a promotora Fabíola Cezarini.
A investigação afirma que parte desses valores devolvidos em depósitos bancários era mesclada com o faturamento de atividades econômicas regulares, com a intenção de dificultar a fiscalização dos órgãos de controle.
Empresário é apontado como coordenador do esquema
Eduardo Moreno Lopes, sócio de uma rede de postos de gasolina, é apontado como coordenador do esquema. A promotoria afirma que ele operava contas bancárias de empresas registradas em nome de terceiros para conseguir fazer a troca de dinheiro vivo por depósitos.
Parte importante das transações era feita por meio da empresa Key Car, loja de veículos baseada em Osasco (SP). Os sócios, que estão presos desde dezembro, disponibilizavam o dinheiro vivo, diz a Promotoria.
A defesa de Eduardo Lopes defesa nega que se trate de lavagem de dinheiro e diz que a origem lícita do dinheiro pode ser comprovada. Ao menos dois denunciados afirmaram que precisavam de dinheiro em espécie para operações empresariais e que recorreram a Lopes para fazer empréstimo.
A Promotoria considerou que os investigados confirmaram que foram feitas transações financeiras sem lastro em relações comerciais verdadeiras. As defesas contestam esse entendimento.
“A consciência da participação no mecanismo de lavagem fica demonstrada a partir da admissão da ausência de lastro comercial, conjugada com o pagamento de comissão e recebimento de dinheiro em espécie, com posterior colocação de valores no sistema financeiro”, argumentou a promotora.
Outro lado
O advogado Luís Carlos Dias Torres, que defende Eduardo Lopes e tem oferecido consultoria jurídica a 3 dos 18 denunciados, afirma que o dinheiro depositado nas contas da Key Car tem origem “absolutamente lícita”. Ele afirmou também que a denúncia carece de provas que a sustentem, pois teria sido oferecida sem que perícias e quebras de sigilo bancário e fiscal, solicitadas pela própria promotoria, tenham sido feitas.
“Se o dinheiro que a Key Car disponibilizava em espécie vinha de origem criminosa, o Eduardo e os empresários amigos dele, para quem ele fez a ligação, não sabiam. Ninguém agiu para lavar dinheiro de PCC coisa nenhuma”, afirmou Torres. Ele também caracterizou a denúncia como “reciclagem de fatos” já apresentados nas denúncias anteriores.
Os advogados Cinthia Oliveira, Leandro Ponzo e Francisco Roberto Silva Júnior, que defendem outros três denunciados, afirmaram que seus clientes são inocentes. Todos afirmam que os suspeitos foram denunciados por situações regulares, como ser sócio de empresas investigadas sem ter participado de qualquer situação ilícita, ter sido cliente da Key Car ou ter solicitado empréstimo de dinheiro em espécie a Eduardo Lopes. (Tulio Kruse/FOLHAPRESS)
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