Professores analisam a prova do Enem; confira
O primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ainda nem terminou e os professores já estão fazendo análises sobre as escolhas para a edição de 2026. Terras raras, agroecologia, povos originários, feminismo, Hannah Arendt e nazismo foram alguns dos temas abordados neste domingo (8/11).
Além disso, o tema da redação exigiu que o participante desenvolvesse um texto sobre “A valorização do Sistema Único de Saúde (SUS) como direito universal”.
Veja a análise dos professores sobre as questões de Redação, Geografia, Filosofia, Sociologia, História e Inglês:
Sidinéia Azevedo, professora de Redação do Colégio Bernoulli
"O tema da redação do Enem 2026 é bastante interessante, mas exige uma atenção especial dos candidatos. Diferentemente de edições anteriores, em que o Inep apresentava comandos específicos, como ‘desafios’ ou ‘perspectivas’, desta vez a proposta não expõe diretamente um problema. Por isso, considerando que o Enem exige uma proposta de intervenção, o estudante precisava identificar e problematizar uma questão relacionada ao tema.
Ao abordar a importância da valorização do Sistema Único de Saúde (SUS), o candidato deveria destacar os aspectos positivos do sistema, mas também desenvolver uma análise crítica. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes que possui um sistema público de saúde universal e gratuito, o que demonstra a relevância do SUS para a população.
Outro aspecto importante é a abrangência dos serviços oferecidos. O SUS vai muito além do atendimento médico. Em casos de transplante, por exemplo, o sistema oferece desde as consultas e os procedimentos pré-operatórios até a cirurgia, o acompanhamento pós-operatório e o fornecimento de medicamentos imunossupressores ao longo da vida.
Além disso, sua atuação está presente em situações cotidianas, como a vigilância da qualidade da água que consumimos, a fiscalização sanitária e a regulamentação de medicamentos, por meio de órgãos como a Anvisa.
Nesse contexto, um dos principais caminhos para a construção da redação seria discutir a falta de conhecimento da população sobre a real dimensão dos serviços oferecidos pelo SUS. Muitas pessoas ainda associam o sistema exclusivamente ao atendimento médico, sem compreender sua atuação em diferentes áreas da saúde pública.
Portanto, o desafio do candidato era demonstrar a importância da valorização do SUS, reconhecer suas contribuições para a sociedade e, ao mesmo tempo, problematizar o desconhecimento da população sobre sua abrangência, apresentando uma proposta de intervenção coerente com a discussão desenvolvida.”
Juninho Lopes - Professor de Geografia do Bernoulli Educação
"A prova de Geografia do Enem manteve o mesmo nível das edições anteriores. Poucas questões cobraram conhecimento direto de conteúdo; a maior parte exigiu análise de texto e uma compreensão social da realidade brasileira.
A prova não trouxe questões de geopolítica propriamente dita. O Estreito de Ormuz apareceu, mas sem cobrar a essência do conflito, com foco em uma aproximação entre Irã e Paquistão. Já a questão sobre terras raras deu ênfase ao Sul Global. Com base em um gráfico que mostrava a China com as maiores reservas, seguida por Brasil e Índia, a questão abordou o potencial dos países emergentes de conquistar soberania geopolítica a partir do domínio desses recursos.
Os temas ligados ao campo tiveram peso na prova. A palavra agroecologia apareceu três vezes. Algumas questões cobraram do estudante uma consciência sobre problemas do Brasil, como a comoditização do campo e a necessidade de fomentar a agricultura familiar. O grande agronegócio produz para o mercado externo, e quem abastece a população brasileira são as pequenas e médias propriedades.
Na área ambiental, uma questão mostrou que a maior parte dos resíduos sólidos urbanos tem como destino os aterros sanitários, enquanto aterros controlados e lixões recebem a menor parcela, o que indica menor contaminação do meio ambiente pela destinação mais adequada desses resíduos. Outra questão exigia que o estudante dominasse conceitos como salinização e assoreamento.
A prova também contou com um gráfico e um mapa. Em relação às outras edições, isso é um avanço, porque exige do estudante uma base cartográfica e leitura de gráficos, ainda que simples.
A prova trouxe ainda uma questão de história econômica que relacionava o período de crescimento durante a ditadura militar, entre 1968 e 1973, à crise de endividamento dos anos 1980, conhecida como a década perdida.
A temática sustentabilidade foi abordada no que diz respeito a produção de energia fotovoltaica, no entanto com risco de impactos no futuro em função do lixo produzido pelo material utilizado por esse tipo de energia".
Renato Faria - Professor de Filosofia e Sociologia do Bernoulli Educação
"A prova de Ciências Humanas continua bastante engajada no sentido crítico e exige que o candidato esteja atento às grandes questões sociais. Os movimentos sociais tiveram destaque, sobretudo a identidade dos povos originários, que apareceu em várias questões.
Uma delas tratou do aumento do ingresso de indígenas nas universidades e da importância de políticas que garantam também a permanência desses estudantes. O movimento feminista foi outro eixo forte, com questões sobre a participação política das mulheres e uma crítica à forma como o discurso religioso medieval associava a figura feminina ao pecado.
Também estiveram presentes temas que chamamos de figurinhas carimbadas no Enem, como o patrimônio cultural enquanto memória coletiva, a valorização do movimento negro e as conquistas do movimento operário do século XIX. Na Sociologia, chamou atenção ainda um texto de Raymundo Faoro, de ‘Os donos do poder’, sobre o conceito de patrimonialismo.
O que mais me surpreendeu foi a estrutura da prova. Logo na primeira página, havia um texto de página inteira da Lilia Schwarcz sobre a construção dos museus, seguido de um bloco de questões ligadas a ele, que pediam ao candidato relacionar o texto ao pensamento pré-socrático e a discussões sobre etnocentrismo e pluralidade. Isso exigiu uma leitura profunda e concentrada, com idas e vindas ao texto. É um modelo que existia no início do Enem, mas que tinha dado lugar a textos curtos e fragmentados. Foi uma escolha que tornou a prova verdadeiramente interdisciplinar.
Em Filosofia, a prova teve menos vocabulário técnico e cobrou mais letramento filosófico, ou seja, a capacidade de interpretar um texto que não foi escrito para o grande público. Ainda assim, quem não dominava conteúdos clássicos teve dificuldade, como nas questões sobre os pré-socráticos, os contratualistas Hobbes e Rousseau, tratando da legitimidade do poder, e Aristóteles, sobre a ética aristotélica e a ação virtuosa.
O Enem reafirmou também a preferência por debates éticos e políticos, com uma questão sobre os limites do melhoramento genético na escolha de características dos filhos. Para mim, a questão mais complexa foi a que relacionou Hannah Arendt e Walter Benjamin para discutir a espetacularização e a estetização da política".
Marcio Edriano - Professor de História do Bernoulli Educação
"A prova de Ciências Humanas teve um olhar muito social e destacou grupos historicamente vulneráveis. Apareceram os povos originários e sua luta por autonomia, a exclusão das mulheres e a luta feminina por participação política, em mais de uma questão, além dos escravizados, dos ciganos, dos operários e do MST.
Também houve questões importantes sobre o combate ao fascismo, especificamente ao regime nazista. Os temas clássicos estiveram presentes, como as duas questões sobre o período militar e uma sobre a Guerra do Contestado, no início da República.
A grande novidade foi um texto único que serviu de base para cinco questões sobre museus e construção da memória, tema muito recorrente em toda a prova. Essas questões não eram exclusivamente de História: o mesmo tema foi explorado também a partir da Geografia e da Sociologia, o que exigiu do estudante uma leitura integrada da área.
Como é comum, a prova misturou questões fáceis, médias e difíceis, mas, de modo geral, não a considero fácil. Avalio como uma prova de nível médio para difícil, e também muito bonita".
Sérgio Eduardo - Professor de Inglês do Bernoulli Educação
"Nos temas, o Enem foi fiel à sua tradição. Houve questão sobre a importância da amizade e um poema sobre identidade cultural, algo muito presente quando falamos dos Estados Unidos, um país marcado pela imigração e pela mistura de culturas. Um texto sobre o voto parecia simples, mas não era: o candidato poderia achar que se tratava de regras de votação quando, na verdade, o texto falava da importância de cada um exercer esse direito, quase como uma obrigação. Houve ainda um texto muito interessante, com nível de dificuldade um pouco maior, em que a resposta não estava explícita. O aluno precisava compreender que ele tratava da capacidade de enxergar o mundo pelos olhos do outro, do poder da empatia.
Não foi uma prova difícil. Tivemos uma, talvez duas questões mais calibradas, e as demais mantiveram o padrão de nível médio do ano passado. Mas faço questão de ressaltar: não foram questões fáceis. Quando classificamos uma prova assim como fácil, acabamos levando o candidato a não se preparar. Foi uma prova bem calibrada, muito interessante, e quem estudou as estruturas ao longo do ano não deve ter tido problemas".
Maria Raquel Dias Sales Ferreira - Professora de Português do Bernoulli Educação
"O tema da redação, a valorização do SUS como direito universal, foi excelente e tem a cara do Enem. Os textos motivadores trouxeram o respaldo constitucional, com os artigos 196 e 198, a ideia de saúde como cidadania e não como privilégio, dados de uso do sistema, as contribuições do SUS em vacinação, transplantes e vigilância sanitária e epidemiológica, além da queda da mortalidade infantil desde 1990. É um direito social de grande relevância, que ficou ainda mais atual depois da pandemia. Cabia tanto apontar os desafios para essa valorização quanto contrastar sua importância com os obstáculos. A meu ver, o contraste é o caminho mais rico, porque os textos encaminhavam fortemente para a relação entre saúde, cidadania e direitos constitucionais.
A prova de Linguagens foi muito coerente, com boas escolhas de texto e distratores bem construídos, com poucas questões que abrem margem para mal entendidos. As temáticas foram bastante contemporâneas e voltadas à inclusão: racismo, machismo, capacitismo, arte indígena. Além disso, caíram questões sobre uso de redes sociais e inteligência artificial. Houve inclusive uma charge sobre IA e uma questão sobre ferramentas que identificam textos produzidos por IA. Também apareceram peças publicitárias sobre segurança no trânsito e expressões capacitistas, um infográfico sobre a Lei Rouanet, obras de Candido Portinari e uma artista que usa uma cartela de remédio como suporte para fotografia. A prova trouxe ainda uma canção de Dona Onete e a obra Calabar de Chico Buarque.
Como de costume, houve questões sobre função da linguagem, sobre gêneros textuais, sobre estruturas argumentativas, estratégia de fundamentação, resenha, quarta capa de livro, artigo de opinião. Tiveram também questões de gramática ligadas ao pretérito imperfeito e interpretação de texto.
O ponto que mais exigiu dos candidatos foi Literatura, com questões mais sofisticadas do que nos anos anteriores. O bloco de questões sobre um mesmo texto trouxe um trecho de ‘Menino de engenho’, de José Lins do Rego. É uma obra que não é simples e dialoga com o romance de 30. As questões cobraram aspectos estruturais, temáticos e estéticos, variação linguística, escolhas gramaticais e seus efeitos de sentido, além da relação com a historiografia literária. Foi uma abordagem ampla e profunda, que contemplou quem se preparou com leitura atenta e repertório consolidado".
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