A Pinacoteca da Santa Casa e o futuro do Centro
O futuro do Centro do Rio também depende do que a cidade conseguir reconhecer no interior de seus edifícios históricos. Nas salas e corredores de instituições seculares, pinturas e outros objetos guardam relações entre arte, assistência, religião e vida urbana que nem sempre chegam ao conhecimento do público. Recuperar esses acervos significa ampliar nossa compreensão do território, pois um prédio antigo ganha outra espessura quando podemos conhecer as pessoas, as práticas e as memórias que sustentaram sua permanência.
É nessa perspectiva que merece atenção a proposta de restauração de obras da Galeria de Pinturas e Retratos da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, acompanhada de ações de conservação do conjunto pictórico. Apresentado ao edital estadual Infracultura, o projeto se encontra em fase de avaliação. Sua formulação, entretanto, já permite discutir uma questão relevante para a cidade: o lugar das coleções históricas na revitalização do Centro e na construção de uma vida cultural mais próxima de seu patrimônio.
Essa galeria de retratos (muitos deles institucionais) pode parecer, à primeira vista, uma sucessão de homenagens particulares. Observada com atenção, revela modos de organizar a sociedade e a memória coletiva. A escolha de quem deveria ser retratado, a posição de cada figura, as roupas e os atributos representados fazem parte de uma linguagem pela qual uma instituição reconhece serviços, registra vínculos e apresenta à posteridade uma imagem de si. O retrato interessa tanto pelo indivíduo que representa quanto pelo universo social que tornou aquela representação necessária.
Essa leitura pede sensibilidade crítica. As galerias de benfeitores evidenciam determinadas trajetórias, enquanto tantas outras permanecem menos visíveis. Preservá-las permite examinar essas escolhas e formular novas perguntas sobre a história da assistência, do trabalho e da própria cidade. A conservação das pinturas favorece esse exercício porque mantém acessível a materialidade dos documentos. A superfície pintada, a inscrição e a composição são partes de um testemunho que perde força quando sua leitura se torna difícil ou quando a obra deixa de ser reconhecida como patrimônio.
A Santa Casa oferece, assim, uma oportunidade de pensar o potencial museológico de muitas das coleções mantidas por irmandades e instituições seculares do Rio. Esses conjuntos podem aproximar a história da arte de experiências concretas de sociabilidade, devoção e esmero. Seu interesse cresce quando permanecem relacionados aos lugares e às instituições que lhes deram sentido. O visitante encontra, então, uma continuidade entre o acervo e o espaço, capaz de tornar compreensíveis histórias que uma observação isolada dificilmente alcançaria.
Explorar esse potencial exige um trabalho continuado de documentação, pesquisa e comunicação. Inventariar, conferir identificações, estudar inscrições e organizar informações são tarefas que podem dar às obras novas condições de participação na vida pública. Há também um campo fértil para pensar percursos, materiais de interpretação e atividades educativas compatíveis com cada instituição. São possibilidades de desenvolvimento museológico e museográfico nas quais a valorização do acervo ajuda a levantar uma pauta, sem que seja necessário transformar toda coleção em um novo museu ou apagar a função original de quem a conserva.
Para o Centro, essa perspectiva tem consequências que ultrapassam as paredes da pinacoteca. Uma política de revitalização urbana ganha profundidade quando aproxima a recuperação dos edifícios da valorização das atividades, dos acervos e dos vínculos sociais que existem em seu interior. O patrimônio pode contribuir para que moradores, trabalhadores, estudantes e visitantes encontrem razões para conhecer melhor o território e frequentá-lo. Nesse processo, instituições de longa duração oferecem pontos de referência capazes de relacionar as transformações da cidade à sua memória.
No caso da Santa Casa, a dimensão cultural está enraizada na própria formação da cidade. Com origens no século XVI, a irmandade figura entre as mais antigas do Brasil e fez do cuidado aos enfermos e do amparo aos desassistidos uma de suas principais razões de existir. Seu hospital acolhia pessoas sem recursos, enquanto a ação assistencial da casa alcançava órfãos, viúvas e outros necessitados. Pela centralidade desse papel, pode ser evocada, em sentido figurado, como uma espécie de “primeiro SUS” do Brasil: uma instituição de socorro à população, orientada pela caridade cristã, séculos antes da organização do atual sistema público de saúde.
Essa longa trajetória encontra expressão na pinacoteca, que conserva retratos cuja datação alcança as primeiras décadas do século XVII, ainda próximas do nascedouro quinhentista da irmandade. São imagens de personagens ligados aos primeiros tempos da instituição, que nos aproximam dos rostos, dos vínculos e das formas de benemerência que ajudaram a sustentá-la. A valorização das pinturas pode, assim, ampliar o reconhecimento de um patrimônio em que a história da arte se entrelaça à história do piedade. Sua presença em percursos culturais e ações educativas, respeitadas as condições de funcionamento da casa, permitirá ao público conhecer uma instituição que acompanhou a formação do Rio e ajudou a amparar sua população ao longo dos séculos.
O edital Infracultura – da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa – SECEC/INEPAC – merece ser valorizado por abrir espaço para que necessidades dessa natureza sejam apresentadas à política cultural do Estado. A preservação de acervos depende de recursos, planejamento e trabalho especializado, muitas vezes difíceis de sustentar apenas com os meios cotidianos das instituições responsáveis. Ao oferecer uma oportunidade de apoio, o poder público estimula a elaboração de propostas e reconhece a importância de investir nas condições de permanência do patrimônio. É um campo no qual a ação estadual pode produzir benefícios duradouros para a sociedade.
Logicamente, esse reconhecimento não antecipa o resultado da seleção. A proposta da Santa Casa segue em avaliação, e sua execução dependerá dos desdobramentos desse processo e das condições necessárias à sua realização. Ainda assim, é pertinente elogiar a iniciativa de organizar uma resposta às necessidades do acervo e buscar os instrumentos disponíveis para viabilizá-la. Projetos de conservação ganham consistência quando a responsabilidade institucional encontra políticas públicas capazes de considerar o patrimônio como parte efetiva da vida cultural, com exigências próprias de continuidade e de cuidado.
O restauro, quando viabilizado, poderá representar uma etapa importante desse percurso. Seu alcance será maior se a atenção despertada pelas pinturas contribuir para fortalecer o compromisso cotidiano com a coleção e o interesse por seu estudo. As obras recuperadas podem voltar a suscitar perguntas, motivar pesquisas e participar de narrativas sobre a cidade. A qualidade de uma ação de preservação também se mede por essa capacidade de prolongar seus efeitos, tornando o acervo mais conhecido e criando razões para que seu cuidado permaneça uma prioridade.
A proposta da Santa Casa convida o Rio a olhar com mais atenção para o patrimônio que suas instituições continuam a guardar. Há muito a aprender com esses conjuntos e muito a construir a partir deles, inclusive no debate sobre o futuro do Centro. Reconhecer seu valor é atribuir lugar à memória nas escolhas que fazemos para a cidade. Quando a preservação das obras se articula à permanência das instituições e à possibilidade de conhecer suas histórias, a revitalização urbana adquire uma dimensão mais humana, enraizada naquilo que o Rio recebeu e tem a responsabilidade de transmitir.
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Museólogo e historiador da arte. Autor de "A Escultura Religiosa do Rio de Janeiro Colonial" e "A Escultura Religiosa na Antiga Capitania Real da Bahia de Todos os Santos", publicadas pelo IPHAN
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