Campo Grande News
08/11/2026 19:01

Ex-escravizada que ajudou a construir Campo Grande vira tema do Enem

A história de uma mulher que nasceu escravizada, conquistou a liberdade e fundou uma das comunidades negras mais antigas de Campo Grande entrou no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deste domingo (8). A questão 68 do caderno amarelo apresentou a trajetória de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, e o tombamento do quilombo que leva seu nome, o primeiro do Brasil a receber o reconhecimento pelo novo instrumento federal de proteção. A homenagem ocorre três dias antes do centenário de sua morte, em 11 de novembro de 1926. A pergunta apareceu na prova de Ciências Humanas, com um texto que conta como Tia Eva conquistou a liberdade no fim do século 19 e chegou à região em 1905. O enunciado também destaca que a comunidade, hoje com cerca de 250 famílias descendentes, recebeu o reconhecimento do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 2026, a partir de uma solicitação dos próprios moradores. Os estudantes precisavam identificar o significado histórico do tombamento. Entre as cinco alternativas, a letra A apresentava a expressão "memória social da resistência negra", relacionada à preservação da história de pessoas que enfrentaram a escravidão e construíram seus próprios espaços de liberdade. A presença de Tia Eva na avaliação nacional ocorre em um ano de conquistas para seus descendentes. Em março, o Iphan anunciou o tombamento da comunidade. O reconhecimento definitivo foi formalizado em maio, com a inscrição no Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos. O pedido partiu dos próprios quilombolas, em 2024. Durante o processo, técnicos do instituto levantaram informações sobre o território, as construções, as tradições e as referências culturais preservadas pelos moradores. O reconhecimento protege não apenas a Igreja de São Benedito, principal símbolo do lugar, mas também a área onde gerações de famílias negras construíram sua história. Em reportagem publicada pelo Campo Grande News no dia 10 de março, a professora e descendente da matriarca Vânia Lúcia Batista Duarte destacou que o tombamento representava uma confirmação da identidade dos moradores. A história já faz parte das atividades da Escola Estadual Antônio Delfino Pereira e do Centro Cultural de Educação Tia Eva, onde os alunos aprendem sobre a formação da comunidade. Da escravidão à formação do quilombo  - Eva Maria de Jesus nasceu em Mineiros, em Goiás, e recebeu sua carta de alforria em 1887, aos 49 anos. Ela tinha três filhas, Joana, Lázara e Sebastiana, quando decidiu deixar o estado e buscar um lugar para viver em liberdade. Chegou à região de Campo Grande em 1905 e passou a trabalhar como lavadeira, cozinheira, parteira, curandeira e benzedeira. Cinco anos depois, comprou uma área de oito hectares, onde reuniu familiares e outras pessoas negras. O território, inicialmente rural, cresceu até ser incorporado à área urbana da Capital. Hoje, a comunidade fica na região do Jardim Seminário, onde os descendentes mantêm tradições religiosas, culturais e familiares transmitidas ao longo de mais de um século. A história de Tia Eva também aparece em pesquisas sobre a formação de Campo Grande. Em reportagem especial publicada pelo Campo Grande News em 2022, o jornal mostrou como a presença negra na região se relaciona com a ocupação do território no fim do século 19 . A chegada da matriarca, em 1905, está registrada na memória dos descendentes e integra os estudos sobre os primeiros núcleos negros da cidade. A religiosidade também marcou a trajetória da ex-escravizada. Devota de São Benedito, ela fez uma promessa de construir uma capela caso fosse curada de uma ferida na perna. Segundo os relatos reunidos pela comunidade, ergueu uma pequena construção de pau-a-pique em 1906. Em 1919, o espaço deu lugar à igreja de alvenaria que permanece no bairro.  Antes de morrer, Tia Eva pediu que os descendentes mantivessem a festa dedicada ao santo. A celebração atravessou gerações e continua como uma das principais tradições do quilombo. A fundadora morreu em 11 de novembro de 1926, aos 88 anos, e seus restos mortais estão na Igreja de São Benedito. O sepultamento ocorreu originalmente em um cemitério ao lado do templo, desativado durante a urbanização do bairro.
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