Chilli Beans: por trás dos óculos coloridos, uma crise de R$ 340 milhões
Nem mesmo as marcas mais amadas pelos consumidores estão livres de crises. A Chilli Beans, uma das empresas brasileiras mais conhecidas do mercado de óculos e acessórios, experimenta isso na prática.
Criada no fim dos anos 1990, a companhia construiu uma marca associada à juventude, à música e à cultura pop e se transformou em uma das maiores redes de óculos da América Latina.
Agora, enfrenta uma situação bem diferente. O aumento do endividamento, as negociações com bancos para alongar prazos e reduzir juros e a mudança na estrutura de comando fazem parte do processo de reorganização financeira que levou a empresa a pedir recuperação extrajudicial no fim de outubro.
Em junho, o fundador da empresa, Caito Maia, já havia falado abertamente sobre a situação em uma entrevista ao UOL. Disse que a empresa estava alavancada e reclamou da taxa de juros elevada.
“O principal motivo é que a gente adquiriu dívida durante a pandemia, para passar pela pandemia, a gente adquiriu essa dívida com 2%, 3% de juros, agora está 20%”, afirmou, sem detalhar as condições e os prazos da dívida e quais os principais credores.
Com o pedido de recuperação extrajudicial, o valor da dívida que está sendo renegociada foi revelado: R$ 340 milhões. O montante, contudo, não inclui compromissos com fornecedores, funcionários e outros parceiros comerciais, mas apenas dívidas contraídas com bancos e instituições financeiras.
A Chilli Beans é uma empresa de capital fechado e, por isso, não divulga ao mercado demonstrações financeiras. Em 2025, à revista Exame, a empresa afirmou ter faturado R$ 1,2 bilhão, mas não havia fornecido informações sobre o endividamento.
Antes do pedido de recuperação extrajudicial, documentos obtidos pelo Times Brasil estimavam que a dívida bruta da companhia havia passado de R$ 216 milhões em 2023 para R$ 290 milhões em 2024, uma alta de aproximadamente 34% em apenas um ano. Informações publicadas pelo NeoFeed apontavam para uma deterioração ainda maior em 2025. Segundo o veículo, a dívida bruta teria chegado a aproximadamente R$ 600 milhões no fim daquele ano. A cifra, porém, não foi confirmada publicamente pela Chilli Beans, que não revela o tamanho total do passivo.
Um dos movimentos mais recentes que evidenciaram essa turbulência foi a chegada do executivo André Dela Togna à vice-presidência da Chilli Beans. Ele assumiu em outubro e trabalha ao lado do fundador e CEO, Caito Maia. A experiência profissional do novo executivo ajuda a explicar a escolha.
Dela Togna trabalhou na Galeazzi & Associados, consultoria especializada em reestruturação empresarial, e foi CEO da Paquetá The Shoes Company, companhia que passou por recuperação judicial. Ele chega à Chilli Beans acompanhado de profissionais ligados à área de reestruturação.
Em nota à Gazeta do Povo, a assessoria confirmou que André Dela Togna havia chegado à empresa para apoiar operacionalmente o CEO, Caito Maia, “que pretende se dedicar cada vez mais aos clientes e franqueados”.
A dívida começa a cobrar seu preço
A Chilli Beans é controlada pela holding Mustang 25 Participações. Em fevereiro de 2025, a holding emitiu notas comerciais que serviram de lastro para uma operação de R$ 100 milhões em debêntures da VERT Companhia Securitizadora, distribuídas a investidores profissionais. A operação previa pagamentos periódicos de juros e amortizações. A empresa deixou de pagar parcelas da dívida, incluindo as de julho e agosto de 2026, que somavam R$ 16,5 milhões.
Em 30 de setembro, a VERT declarou formalmente o vencimento antecipado da dívida e exigiu a quitação do saldo devedor, de aproximadamente R$ 89 milhões. Em assembleia realizada em 2 de outubro, os credores suspenderam temporariamente efeitos do vencimento antecipado e concederam prazo até 26 de outubro para a conclusão das negociações.
Em abril do ano passado, a empresa também contratou um limite de crédito de R$ 30 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os recursos foram destinados a financiar capital de giro e repasses a 235 franqueados e a micro, pequenas e médias empresas da cadeia produtiva que não pertencem ao grupo, segundo o banco de fomento.
Agora, o pedido de recuperação extrajudicial foi estruturado conjuntamente com o Itaú, a Akron Capital e a Vega. As instituições atuam como financiadores e coordenam a injeção dos novos recursos na recuperação.
Em comunicado à imprensa, a companhia não esclareceu a origem de suas dificuldades financeiras. De acordo com o fundador e presidente-executivo da Chilli Beans, Caito Maia, o varejo nacional passa por um período desafiador.
“Passamos por um momento difícil, mas saímos ainda mais fortes e conscientes do que representamos para milhares de consumidores e centenas de parceiros”, afirmou.
Empresa busca fôlego para reorganizar as contas
O desafio da varejista, neste momento, passa por manter a operação e continuar vendendo para conseguir administrar o custo do dinheiro. O efeito da atual taxa Selic (13,75% ao ano) sobre uma empresa endividada é direto: quanto mais cara a renovação dos empréstimos, maior é a parcela da geração de caixa que precisa ser destinada ao pagamento de juros, deixando menos recursos para estoques, investimentos e operação.
Antes mesmo do anúncio de recuperação extrajudicial, a estratégia já era aventada por analistas. Alexandre Temerloglou, consultor financeiro da Siegen Consultoria, especializada na reestruturação e recuperação de empresas, vislumbrava a via extrajudicial como uma saída mais provável para a Chilli Beans.”
“O que eles indicam é que estão fazendo as negociações de forma bilateral com os credores, isso pode encerrar o movimento de reestruturação em algum momento, se eles entenderem que foi suficiente, ou caminhar para uma extrajudicial, entendo que esses são os caminhos mais prováveis levando em conta o que a gente tem de conhecimento da empresa pela imprensa”, disse à época.
Marca aposta na força das franquias para seguir crescendo
Estruturada no modelo de franquia, a empresa tem como ponto forte as lojas físicas – ainda que tenha estrutura de vendas pela internet. A Chilli Beans tem atualmente dois segmentos, o tradicional, de óculos escuros, relógios e acessórios, e o de ótica.
No primeiro trimestre deste ano, Maia confirmou que buscava um sócio e estava disposto a vender 30% da empresa para financiar a expansão no segmento de óculos de grau, com maior potencial de crescimento, segundo ele. O novo sócio ainda não veio.
Em nota, a empresa se mostrou otimista com a continuidade da operação. Disse que espera crescer 10% em 2026 e que “prepara lançamentos especiais em homenagem às trajetórias de diversos artistas”. Parcerias com grandes marcas da moda e iniciativas com foco regional também estão em desenvolvimento para nos aproximar ainda mais de nossos consumidores”, informou a Chilli Beans, revelando a aposta na essência da marca.
“Ter uma marca forte, ainda mais no setor de varejo, como é o caso da Chilli Beans, com certeza auxilia muito em uma recuperação, é um produto que não precisa criar novamente a marca, o consumidor já conhece”, avalia Alexandre. O desafio que vai determinar o sucesso da recuperação, segundo ele, será manter a operação ativa, o produto na praça e o volume de vendas.
A Gazeta procurou a Chilli Beans e ofereceu espaço para uma entrevista, na qual a empresa poderia detalhar como enfrenta a crise financeira. A assessoria informou, contudo, que a companhia declinou do convite e se manifestou apenas por nota.
Maia transforma paixão pela música em negócio
A trajetória da varejista está diretamente ligada à personalidade do seu fundador. Antes de criar uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro, Caito Maia queria ser músico. Nos anos 1990, integrou bandas de rock e chegou a estudar música nos Estados Unidos. Para complementar o orçamento durante o período no país, começou a trazer óculos de sol da Califórnia para vender a amigos no Brasil.
Os óculos acabaram se tornando mais rentáveis que a música, mas o estilo “musical” criou a identidade da marca. Em 1997, Maia levou seus produtos ao Mercado Mundo Mix, feira que reunia moda e cultura jovem e alternativa em São Paulo. Foi ali que nasceu a Chilli Beans. No ano seguinte, veio a primeira loja, na Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta, também na capital paulista.
O modelo de negócio ajudou a acelerar a expansão. Em vez de depender apenas de grandes lojas, a empresa apostou em quiosques dentro de shopping centers e, posteriormente, em franquias. O próprio Maia descreveu, em várias entrevistas sobre sua trajetória, o primeiro quiosque, no Shopping Villa-Lobos, como um ponto de virada para a marca.
A estratégia, segundo ele, permitiu que a Chilli Beans crescesse com a ajuda de franqueados, que assumiam parte dos investimentos e da operação. Esse modelo faz a empresa ter atualmente presença em 14 países e mais de 1.100 lojas, cerca de 900 delas no Brasil.
A empresa também transformou o produto em acessório de moda. Os óculos deixaram de ser apenas uma necessidade funcional e passaram a ser vendidos como itens ligados à música, ao comportamento e à identidade.
O atendimento também foi um diferencial que ajudou a consolidar a marca. A própria companhia se apresenta como pioneira no conceito de ótica self-service.
Também ajudaram a tornar a marca conhecida a popularidade e o estilo do dono. Caito Maia se tornou uma personalidade conhecida dentro e fora do varejo. A participação como investidor no Shark Tank Brasil ajudou a transformar o fundador em uma espécie de personagem do empreendedorismo brasileiro.
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